Rezadoras guarani e kaiowá em ritual junto ao fogo, Mato Grosso do Sul (foto de arquivo da Agência Brasil usada na cobertura de outubro de 2026)Arquivo/Marcello Casal Jr/Agência Brasil · Agência Brasil/EBC · CC BY 3.0 BR (Agência Brasil/EBC), crédito obrigatório “Fotógrafo/Agência Brasil”
Último fato, 29/10relatado Cimi fala em ao menos cinco assassinatos em MS desde 24/10, em investigação.
Depois do segundo turno de 25 de outubro de 2026, organizações indígenas e indigenistas denunciaram agressões, ameaças e mortes em terras indígenas, sobretudo em Mato Grosso do Sul. O que está confirmado por órgão público: o ataque com explosivos à unidade da Funai na Terra Indígena São Jerônimo (PR), em 8 de outubro; o balanço do governo federal de 28 de outubro, com três indígenas entre os dez mortos em 45 episódios de violência política no fim de semana da eleição; e a apuração do Ministério Público Federal sobre o áudio que manda pôr veneno na água das comunidades de Tacuru (MS). O que é relato, ainda sem confirmação oficial: os “ao menos cinco assassinatos” na região Guarani e Kaiowá contados pelo Cimi desde 24 de outubro, o atropelamento em Coronel Sapucaia, as ameaças aos Yanomami, aos Parakanã e no sul da Bahia. Um caso que circulou como ataque, em Naviraí (MS), foi desmentido pelo MPF.
- 3indígenas entre os 10 mortos do fim de semana do 2º turno, no balanço do governo (28/10)
- 45episódios de violência política em 24 e 25/10, com 47 vítimas, segundo o governo
- 5assassinatos de indígenas em MS desde 24/10 contados pelo Cimi, sem confirmação oficial
- 48 horaso prazo do MPF à Prefeitura de Tacuru para explicar o áudio do veneno (24 h, pela Agência Brasil)
- 258indígenas assassinados em 2025, no relatório do Cimi (RR 82, AM 47, MS 37)
O que está confirmado
Na noite de 8 de outubro, entre os dois turnos, o prédio da unidade da Funai na Terra Indígena São Jerônimo, em São Jerônimo da Serra (PR), onde vivem cerca de 670 Guarani Ñandeva, Kaingang e Xetá, foi atacado com artefatos explosivos: a entrada foi depredada e as janelas, quebradas, sem feridos. A Funai registrou ocorrência, e a nota conjunta com o Ministério dos Povos Indígenas diz que a Polícia Federal e a Abin foram acionadas; a presidenta da Funai, Lucia Alberta Baré, atribuiu o ataque a “extremistas” contrários às demarcações. A autoria não foi identificada (Agência Brasil, 9/10).
Em 28 de outubro, em coletiva no Planalto, o ministro Guilherme Boulos e o secretário-executivo da Justiça, Ademar Borges, apresentaram o balanço do governo sobre o fim de semana do segundo turno: 45 episódios de violência política, com 47 vítimas e 10 mortos, três deles indígenas; sete atropelamentos intencionais, 14 agressões, cinco disparos e cinco casos de violência ou coação contra povos indígenas. Os estados com mais ocorrências foram Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Santa Catarina. A PF abriu “dezenas” de inquéritos; o governo não identificou nem localizou os três indígenas mortos, e admite que a motivação política de alguns casos não está comprovada (Agência Brasil, 28/10).
Em Tacuru, no extremo sul de Mato Grosso do Sul, circulou um áudio de WhatsApp, atribuído a um funcionário da prefeitura, que diz dos Guarani e Kaiowá, por terem votado em Lula: “ponha veneno na água, matar essas praga na água”. As comunidades dependem de caminhões-pipa, e muitas deixaram de beber a água local. Em 28 de outubro, o MPF em Dourados deu prazo à Prefeitura de Tacuru para informar a autoria e a autenticidade do áudio e as medidas de segurança, e recomendou processo disciplinar e afastamento cautelar se houver indício de autoria por servidor; a Funai, o MPI e a Apib pediram investigação ao MPF e à PF (MPF-MS, 28/10; Agência Brasil, 27 e 29/10). O MPF fala em 48 horas; a Agência Brasil, em 24.
O que é relato, ainda sem confirmação
O Cimi em Mato Grosso do Sul diz que “ao menos cinco casos de assassinatos de indígenas na região desde sábado (24) estão sendo investigados”, sem nome, aldeia ou data de cada um; relata caminhonetes rodando pelos territórios Guarani e Kaiowá e agressões no fim de semana da votação, “para causar pânico”, e o atropelamento intencional de um indígena em Coronel Sapucaia, na fronteira com o Paraguai, sem o estado da vítima. O coordenador do Cimi-MS, Matias Benno Rempel, enquadra essa violência como “componente permanente de milícias do campo”, que a eleição intensificou (Agência Brasil, 29/10). O número do Cimi e os três mortos do balanço do governo não foram conciliados por nenhuma fonte.
Antes do segundo turno, a Urihi Associação Yanomami e a Hutukara enviaram à PF, ao MPF, à Funai e ao Ibama um relatório sobre a rearticulação do garimpo nas regiões de Xitei e Surucucu, com aliciamento de jovens e sobrevoos na expectativa de vitória de Flávio Bolsonaro; a Casa de Governo Yanomami informou 108 pistas e 64 aeronaves destruídas desde 2024 e quatro aeronaves nos dez dias anteriores (Repórter Brasil, 23/10). Na Terra Indígena Apyterewa (PA), os Parakanã relataram áudios de invasores prometendo voltar “se Flávio vencer”, ameaça de um fazendeiro e incêndios noturnos (Sumaúma, 25/10). A Apib relatou ameaças a Kayapó e Munduruku e, no sul da Bahia, de grupos armados ligados ao movimento “Invasão Zero”, e três Kaingang mortos em “conflitos internos” na TI Votouro (RS) depois do primeiro turno, caso sem segunda fonte (Apib, 22/10).
Em 27 de outubro, os ministérios dos Povos Indígenas, dos Direitos Humanos e da Igualdade Racial pediram, em nota conjunta citada pela Agência Brasil, a investigação do caso de Tacuru e disseram atuar em denúncias de violência contra quilombolas e povos de terreiro. Não se localizou, em fonte aberta, declaração da ministra Sonia Guajajara, do ministro Lewandowski ou do presidente Lula sobre os ataques, nem envio ou pedido de Força Nacional.
O que foi desmentido
Circulou nas redes que indígenas das comunidades Kurupi e Mboreviry, em Naviraí (MS), teriam sido mortos por motivação política. O MPF em Dourados apurou: as lideranças das duas comunidades negaram ataques; a Promotoria de Justiça e a Prefeitura de Naviraí informaram tratar-se de uma tentativa de duplo homicídio por desentendimento familiar, sem motivação política ou étnica, as vítimas não constam como indígenas nos cadastros, e as fotos circularam adulteradas (MPF-MS, 28/10). O caso não entra na conta.
O pano de fundo
O relatório do Cimi sobre a violência contra os povos indígenas, com os dados de 2025, lançado em agosto de 2026, contou 258 assassinatos de indígenas no ano (211 em 2024), 215 suicídios, 1.024 mortes de crianças de até 4 anos, 169 conflitos territoriais em 23 estados e 210 invasões em ao menos 151 terras indígenas. A Apib conta seis Guarani e Kaiowá assassinados em Mato Grosso do Sul entre 2022 e 2026.
A Lei 14.701, de 2023, do marco temporal, segue em vigor e contestada no STF, que em 2023 declarou a tese inconstitucional; a PEC 48, que a inscreve na Constituição, foi aprovada no Senado em dezembro de 2025 e espera a Câmara. Segundo a Sumaúma (27/10), nada foi votado entre 25 e 27 de outubro, mas a pauta prevista para antes de dezembro inclui o decreto legislativo que pode desfazer duas demarcações em Santa Catarina e o projeto de mineração em terras indígenas em regime de urgência. Ver o marco do STF e o marco temporal.
Na República
As fontes e o que não se conferiu
Apuração de 29 de outubro de 2026, só em páginas abertas e lidas. Os três indígenas mortos do balanço do governo e os cinco contados pelo Cimi não estão identificados, e os dois números não foram conciliados por nenhuma fonte. Não há número de inquérito da PF. A nota dos três ministérios é conhecida pela Agência Brasil, não pelo original. Folha, Estadão, G1, O Globo, ISA, Funai, MPI, PF, STF e TSE não puderam ser consultados.
- Unidade da Funai é alvo de ataque em terra indígena no Paraná (09/10/2026) · Agência Brasil
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- MPF abre investigações sobre onda de violência e ataques contra comunidades indígenas em Mato Grosso do Sul (28/10/2026) · Ministério Público Federal (MS)
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