As plataformas nas eleições · caso 1 de 7 · em curso · atualizado em 3/11/2026
Tecnologia · 12 fatos · 9 confirmados · 3 relatados
As big techs no Cade
O Palácio do Congresso Nacional, em Brasília, em 10 de junho de 2025; à esquerda, a cúpula da Câmara dos Deputados, onde o projeto aguarda votação. Imagem de lugar.. Leonardo Sá/Agência Senado · Wikimedia Commons · CC BY 2.0
O projeto do governo que dá ao Cade poder de impor obrigações às plataformas digitais de “relevância sistêmica” está pronto para o plenário da Câmara, em regime de urgência desde março. O relator, Aliel Machado, quer votá-lo até dezembro; a diplomacia americana atuou contra o texto, segundo a Folha.
Último fato, 31/10/2026relatado Governo e relator querem aprovar o projeto até dezembro; segundo a Folha, a diplomacia americana atuou contra o texto.
O caso
Cada fato traz a fase: confirmado é ato de órgão público, decisão judicial ou documento da própria plataforma; relatado, imprensa ou organização sem o documento primário; desmentido, o que a apuração oficial afastou.
O PL 4.675/2025, enviado pelo Poder Executivo em setembro de 2025 a partir de estudo do Ministério da Fazenda, muda a lei de defesa da concorrência para que o Cade possa designar grandes plataformas digitais como agentes de “relevância sistêmica” e impor a elas obrigações especiais, como não favorecer os próprios produtos, permitir aplicativos de terceiros e dar portabilidade de dados. Só podem ser designados grupos com faturamento acima de R$ 50 bilhões no mundo ou de R$ 5 bilhões no Brasil. O projeto trata de concorrência, não de conteúdo. A Câmara aprovou a urgência em 18 de março de 2026, e o relator, Aliel Machado (PV-PR), apresentou parecer preliminar em julho, mais restritivo que o original. Depois da eleição, governo e relator querem aprovar o texto na Câmara e no Senado até dezembro, antes da posse do novo Congresso; o presidente da Câmara, Hugo Motta, diz querer votar, mas sem pressa. As empresas acham as mudanças insuficientes, e diplomatas da embaixada americana pediram ao gabinete do relator, em julho, que a votação fosse adiada, dizendo agir a pedido das empresas. Em julho, os Estados Unidos impuseram tarifa de 25% a produtos brasileiros numa investigação comercial que inclui o tratamento dado no Brasil às empresas de tecnologia americanas; o documento do governo americano não cita o projeto.
- 4.675/2025número do projeto de lei na Câmara, de autoria do Poder Executivo, apresentado em 18/09/2025 (Câmara dos Deputados)
- R$ 50 bilhõesfaturamento bruto global anual mínimo para que um grupo possa ser designado; alternativamente, R$ 5 bilhões no Brasil (PL 4.675/2025; Agência Câmara, 26/09/2025)
- R$ 1 milhão/diamulta máxima por descumprimento das obrigações, a partir de R$ 20 mil por dia (Agência Câmara, 26/09/2025)
- 10 → 8 anosprazo da designação no texto original e no parecer preliminar do relator, renovável (Teletime, 02/07/2026)
- 301contribuições de 72 participantes na consulta pública da Fazenda que deu origem ao projeto, a Tomada de Subsídios SRE/MF nº 1/2024 (exposição de motivos do PL)
- 25%tarifa imposta pelos Estados Unidos a produtos brasileiros em 15/07/2026, ao fim da investigação da Seção 301, que inclui comércio digital (USTR, 15/07)
O que o projeto faz
O PL 4.675/2025 altera a Lei 12.529/2011, a lei de defesa da concorrência, e cria dois novos processos no Cade: um para designar agentes econômicos de “relevância sistêmica” em mercados digitais e outro para impor a eles obrigações especiais. Cria também, no Cade, a Superintendência de Mercados Digitais, que abre os processos; a decisão final é do tribunal do conselho (Agência Câmara, 26/09/2025).
Só podem ser designados grupos com faturamento bruto global acima de R$ 50 bilhões por ano ou acima de R$ 5 bilhões no Brasil. Contam ainda fatores como efeitos de rede, integração vertical, acesso a grande volume de dados e número de usuários. A designação vale por até dez anos, renováveis, alcança todo o grupo econômico e obriga a empresa a ter escritório no país (Agência Câmara, 26/09/2025).
Entre as obrigações possíveis estão submeter ao Cade as fusões e aquisições de que a empresa participe, divulgar critérios de ranqueamento e de preços, permitir a instalação de aplicativos de terceiros, oferecer portabilidade gratuita de dados e interoperabilidade e tratar usuários comerciais sem discriminação. Podem ser proibidos o favorecimento das próprias ofertas, a venda casada e estratégias predatórias. A multa por descumprimento vai de R$ 20 mil a R$ 1 milhão por dia (Agência Câmara, 26/09/2025).
O projeto trata só de concorrência e não regula o conteúdo publicado nas plataformas (Gazeta do Povo, 30/10). Entre as empresas que podem ser alcançadas, a imprensa cita Google, Meta, Microsoft, Amazon, Uber, iFood e 99 (Estado de Minas/Folhapress, 31/10).
De onde veio
O texto foi proposto pelo Poder Executivo. A exposição de motivos, de 26 de junho de 2025, é assinada pelos ministros da Justiça, Ricardo Lewandowski, da Fazenda, Fernando Haddad, da Gestão, Esther Dweck, e pelo advogado-geral da União, Jorge Messias, e diz que a proposta resulta de “extenso e aprofundado estudo realizado pelo Ministério da Fazenda”, com o Ministério da Justiça e a Secretaria de Comunicação Social, iniciado com uma consulta pública de 2024 que recebeu 301 contribuições de 72 participantes (PL 4.675/2025, inteiro teor).
O projeto foi apresentado à Câmara em 18 de setembro de 2025, com a Mensagem 1.342/2025. O modelo se inspira na lei de mercados digitais da União Europeia, com regulação econômica prévia, para “reduzir barreiras à concorrência antes que práticas monopolistas produzam efeitos anticompetitivos” (Estado de Minas/Folhapress, 31/10).
Na Câmara
Aliel Machado (PV-PR) foi designado relator em plenário em 7 de outubro de 2025. A deputada Caroline de Toni (PL-SC) pediu uma comissão especial para o projeto, e um requerimento de urgência foi apresentado em 1º de novembro de 2025 e aprovado em 18 de março de 2026, o que leva o texto direto ao plenário. Em 8 de julho de 2026, o relator apresentou parecer preliminar; em agosto, a Comissão de Desenvolvimento Econômico aprovou uma audiência pública sobre os impactos econômicos da proposta. A situação, na ficha da Câmara, é “pronta para pauta” no plenário (Câmara dos Deputados, dados abertos).
O parecer preliminar manteve os limites de faturamento, mas passou a exigir do Cade uma “análise conjunta e fundamentada” dos demais critérios, em vez de bastar um só; reduziu a designação de dez para oito anos; proibiu que o regulamento da superintendência crie poderes de sanção ou amplie os critérios previstos em lei; e criou um conselho consultivo (Teletime, 02/07/2026). Segundo o relator, o substitutivo deixa claro que as obrigações não atingem empresas que só usam as plataformas, como bancos e fintechs (Mobile Time, 11/08/2026).
Depois da eleição, governo e relator querem votar o texto na Câmara e no Senado até dezembro, antes da posse do novo Congresso. “Se não aprovar agora, depois é que não aprova. Temos que votar na Câmara e no Senado até o final do ano”, disse Aliel Machado. Uma reunião com os líderes partidários estava marcada para 3 de novembro; Hugo Motta (Republicanos-PB) disse querer votar o projeto, mas sem pressa, e as empresas consideraram insuficientes as mudanças do parecer (Estado de Minas/Folhapress, 31/10; Gazeta do Povo, 30/10).
Os Estados Unidos
Em 7 de julho de 2026, o conselheiro econômico da embaixada dos Estados Unidos, Matthew Lowe, e a assessora de economia digital Flora Lindsay-Herrera foram recebidos no gabinete do relator. Segundo Aliel Machado, que não estava presente, “eles vieram pedir mais tempo, dizer que as empresas procuraram eles, pediram a ajuda deles, e que não era a hora de votar”; a embaixada disse não comentar “conversas diplomáticas privadas” (Jornal de Brasília/Folhapress, 13/07).
Segundo a Folha, a diplomacia americana “entrou em campo para atuar contra o texto”, o que levou o próprio governo a “colocar o pé no freio” antes da eleição (Estado de Minas/Folhapress, 31/10).
O pano de fundo é comercial. Em 1º de junho de 2026, o Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) concluiu que práticas brasileiras de “comércio digital e serviços de pagamento eletrônico” são passíveis de retaliação, citando ordens judiciais para retirar conteúdo político de redes sociais americanas e a concorrência em pagamentos eletrônicos; em 15 de julho, impôs tarifa de 25% a parte dos produtos brasileiros. Os documentos do USTR não mencionam o projeto do Cade nem a regulação de mercados digitais (USTR, 01/06 e 15/07; tradução da Vigília).
Linha do tempo 12
- 26/6/2025confirmado Os ministérios da Justiça, da Fazenda e da Gestão e a AGU assinam a exposição de motivos do projeto que dá ao Cade poder sobre plataformas de relevância sistêmica.
- 18/9/2025confirmado O Poder Executivo apresenta à Câmara o PL 4.675/2025.
- 7/10/2025confirmado Aliel Machado (PV-PR) é designado relator em plenário.
- 22/10/2025confirmado A deputada Caroline de Toni (PL-SC) pede comissão especial para o projeto.
- 18/3/2026confirmado A Câmara aprova a urgência para o PL 4.675/2025.
- 1/6/2026confirmado O USTR conclui que práticas brasileiras de comércio digital são passíveis de retaliação pela Seção 301.
- 2/7/2026relatado O relator divulga parecer preliminar: análise conjunta dos critérios, designação de oito anos e limites ao poder regulamentar do Cade.
- 7/7/2026relatado Diplomatas da embaixada americana pedem ao gabinete do relator que a votação seja adiada, segundo Aliel Machado.
- 8/7/2026confirmado O parecer preliminar de plenário é protocolado na Câmara.
- 15/7/2026confirmado Os Estados Unidos impõem tarifa de 25% a produtos brasileiros ao fim da investigação da Seção 301.
- 12/8/2026confirmado A Comissão de Desenvolvimento Econômico aprova audiência pública sobre os impactos econômicos do projeto.
- 31/10/2026relatado Governo e relator querem aprovar o projeto até dezembro; segundo a Folha, a diplomacia americana atuou contra o texto.
Vídeos 3
De canais oficiais e de imprensa. O vídeo só carrega quando você aperta o play, no modo sem cookies do YouTube.
Governo apresenta projeto para regular concorrência de big techs
O projeto no dia em que chegou à Câmara.
Lula envia à Câmara projeto para regular big techs economicamente no Brasil
O envio do projeto e o que muda para as plataformas.
Governo envia projeto de big techs que amplia poder do Cade
A leitura econômica do projeto, no fechamento do mercado.
Imagens 1
Cada imagem com o autor, a licença e o link para a página de origem. Servidas pela Vigília, em cor.
O Palácio do Congresso Nacional, em Brasília, com a cúpula da Câmara dos Deputados à esquerda, 10/06/2025 (imagem de lugar). Leonardo Sá/Agência Senado, 2025 · Wikimedia Commons · CC BY 2.0
Matérias 4
A imprensa e os textos de referência contextualizam; o que sustenta o marco são as fontes, abaixo.
- Projeto do governo estabelece medidas para proteção da concorrência em mercados digitais
O que o texto original prevê, ponto a ponto.
- PL dos mercados digitais: o parecer do relator
O que o parecer de Aliel Machado mudou.
- Embaixada dos EUA procura relator para adiar regulação de mercados digitais a pedido de big techs
O encontro dos diplomatas americanos com o gabinete do relator.
- Governo Lula e relator querem aprovar regulação concorrencial das big techs até o fim do ano
O calendário depois da eleição e a resistência americana.
Fontes 10
A atuação da diplomacia americana contra o texto tem como fonte a Folha (Folhapress), em duas reportagens; o encontro de julho é relatado pelo relator, que não estava presente, e a embaixada não comentou. Não se encontrou documento do governo americano sobre o projeto; os do USTR tratam de comércio digital em geral e não o citam. O resultado da reunião de líderes de 3 de novembro não foi localizado até o fechamento desta página. O texto do parecer preliminar não foi aberto; as mudanças vêm do Teletime e do Mobile Time, e podem ter sido alteradas depois. A estimativa de quantas empresas seriam designadas não foi conferida. A origem na Fazenda está na exposição de motivos do próprio projeto, que é interministerial (Justiça, Fazenda, Gestão e AGU). As citações em inglês foram traduzidas pela Vigília.
- PL 4.675/2025: ficha de tramitação e autoria (dados abertos, 3/11/2026)
- PL 4.675/2025, inteiro teor, com a exposição de motivos EMI nº 99/2025
- Projeto do governo estabelece medidas para proteção da concorrência em mercados digitais (26/09/2025)
- Governo Lula e relator querem aprovar regulação concorrencial das big techs até o fim do ano (31/10/2026)
- Relator quer votar regulamentação das big techs ainda neste ano (30/10/2026)
- Embaixada dos EUA procura relator para adiar regulação de mercados digitais a pedido de big techs (13/07/2026)
- PL dos mercados digitais: o parecer do relator (02/07/2026)
- PL 4675: relator vê chance de aprovação neste ano (11/08/2026)
- USTR Section 301 Determination on Brazil’s Unreasonable Acts, Policies, and Practices (01/06/2026)
- USTR Section 301 Action on Brazil’s Unreasonable Acts, Policies, and Practices (15/07/2026)


