Floresta · dossiê de vozes · 30/10/2026
A palavra dos povos
Sete povos, cada um com seu nome. A palavra deles sobre a terra, os rios e os bichos, com o livro e a página de onde vem.
A regra
“O melhor é cada povo ser chamado com seu nome.”
Esta página segue a regra de Américo Socot. Não fala dos povos indígenas em geral. Dá a cada povo o nome, o lugar e a própria voz.
As vozes vêm de livros. Seis são da coleção Mundo Indígena, da editora Hedra. Um é de Ailton Krenak, pela Companhia das Letras.
Xamanismos ameríndios, p. 169, no capítulo de Danilo Paiva Ramos.
Antes de ler: de quem é a frase?
Quatro frases, quatro povos diferentes. Escolha um nome para cada uma e veja quem disse.
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“Eu falo para a chuva: ‘Não chove que faz mal’ e a chuva escuta.”
Ver de quem é
Bepkro, do povo Xikrin (Mebengokré), da Terra Indígena Trincheira-Bacajá. Ler mais
Xamanismos ameríndios, p. 427, no capítulo de Paride Bollettin.
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“É uma linha imaginária. De fato, se a gente olha no chão, ela não existe…”
Ver de quem é
Timóteo Verá Tupã Popygua, guarani mbya, sobre a fronteira entre os países, numa fala de 27 de julho de 2005. Ler mais
A terra uma só, posfácio de Anita Ekman, p. 64, que transcreve a fala.
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“Os napë não fizeram surgir o tabaco depois de soprar as sementes.”
Ver de quem é
Os pajés yanomami do grupo Parahiteri. Napë são os estrangeiros, em geral os brancos. Ler mais
O surgimento da noite, p. 38; a palavra napë, p. 27, nota 3.
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“Meu pai, ao me ensinar, me dizia: ‘escuta com sabedoria o canto dos pássaros.’”
Ver de quem é
Atanásio Teixeira, ñanderu kaiowá, lembrando a infância. Ler mais
Cantos dos animais primordiais, p. 24.
Nenhuma destas frases é de um povo genérico. Cada uma tem quem a disse, onde vive e em que página está.
Tríplice Fronteira e São Paulo
Guarani Mbya
Timóteo Verá Tupã Popygua
“A Yvyrupa tem dono. Quem é o dono? Somos os que vivem há milhares de anos aqui, mas estamos apenas de passagem na Terra, porque somos jardineiros no jardim de Nhanderu.”
A folha divina, p. 43.
“O ser humano depende da Terra para existir, mas a Terra não depende de nós.”
A folha divina, p. 53.
Timóteo nasceu em 1969 em Yvy mbyte, “hoje conhecida como Tríplice Fronteira”. Em 2003, tornou-se cacique da Terra Indígena Tenonde Porã, em São Paulo. O livro de 2024 o apresenta como cacique da tekoa Takuari, em Eldorado (SP).
Yvyrupa é a terra dos Guarani Mbya, e também o planeta. O primeiro livro dele conta a caminhada dos antepassados até os dois oceanos. “Em cada lugar que chegavam davam um nome.”
Sobre a Mata Atlântica, ele escreve: “restam menos de 7 % de sua cobertura original”.
A terra uma só, pp. 41, 55, 56, 60, 76 (glossário); A folha divina, quarta capa, p. 6.
Amambai, Mato Grosso do Sul
Kaiowá
Ava Ñomoandyja Atanásio Teixeira
“No princípio, chamado pelos Kaiowá e Guarani de Áraypy, todas as aves e animais da mata conversavam uns com os outros, eram considerados humanos. […] Até hoje, cada um deles conta suas origens e seu modo de ser por meio de um canto guahu.”
Cantos dos animais primordiais, p. 31.
Não ria da minha corcunda
Não ria da minha corcunda
O canto do Bugio. Cantos dos animais primordiais, p. 86.
Atanásio era ñanderu, xamã e rezador kaiowá. Nasceu em 1922 em Guaviraty, hoje Vila Marques, na fronteira com o Paraguai. Viveu em Limão Verde, em Amambai (MS).
Escolheu 26 cantos de aves e bichos do mato para publicar. A prosa foi escrita pelo historiador kaiowá Izaque João, a partir das falas dele. O motivo, diz o livro: as aldeias “já não conservam hoje as condições ambientais necessárias” para que as crianças conheçam esses bichos.
O livro, de 2022, apresenta Atanásio como vivo e em atividade. Ele morreu em 2023, segundo Tatiane Klein, coorganizadora do volume.
Cantos dos animais primordiais, pp. 16-17, 20, 23; a morte, em Xamanismos ameríndios, p. 244, nota.
Vale do rio Doce
Krenak
Ailton Krenak
Para Ailton Krenak, o rio Doce não é um recurso, como dizem os economistas. É uma pessoa. Os Krenak o chamam de Watu, o avô.
Quando a barragem de Fundão se rompeu, em novembro de 2015, a lama chegou ao rio. Krenak recusa a palavra acidente: chama de crime o que houve. Diz que o rio ficou em coma, e que o povo se viu num mundo que acabou. Quem nomeia a barragem e a data é uma nota do editor, não o autor.
Ele nasceu em 1953, no vale do rio Doce, território do povo Krenak. O nome do povo, explica, junta kre, cabeça, e nak, terra.
O livro reúne três falas feitas em Lisboa, em 2017 e 2019, postas por escrito por outras mãos.
Ailton Krenak, Ideias para adiar o fim do mundo (Companhia das Letras, 2019): “Do sonho e da terra” (o rio, o crime, o nome), a nota do editor, “Sobre o autor” e “Sobre este livro”. Sem citação literal: a edição lida não tem a paginação do impresso.
Terra Indígena Trincheira-Bacajá
Xikrin
Bepkro, do povo Mebengokré
“Quando a chuva vem eu fico fora, lá no meio, e não chove mais não… Eu falo para a chuva: ‘Não chove que faz mal’ e a chuva escuta.”
Xamanismos ameríndios, p. 427.
Os Xikrin da Terra Indígena Trincheira-Bacajá são cerca de duas mil pessoas, em trinta aldeias. Paride Bollettin, autor do capítulo, acompanhou o xamanismo de Bepkro: curas, caças, chuvas e a defesa do território.
Xamanismos ameríndios, capítulo de Paride Bollettin, pp. 411-432; a população, p. 413.
Rio Ibuaçu, Acre
Caxinauá
Dois jovens caxinauás, sem nome no livro
“— Esculhambei porque ela só comia o milho verde do meu roçado. Eu a insultei e ela foi embora.”
A mulher que virou tatu, p. 34.
“A história diz que quem domesticou a batata doce para podermos comer foi o tatu, e quando não tinha batata doce para comer, o tatu comia minhoca.”
A mulher que virou tatu, p. 42.
Uma velha sem dentes só consegue comer milho verde. A família a acusa de acabar com o milharal. Ela vai para o mato, cava um buraco e vira tatu. A fala acima é do genro, quando cobrado.
A história veio de dois jovens do rio Ibuaçu, na bacia do Juruá, no Acre. O historiador Capistrano de Abreu a registrou com eles e a publicou em 1914. A etnolinguista Eliane Camargo refez a grafia e a tradução, porque “os próprios caxinauá não conseguem ler esses relatos de cem anos atrás”.
O livro usa o nome caxinauá. O registro de 1914 se chama Hantxa huni kuin.
A mulher que virou tatu, pp. 6, 11-13.
Barcelos, Amazonas
Yanomami
Os pajés do grupo Parahiteri
“Não foi outro que fez anoitecer: foi Horonamɨ, e apenas Horonamɨ.”
O surgimento da noite, p. 19.
“Nossos antepassados e os antepassados dos napë não comeram banana desde o início. Hoje, tanto os napë quanto os Yanomami plantam bananas, a partir do ensinamento de Horonamɨ.”
O surgimento da noite, p. 60.
Horonamɨ é o grande pajé das histórias. Foi ele quem procurou a noite, o tabaco, o cipó das redes e a banana. Os napë, os brancos, aparecem sempre como quem recebeu depois.
O pajé Moraes, da comunidade de Komixipɨwei, contou as histórias em junho de 2009, com os pajés Mauricio, Romário e Lauro. As comunidades ficam em Barcelos (AM), no Médio Rio Negro. Anne Ballester traduziu com professores yanomami.
Os Yanomami vivem em Roraima, no Amazonas e na Venezuela. O livro fala em 35 mil pessoas e quatro línguas.
O surgimento da noite, pp. 11-12, 27 (nota 3).
Alto Rio Negro
Hupd’äh
Américo Socot
“Não há como colocar o hãwäg dos quatro povos numa mesma panela e misturar. O benzimento dos Hupd’äh é só dos Hupd’äh, não vai ser de outro. O melhor é cada povo ser chamado com seu nome.”
Xamanismos ameríndios, p. 169.
Foi numa reunião da Funai, em 2017. Linguistas propunham dar à família das línguas hup, yuhup, dâw e nadëb um nome feito de pedaços dos quatro nomes. Américo Socot recusou.
Danilo Paiva Ramos, um dos organizadores do livro, estava entre os que propunham. No capítulo, chama a proposta de equívoco. Do ponto de vista hupd’äh, era gestar quatro gêmeos no mesmo útero.
Os Hupd’äh são 2.634 pessoas, segundo o capítulo.
Xamanismos ameríndios, capítulo de Danilo Paiva Ramos, pp. 157-188; a população, p. 168; o erro, pp. 179-180.
Como ler estas vozes
Quase nenhuma destas palavras chegou ao papel sem outras mãos. Houve gravação, transcrição, tradução e edição. Cada livro diz quem fez o quê, e esta página repete.
O antropólogo desana Jaime Diakara diz o que fazer com os livros escritos por quem é de fora:
“Quando nós vamos estudar essas obras produzidas pelos pesquisadores não indígenas, nós temos que reescrevê-las do jeito que os nossos sábios (avós) falam de nossos conhecimentos, com seus próprios nomes e com as suas próprias formas de se expressar.”
Xamanismos ameríndios, p. 107. Diakara escreveu o capítulo em tukano; quatro colegas indígenas o traduziram (p. 105).
Fontes
- Timóteo Verá Tupã Popygua, A terra uma só / Yvyrupa, org. Anita Ekman (Hedra, 2ª ed., 2022; 1ª ed., 2017). A fala de 2005 está no posfácio de Anita Ekman.
- Timóteo Verá Tupã Popygua, A folha divina / Ka’a miri’i, org. Anita Ekman (Hedra, 2024).
- Ava Ñomoandyja Atanásio Teixeira, Cantos dos animais primordiais, org. e trad. Izaque João, coorg. Spensy Pimentel e Tatiane Klein (Hedra, 2022).
- O surgimento da noite / Ruwëri, histórias dos pajés yanomami do grupo Parahiteri, org. e trad. Anne Ballester (Hedra, 2ª ed., 2022; 1ª ed., 2017).
- A mulher que virou tatu / Yuxabu yaixni, narrativa caxinauá registrada por Capistrano de Abreu, org. Eliane Camargo (Hedra, 2ª ed., 2022).
- Aristoteles Barcelos Neto, Laura Pérez Gil e Danilo Paiva Ramos (org.), Xamanismos ameríndios (Hedra, 2024).
- Ailton Krenak, Ideias para adiar o fim do mundo (Companhia das Letras, 2019), lido em PDF da edição digital, sem a paginação do impresso; por isso vai em paráfrase, sem aspas.
- Todos lidos inteiros pela Vigília. As citações entre aspas trazem a página impressa conferida na leitura; são curtas e servem para apresentar cada livro, que merece ser lido inteiro.
- No mapa das terras indígenas, as terras de cada povo e a fase do reconhecimento.