Floresta · peça · revista em 30/10/2026
A sexta extinção
Houve cinco extinções em massa nos últimos quinhentos milhões de anos. A sexta está em curso, e tem causa conhecida: uma espécie só.
O último arau-gigante
A extinção é uma ideia nova. Só em 1796 o naturalista Georges Cuvier provou, comparando ossos, que espécies inteiras tinham desaparecido. Depois, Lyell e Darwin ensinaram que extinguir é lento: um efeito colateral da seleção natural, ao longo de eras.
Mas, em 1844, os últimos araus-gigantes foram mortos na ilha de Eldey, na Islândia, por colecionadores. Darwin era vivo. A teoria não previa uma extinção causada pelo homem em poucos anos.
O ritmo normal, e o de hoje
Em tempos normais, as espécies também somem, mas devagar. Os paleontólogos chamam isso de taxa de fundo. Para os mamíferos, é cerca de uma extinção a cada setecentos anos, entre as 5.500 espécies vivas.
Os anfíbios são hoje a classe mais ameaçada do reino animal. Pelo cálculo que Kolbert cita, a taxa de extinção do grupo pode chegar a 45 mil vezes a taxa de fundo. Um fungo, o Bd, espalhado pelo mundo por pessoas, mata rãs onde chega.
Kolbert, cap. I, a partir de McCallum, Journal of Herpetology 41, 2007.
Corte a floresta
Os ecólogos sabem há muito tempo que, quanto menor a área, menos espécies cabem nela. Kolbert dá a regra em números: perder metade de um hábitat leva cerca de 10% das espécies. Arraste e veja o que acontece com o resto.
Com 50% da floresta derrubada, perdem-se cerca de 10% das espécies.
A curva é desenhada pelo exemplo do livro (metade da área, 10% das espécies) e serve para ver a forma do problema, não para prever uma floresta real: a perda cresce mais depressa quanto menos floresta resta. De metade derrubada para nove décimos, as espécies perdidas passam de cerca de 10% para cerca de 30%. E ela só conta a área. Os fragmentos que sobram perdem espécies devagar, por anos, porque ficaram pequenos e isolados.
Kolbert, cap. VIII (a relação espécie-área) e IX.
O experimento ao norte de Manaus
Nos anos 1970, duas regras brasileiras se chocavam. O governo pagava a quem derrubasse floresta para criar gado, e a lei mandava o dono de terra na Amazônia manter em pé pelo menos metade da floresta da propriedade. O biólogo Thomas Lovejoy pediu para escolher qual metade ficaria em pé.
Assim nasceu o Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais: pedaços de floresta de tamanhos diferentes, isolados no meio do pasto, para medir o que acontece com eles. O que se mede, há décadas, é que os fragmentos perdem espécies devagar e sem parar.
Kolbert, cap. IX.
O mar também
Com o carbono que queimamos, o oceano ficou mais ácido. Parece pouco, mas a escala é logarítmica: a queda de 0,1 deixou a água cerca de 30% mais ácida desde 1800. Os corais e os animais de concha são os primeiros a sofrer quando a água muda assim.
Kolbert, cap. VI.
Fontes
- Elizabeth Kolbert, A sexta extinção: uma história não natural, trad. Mauro Pinheiro (Intrínseca, 2015), lida inteira pela Vigília. A edição digital não tem paginação; por isso a peça não cita o livro entre aspas e indica o capítulo de cada fato. Cada número tem a fonte nas notas do livro.
- Nos marcos da Floresta e no mapa das terras indígenas, o lado brasileiro da história.