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Divisão · o método à vista

Ciência

O método à vista.

Placa de vidro da coroa solar no eclipse de Sobral (CE), 29 de maio de 1919, feita por Henrique Morize, com as marcas de calibração à esquerda (negativo invertido). Henrique Morize, 1919 · Observatório Nacional, acervo das placas do eclipse de 1919 · domínio público

1O que é

Como se sabe o que se sabe, e como se confere um número antes de passá-lo adiante.

A divisão começa pelo método que a casa já usa em todas as outras: o caso de uma planilha que virou política, a régua do gráfico honesto e como a ciência corrige a si mesma.

2As seções

4 no ar · 2 em preparo · 1 ideia

  • no ar O número que muda no caminho o erro de planilha de Reinhart e Rogoff, e a frase que perdeu o limite
  • no ar A régua do gráfico o que conferimos em todo gráfico, o nosso e o do outro
  • no ar Como a ciência sabe a revolução que o manual apaga, e a afirmação exposta à contestação
  • no ar A curva da covid-19 as mortes por dia e o que o governo dizia, no sem ar
  • em preparo A fala conferida contra o áudio as falas do sem ar ouvidas na gravação original
  • em preparo Histórias da medicina série em áudio de 2020, com textos de Luis Dolhnikoff
  • ideia Desinformação o número solto, sem o contexto que o faz dizer alguma coisa

3O que já existe

O número que muda no caminho

Em 2010, dois economistas de Harvard, Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff, escreveram que, acima de 90% de dívida pública sobre o PIB, o crescimento despencava. Três pesquisadores refizeram a conta com os mesmos dados e acharam exclusões, uma ponderação torta e um erro de planilha. Corrigida, a média era de crescimento.

“Over 1946–2009, countries with public debt/GDP ratios above 90% averaged 2.2% real annual GDP growth, not −0.1% as published.”

Thomas Herndon, Michael Ash e Robert Pollin, Does High Public Debt Consistently Stifle Economic Growth?, 2013, p. 1

No caminho, a frase também perdeu o limite. Os autores tinham escrito que a mediana caía “cerca de um por cento”; no orçamento do deputado americano Paul Ryan, a mesma pesquisa virou prova conclusiva:

“found conclusive empirical evidence that gross debt […] exceeding 90 percent of the economy has a significant negative effect on economic growth”

Paul Ryan, citado por Herndon, Ash e Pollin, The Path to Prosperity, 2013, p. 78 (citado na p. 5)

A régua do gráfico

Todo gráfico enquadra. O que se cobra é a escolha que muda a conclusão sem se declarar. A régua vale para o gráfico do outro e para o nosso:

  1. Os dados. Que fonte, que período, o que ficou de fora. O ponto de partida escolhido muda a tendência.
  2. A forma. Barra começa no zero. Correlação traz a frase que diz se há causa.
  3. O texto. O título afirma a conclusão; a fonte, o método e a incerteza ficam junto do gráfico.
  4. A soma. O viés raramente está num truque só: está em muitas escolhas pequenas. Confere-se o conjunto.
  5. O leitor. A página faz a conta e dá o resultado em frase, uma variável por gráfico.

A régua das páginas da Vigília (2026), sobre Segel e Heer (2010), Hullman e Diakopoulos (2011), Tufte (2001) e Cairo (2019).

“To be truthful and revealing, data graphics must bear on the question at the heart of quantitative thinking: ‘Compared to what?’”

Edward Tufte, The Visual Display of Quantitative Information, 2ª ed., 2001, p. 74

“Starting a bar chart at a baseline different from zero is the most conspicuous trick in the book to distort your perception of numbers.”

Alberto Cairo, How Charts Lie, 2019, p. 13

“A designer might opt to use many less obvious framing strategies […] so as to reduce the appearance of bias.”

Jessica Hullman e Nicholas Diakopoulos, Visualization Rhetoric, 2011, p. 2236

“Você tem, na realidade, um caso que soa como uma piada ou uma figura de linguagem: quase todo mundo está abaixo da média.”

Darrell Huff, Como mentir com estatística, 1954, trad. Bruno Casotti, cap. 2

“Se tivermos que arredondar os números, devemos arredondá-los em nosso desfavor. Isso protege nossa reputação e significa que nunca damos às pessoas motivo para pararem de ouvir.”

Hans Rosling, Ola Rosling e Anna Rosling Rönnlund, Factfulness, 2018, trad. Vitor Paolozzi, cap. 10

“In a human conversation a number is high or low relative only to some standard, and the only relevant standard is provided by the humans involved.”

Deirdre McCloskey, The Rhetoric of Economics, 2ª ed., 1998, p. 100

Quem lê o gráfico. Pelo Inaf 2024, 35% dos brasileiros de 15 a 64 anos resolvem problemas com porcentagem, e 10% leem gráfico de mais de duas variáveis e reconhecem distorção. Por isso a página faz a conta.

Ação Educativa e Conhecimento Social, Relatório Inaf Brasil 2024 (2025), tab. 2, p. 17, e tab. 3, p. 19.

Como a ciência sabe

A afirmação exposta. A ciência moderna nasce quando a afirmação deixa de bastar a quem a faz e passa a ser exposta à contestação dos outros. É a regra da casa: fonte, data e método, à vista.

“Qualquer afirmação deve ser ‘publicada’, isto é, ligada ao controle por parte de outros, deve ser apresentada e demonstrada a outros, discutida e submetida a eventuais contestações.”

Paolo Rossi, O nascimento da ciência moderna na Europa, 1997, trad. Antonio Angonese, Premissa

O manual apaga a revolução. As revoluções científicas somem pela rotina: o livro didático é reescrito, e a nova edição faz parecer que sempre se soube.

“Uma vez reescritos, dissimulam inevitavelmente não só o papel desempenhado, mas também a própria existência das revoluções que os produziram.”

Thomas Kuhn, A estrutura das revoluções científicas, 5ª ed. brasileira, cap. 10

A impressão que vira fato. Margaret Masterman contou os usos da palavra-chave de Kuhn, e Kuhn aceitou a conta: “o autor é vago” virou um número que se pode conferir.

“On my counting, he uses ‘paradigm’ in not less than twenty-one different senses.”

Margaret Masterman, em Lakatos e Musgrave (orgs.), Criticism and the Growth of Knowledge, 1970, p. 61

A imagem é uma das placas de vidro do eclipse de 29 de maio de 1919, fotografado em Sobral (CE) pela expedição do Observatório Nacional. O original é um negativo; aqui ele vai invertido, como o olho veria: o disco escuro da Lua e, em volta, a coroa do Sol.

4Na gaveta

Projetos idealizados, ainda sem data. Ficam aqui para que se veja o que a divisão pode vir a ser.

  • A desinformação antivacinacomo ela circula e o que a pesquisa dizData story - webensaios (cofre)
  • Os recordes de calor em São Pauloa temperatura da cidade, ano a anoData story - webensaios (cofre)

As cinco divisões, lado a lado

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