Manifestante ergue cartaz “J’ai peur mais je suis là” (“tenho medo, mas estou aqui”) na passeata de 24 de outubro de 2026, em Paris.Jules* · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0
Último fato, 31/10relatado Novo dia de atos convocado por grupos de “coletes amarelos”; a CGT marca greve nacional para 5 de novembro.
Estudantes do ensino médio começaram a bloquear escolas na segunda quinzena de setembro, contra falta de professores, salas lotadas e prédios deteriorados. O movimento se espalhou pelo país e, em 17 de outubro, juntou sindicatos e ex-“coletes amarelos” num dia nacional contra o custo de vida. Está confirmado, pelo Ministério do Interior, que 550 mil pessoas foram às ruas nesse dia e que cerca de 2.400 foram detidas; os organizadores falam em 800 mil. Houve saques e incêndios, entre eles o da prefeitura de Limoges. O governo de Sébastien Lecornu impôs toques de recolher e proibições de atos, anunciou medidas para a escola e o fim do Parcoursup em 2028, e o Senado aprovou a lei “casseurs-payeurs”. Fora da França, há relatos de protestos estudantes na Bélgica, na Itália e na Grécia, com pautas próprias e referências explícitas ao caso francês.
- 550.000manifestantes em toda a França em 17 de outubro, segundo o Ministério do Interior; os organizadores, entre eles a CGT, falam em 800.000 (Lusa, 18/10)
- 410.000manifestantes em 24 de outubro, segundo o Ministério do Interior; a CGT contou 800.000 (The Connexion, 25/10)
- cerca de 2.400detidos em 17 de outubro, segundo o Ministério do Interior no dia seguinte; na noite do próprio dia, o ministro Laurent Nuñez falava em 1.200 (AFP, 18/10; Lusa, 18/10)
- 855detidos só em Paris em 17 de outubro, segundo a Prefeitura de Polícia (Lusa, 18/10)
- quase 1.000policiais e gendarmes feridos em 17 de outubro, sete com gravidade, segundo o Ministério do Interior (AFP, 18/10)
- 6.100detidos desde o início do movimento até 6 de outubro, a maioria menores de 18 anos, segundo o Ministério do Interior (Al Jazeera, 6/10)
- 229 a 105votação com que o Senado aprovou a lei “casseurs-payeurs” na madrugada de 28 de outubro (Public Sénat, 28/10)
- 54 bilhões de eurospacote de cortes e impostos do projeto de orçamento de 2027, segundo o governo (Al Jazeera, 18/10)
Da escola à rua
Os bloqueios começaram em escolas de ensino médio logo após a volta às aulas. O ponto que a imprensa francesa e a União Sindical Secundarista (USL) tratam como partida nacional é o Lycée Saint-Exupéry, em Créteil, na periferia de Paris, onde os alunos bloquearam a escola depois de uma greve de professores (RTÉ, com franceinfo, 1/10).
As queixas eram de escola: falta de professores substitutos, salas com 32 a 35 alunos, jornadas longas, prédios em mau estado e a plataforma de acesso à universidade, o Parcoursup (RTP, 29/9; AP, 1/10).
Em 29 de setembro, o ministro do Interior, Laurent Nuñez, falava em 440 detidos no país (RTP, 29/9). Em 1º de outubro, o governo contava cerca de 900 bloqueios ou incidentes e 1.949 detenções num só dia, e o primeiro-ministro Sébastien Lecornu convocou uma reunião de crise (France 24, com AFP e Reuters, 1/10; AP, 1/10).
O 17 de outubro
Em 17 de outubro, sábado, estudantes, sindicatos e antigos “coletes amarelos” fizeram um dia nacional de protesto. A pauta se alargou para custo de vida, combustíveis, salários e serviços públicos (The Connexion, 18/10).
O Ministério do Interior contou 550 mil manifestantes em 110 atos, 110 mil deles em Paris; os organizadores falaram em 800 mil (Lusa, 18/10).
Houve saques e incêndios em várias cidades. Em Limoges, a prefeitura do século 19 foi destruída por um incêndio que o prefeito do departamento, Maurice Barate, disse ter sido criminoso (AFP, 18/10). Em Saint-Étienne, um rapaz de 17 anos perdeu a mão direita por uma granada de contenção; em Mulhouse, uma moça de 17 anos perdeu um olho, segundo a promotoria (AFP, 18/10).
O presidente Emmanuel Macron fez um pronunciamento no dia seguinte, condenou a violência “desenfreada” e disse que os responsáveis seriam processados (AFP, 18/10).
Quantos foram, quantos foram detidos
Os números variam conforme quem conta e a que horas. Para 17 de outubro, Nuñez falava em 1.200 detidos às 20h; a Prefeitura de Polícia contou 855 só em Paris até as 8h do dia seguinte; no domingo, o ministério deu cerca de 2.400 detidos e quase mil policiais feridos (Lusa, 18/10; AFP, 18/10). A Al Jazeera, com AFP e Reuters, falou em mais de 2.300 (Al Jazeera, 19/10).
Para 24 de outubro, o ministério contou 410 mil manifestantes em 289 atos e a CGT, 800 mil. Na noite do sábado, Nuñez falava em quase mil detidos (The Connexion, 25/10).
No acumulado do movimento estudantil, o Ministério do Interior somava 6.100 detidos até 6 de outubro, na maioria menores de idade, e o Ministério da Justiça dizia que mais de 1.800 pessoas seriam processadas (Al Jazeera, 6/10).
A resposta do governo
Depois do 17 de outubro, as prefeituras impuseram toques de recolher em partes de Paris (praça da República e Les Halles, das 23h às 6h), Lyon, Nice e Lille. Nuñez ofereceu a demissão, e Macron a recusou (Al Jazeera, com AFP e Reuters, 19/10).
Em 22 de outubro, Macron disse que “a recomendação geral é que não haja manifestação nos próximos dias” e que só os atos sindicais teriam percurso autorizado. Constitucionalistas ouvidos pela Public Sénat lembraram que nenhuma lei distingue manifestações pelo organizador (Public Sénat, 22/10). Para 24 de outubro, Lyon proibiu todos os atos, e Nice, Lille, Rennes, Montpellier, Limoges, Caen, Rouen e Le Havre restringiram áreas centrais (Sud Radio, 23/10).
Em 26 de outubro, o governo anunciou o fim do Parcoursup para a seleção de 2028, o teto gradual de 28 alunos nas turmas do primeiro ano do ensino médio, 500 vagas de professor e o cancelamento de cortes de cargos. Lecornu disse na Assembleia que “as reivindicações dos secundaristas são coerentes” e que as medidas são “certamente insuficientes” (LCP, 28/10). As organizações estudantis mantiveram os atos de 31 de outubro e 5 de novembro (France 24, 26/10).
Na madrugada de 28 de outubro, o Senado aprovou por 229 a 105 a lei “casseurs-payeurs”, que torna corresponsáveis pelos danos, até 10 mil euros por pessoa, os que participarem de aglomeração violenta, e permite reter parte de benefícios sociais para o pagamento. A esquerda votou contra; o texto segue para a Assembleia Nacional (Public Sénat, 28/10).
As críticas
A França Insubmissa acusa o governo de reprimir estudantes; o governo atribuiu parte da violência à extrema esquerda, o que o partido nega (France 24, 1/10; Al Jazeera, 18/10). Marine Le Pen chamou as queixas de “reivindicações sociais legítimas” e disse que os manifestantes estão “reféns da extrema esquerda” (Al Jazeera, 18/10).
A Human Rights Watch condenou o uso excessivo da força contra menores e disse que os atos foram em sua grande maioria pacíficos (Al Jazeera, 18/10). Em 7 de outubro o governo suspendeu o uso de granadas atordoantes em manifestações, o que a Anistia Internacional França saudou (Euronews, 8/10).
O eco na Europa
Na Bélgica, alunos bloquearam escolas de Liège a partir de 1º de outubro, contra a reforma do ensino da Federação Valônia-Bruxelas e o aumento de taxas; a cidade fechou suas escolas secundárias em 2 de outubro (Belga, 1/10). A polícia de Liège somava 107 detenções até 7 de outubro (Anadolu, com Belga, 7/10). A pauta belga é própria; a ligação com a França é de calendário e de imagem.
Na Itália, estudantes marcharam em 16 de outubro em Turim, Milão, Roma e outras cidades, contra o rearmamento, o custo de vida e pela escola pública, com faixas que diziam “faremos como na França”; o coletivo Osa fala em 400 mil, número sem contagem independente (L’Espresso, 16/10).
Na Grécia, estudantes e professores protestaram em 21 de outubro em Atenas, Salónica e outras cidades; a polícia contou ao menos 5 mil em Atenas, segundo a AFP, ou cerca de 10 mil, segundo a Africanews. Um sindicalista universitário disse: “Na Grécia, como na França, exigimos educação pública e gratuita” (AFP, 21/10; Africanews, 21/10).
Vídeos 2
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Imagens 3
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Fumaça preta envolve as torres da igreja de Saint-Vincent-de-Paul (dos Réformés), em Marselha, durante os protestos de 17 de outubro de 2026, quando lixeiras foram incendiadas.Bertrand Soubeyrand · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

Entrada do Lycée Champollion, em Grenoble, bloqueada com lixeiras e grades em 30 de setembro de 2026; o fotógrafo enquadrou a cena sem os alunos, que são menores.David Monniaux · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

Viatura da gendarmaria em Les Halles, Paris, com lojas fechadas por tapumes, durante o toque de recolher da noite de 23 de outubro de 2026.FreCha · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0
Matérias 5
A imprensa e os textos de referência contextualizam; o que sustenta o marco são as referências, abaixo.
- How a high school blockade movement spread across France
Reconstitui a origem dos bloqueios, escola por escola.
- Why have France’s school protests become a wider political crisis?
Análise com pesquisadores sobre a passagem da pauta escolar para a crise política.
- Emmanuel Macron serre la vis sur les mobilisations
Os limites legais das proibições de atos, com juristas.
- Fresh day of student protests across France as rally planned in Paris
Depoimentos de alunos e a suspensão das granadas atordoantes.
- Thousands march in Greece in France-inspired student protests
O eco grego, com dados de gasto em educação.
As fontes e o que não se conferiu
Apuração de 31 de outubro de 2026, só em páginas abertas e lidas. Os números de manifestantes e de detidos mudam conforme a fonte e a hora: para 17 de outubro há 1.200 (Nuñez, 20h), cerca de 1.800 (balanço da manhã seguinte, The Connexion), mais de 2.300 (Al Jazeera) e cerca de 2.400 (ministério, AFP); demos a versão do ministério e as outras. Não conseguimos abrir as páginas do governo (info.gouv.fr respondeu com bloqueio) nem do Le Monde (acesso restrito); as medidas de 26 de outubro vêm da LCP e da France 24. Não achamos comunicado do Ministério do Interior nem arrêté das prefeituras on-line; proibições e toques de recolher vêm da imprensa. O que Lecornu decidiu em 6 de outubro sobre as aulas diverge: a Al Jazeera fala em suspensão das aulas no resto da semana, outras fontes em meio período livre para debate interno; deixamos fora. Um relato de morte de manifestante por parada cardíaca em 17 de outubro, atribuído à Reuters, não foi confirmado. A data exata do início em Créteil varia entre 17 e 19 de setembro. Na Europa, Bélgica, Itália e Grécia têm pautas próprias; relatos de bloqueios na Alemanha não foram conferidos.
- Transport suspended in some French cities as school protests continue (01/10/2026) · France 24, com AFP e Reuters
- Student protests grip France as Prime Minister Lecornu calls crisis meeting (01/10/2026) · AP, via PBS NewsHour
- Centenas de detidos durante protestos estudantis em França (29/09/2026) · RTP
- France suspends high school classes as protesters clash with police (06/10/2026) · Al Jazeera
- Detidas 855 pessoas em Paris no sábado durante os protestos sociais em França (18/10/2026) · Lusa, via Sábado
- Macron denounces ‘unbridled’ violence as France hit by new clashes (18/10/2026) · AFP, via Gulf News
- France announces curfews in aftermath of violent protests (19/10/2026) · Al Jazeera, com AFP e Reuters
- France’s October 17 protests: clashes with police, looting and arson attacks eclipse protestors’ voices (18/10/2026) · The Connexion
- France protests: 410,000 march as arrests near 1,000 (25/10/2026) · The Connexion
- Emmanuel Macron serre la vis sur les mobilisations : jusqu’à quel point peut-on restreindre la liberté de manifester ? (22/10/2026) · Public Sénat
- Manifestations du 24 octobre : dans quelles villes les rassemblements sont-ils autorisés ou interdits ? (23/10/2026) · Sud Radio
- « Parcoursup sera remplacé pour la campagne 2028, c’est entendu » : ce qu’il faut retenir du débat à l’Assemblée (28/10/2026) · LCP
- Le Sénat adopte le projet de loi « casseurs-payeurs » après l’avoir largement durci (28/10/2026) · Public Sénat
- Contestation du secteur de l’enseignement : les écoles secondaires de Liège fermées ce vendredi 2 octobre (01/10/2026) · Belga, via Paris Match Belgique
- Belgian police arrest 107 during student protests in Liege (07/10/2026) · Anadolu, com Belga
- Thousands march in Greece in France-inspired student protests (21/10/2026) · AFP, via Daily Sabah
- Greece: Thousands flood Athens streets in education protest (21/10/2026) · Africanews
- Le proteste degli studenti infiammano l’Italia (16/10/2026) · L’Espresso
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