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A régua

O que chamamos de fascismo, e por quê

A palavra gasta perde a força quando mais se precisa dela. Por isso a Vigília só a usa com critério, e diz qual.

A multidão nos Champs-Élysées vê passar os blindados da 2ª Divisão Blindada francesa depois da libertação de Paris, 26 de agosto de 1944, com a faixa “Vive de Gaulle”. Jack Downey, U.S. Office of War Information, 1944 · U.S. Office of War Information (Library of Congress), via Wikimedia Commons · domínio público

Há duas maneiras sérias de reconhecer o fascismo, e a Vigília usa as duas, dizendo em cada caso qual. A primeira é uma lista de traços, de Umberto Eco. A segunda é um ciclo de comportamento, de Robert Paxton. Uma reconhece; a outra diz quando o que se reconheceu se torna perigoso.

1. Eco: um ar de família, não uma essência

Numa conferência de 1995, Eco parte de uma constatação: o fascismo italiano não tinha doutrina.

“Mussolini não tinha qualquer filosofia: tinha apenas uma retórica.”

Umberto Eco, “O fascismo eterno” (1995), em Cinco escritos morais, trad. Eliana Aguiar (Record, 1998); segundo movimento do ensaio

Sem essência, o reconhecimento se faz por semelhança, como Wittgenstein dizia da palavra “jogo”: o que se chama de fascismo é uma cadeia de parecenças. Daí a lista dos catorze traços do que ele chama de Ur-Fascismo, o fascismo eterno, e a cláusula que a governa:

“Tais características não podem ser reunidas em um sistema; muitas se contradizem entre si e são típicas de outras formas de despotismo ou fanatismo. Mas é suficiente que uma delas se apresente para fazer com que se forme uma nebulosa fascista.”

Umberto Eco, “O fascismo eterno” (1995), em Cinco escritos morais, trad. Eliana Aguiar (Record, 1998); a passagem que abre a lista

Os catorze traços, em uma linha cada

nºo traçonas palavras de Eco
1culto da tradição“não pode existir avanço do saber. A verdade já foi anunciada de uma vez por todas”
2recusa da modernidade“O iluminismo, a idade da Razão eram vistos como o início da depravação moderna”
3culto da ação pela ação“Pensar é uma forma de castração”
4o desacordo é traição“O espírito crítico opera distinções, e distinguir é um sinal de modernidade”
5medo da diferença“O Ur-Fascismo é, portanto, racista por definição”
6frustração individual ou socialo “apelo às classes médias frustradas”
7nacionalismo e obsessão do complô“os únicos que podem fornecer uma identidade às nações são os inimigos”
8o inimigo forte e fraco demaisum “contínuo deslocamento de registro retórico”
9vida para a lutao pacifismo como conluio com o inimigo
10elitismo popular“patrícios não podem existir sem plebeus”
11o herói e o culto da morte“O herói Ur-Fascista espera impacientemente pela morte”
12machismoa vontade de poder transferida para “questões sexuais”
13populismo qualitativo“O povo é, assim, apenas uma ficção teatral”
14neolíngua“mesmo quando tomam a forma inocente de um talk-show popular”

O que a lista não resolve. Os traços não são da mesma natureza: há doutrinas, disposições, procedimentos de linguagem e estruturas, e a palavra “arquétipo” cobre a diferença em vez de resolvê-la. E a cláusula do “basta um” é larga demais: se um dos traços é o racismo “por definição”, todo racismo vira fascismo, o que diz mais do que o ensaio quer dizer. A lista serve para reconhecer, não para concluir.

2. Paxton: o que fazem, e quem deixa fazer

O historiador americano propõe olhar o comportamento, não o discurso:

“Este livro adota a posição de que o que os fascistas fizeram é, no mínimo, tão informativo quanto o que disseram.”

Robert O. Paxton, A anatomia do fascismo (2004), trad. Patrícia Zimbres e Paula Zimbres (Paz e Terra, 2ª ed., 2023); cap. 1, “As imagens do fascismo”

O fascismo, para ele, é um ciclo em cinco estágios: a criação do movimento, o enraizamento, a chegada ao poder, o exercício do poder e, por fim, a radicalização ou a entropia. Nenhum movimento precisa passar por todos, e nenhum chegou ao poder por golpe nem por maioria eleitoral: foram convidados por elites conservadoras que preferiram essa saída a outras.

“Tudo o que é necessário para se encaixar em nosso modelo é polarização, impasse, mobilização de massas contra inimigos internos e externos e cumplicidade por parte das elites existentes.”

Robert O. Paxton, A anatomia do fascismo (2004), trad. Patrícia Zimbres e Paula Zimbres (Paz e Terra, 2ª ed., 2023); cap. 4, “Comparações e alternativas”

Daí o sinal de alerta que ele dá:

“Os fascistas se aproximam do poder quando os conservadores começam a tomar emprestado suas técnicas, apelar a ‘paixões mobilizadoras’ e a tentar cooptar suas hostes.”

Robert O. Paxton, A anatomia do fascismo (2004), trad. Patrícia Zimbres e Paula Zimbres (Paz e Terra, 2ª ed., 2023); cap. 7, “O fascismo fora da Europa”

E a fronteira que impede de chamar de fascista toda ditadura:

“Os autoritários preferem deixar suas populações desmobilizadas e passivas, ao passo que os fascistas querem engajar e excitar o público.”

Robert O. Paxton, A anatomia do fascismo (2004), trad. Patrícia Zimbres e Paula Zimbres (Paz e Terra, 2ª ed., 2023); cap. 8, “Fronteiras”

O que o ciclo não resolve. A definição final de Paxton pede limpeza étnica e expansão externa, e o próprio livro conclui que nenhum partido de extrema direita bem-sucedido na Europa propunha isso. O presente, então, só se lê pelos primeiros estágios. E o livro é de 2004: não conhece a extrema direita da década de 2010, e sobre o Brasil fala do integralismo e de Vargas.

3. Como a Vigília usa as duas

  1. A palavra vem com o critério. Quando a Vigília disser fascista, dirá qual traço de Eco aparece e em que estágio de Paxton o caso está.
  2. O alvo é a ação. O ataque às eleições, à imprensa, aos direitos, à violência contra um inimigo interno. Opinião conservadora não é alvo de denúncia: é interlocutor de debate.
  3. Conservador não é reacionário, e autoritário não é fascista. As distinções existem para que a palavra continue a significar alguma coisa.
  4. O que basta para começar é pouco. Paxton fecha o livro lembrando que o fascismo não precisa de uma marcha espetacular para se enraizar: “decisões anódinas de tolerar o tratamento ilegal dos inimigos nacionais são o bastante” (cap. 8). É por isso que a régua se aplica cedo.

As citações foram tiradas das edições digitais das duas obras, que não trazem a paginação do livro impresso; por isso vão com o capítulo e a seção (Paxton) ou com a passagem e o traço (Eco). Serão conferidas no impresso, e a página ganhará o número da página. Achou um erro? Avise.

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