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República / peças

Esquerda, direita e o que chamamos de fascismo

Esquerda e direita não são duas doutrinas: são lados de uma pergunta, e a pergunta muda. Fascismo não é xingamento: é uma palavra com critério. Aqui estão os instrumentos, para você aplicar.

O que separa os lados

As palavras nasceram na Revolução Francesa, pelo lugar em que cada grupo se sentava na assembleia. O conteúdo de cada lado mudou desde então. Os autores que a Vigília leu usam pelo menos quatro critérios, e cada um escolhe o seu: a igualdade, a propriedade e o mercado, a atitude diante da mudança, o modelo moral.

O critério muda o desenho. Pela igualdade, Vladimir Safatle define a esquerda por “duas pernas”: “igualitarismo e soberania popular”. Vladimir Safatle, A esquerda que não teme dizer seu nome (2012), p. 53. A definição é de quem está à esquerda; a direita, no livro, aparece pela voz da esquerda. Pelos outros critérios, a mesma pessoa pode mudar de lado sem mudar de ideia.

Acompanhe o liberal

Escolha o critério. Em cada eixo, as posições estão onde os autores as põem. Siga a do liberal, em destaque.

O eixo de a mudança

Conservar, reformar ou voltar atrás?

Entre 1848 e 1875, a direita era quem resistia à mudança: os clericais, os legitimistas. O liberal do mercado livre estava à esquerda, ao lado do radical. E o conservador não é o reacionário: o reacionário é um “revolucionário do avesso”, que busca uma felicidade perdida no passado; o conservador recusa as duas utopias, a do futuro e a do passado. Eric Hobsbawm, A era do capital, 1848-1875 (1975), trad. Luciano Costa Neto, p. 123-125, em paráfrase; João Pereira Coutinho, As ideias conservadoras explicadas a revolucionários e reacionários (2014), p. 24-25, citando Anthony Quinton.

O eixo de a propriedade e o Estado

Quem é dono, e quanto Estado?

Para Mises, a divisão é entre o modo de produção liberal e o socialista, e o critério é a propriedade. O conservador de Scruton fica no meio: quer um Estado menor do que o dos socialistas e maior do que o dos liberais clássicos. Aqui o liberal, que estava à esquerda no eixo da mudança, passa para a outra ponta. E do lado socialista vem a ressalva: para Engels, a propriedade do Estado não resolve o conflito, é só o instrumento para chegar à solução. Mais Estado não define a esquerda nem para o fundador da tradição. Ludwig von Mises, O cálculo econômico sob o socialismo (1920), cap. 4; Roger Scruton, Como ser um conservador (2014), cap. 11; Friedrich Engels, Do socialismo utópico ao socialismo científico (1880), cap. III, trad. não nomeada; edições sem paginação; em paráfrase.

O eixo de o mercado e a sociedade

O mercado se regula sozinho, ou a sociedade se protege dele?

Em 1944, Karl Polanyi pôs a linha noutro lugar: de um lado o liberalismo, do outro o fascismo e o socialismo. Neste eixo, socialismo e fascismo ficam do mesmo lado, como respostas opostas à mesma pane do mercado. Polanyi era socialista, e se declara assim no mesmo capítulo. Terry Eagleton responde do mesmo campo: o fascismo é um radicalismo de direita, não de esquerda. O lugar do fascismo é disputado, e a disputa é parte do assunto. Karl Polanyi, A grande transformação (1944), cap. XXI, trad. Miguel Serras Pereira; Terry Eagleton, Marx estava certo (2012), cap. IX; edições sem paginação; em paráfrase.

O eixo de o modelo moral

A nação é uma família com que tipo de pai?

Para o linguista George Lakoff, as morais políticas americanas vêm de imaginar a nação como uma família. O modelo do pai severo dá o conservadorismo; o do genitor cuidador, o progressismo. A maioria das pessoas tem os dois e usa cada um num assunto. É um eixo que não fala de propriedade, e por isso não diz onde fica o liberal. Lakoff fala do lado progressista, e o lado conservador é descrito por ele. George Lakoff, The ALL NEW Don’t Think of an Elephant! (2014), cap. 1; em paráfrase.

As réguas não medem distância: dizem só a ordem em que cada autor põe as posições. A ordem da esquerda para a direita segue o costume de cada eixo, não um juízo sobre qual ponta é melhor.

Três posições, não duas

O liberal, o conservador e o socialista se aliam de um jeito num tema e de outro jeito no seguinte. Por isso a divisão em dois lados apaga diferenças que existem dentro de cada um.

Dentro da esquerda. Em 1920, Lênin dividia o próprio movimento comunista em três, e acusava os dois extremos do mesmo erro: o doutrinarismo de direita, que só admitia as formas antigas, e o de esquerda, que as recusava por princípio. Lênin, Esquerdismo, doença infantil do comunismo (1920), cap. X; em paráfrase.

Dentro da direita. Os próprios liberais se dividem sobre a democracia. Mises, em 1949, a defende: para preservar a paz social, o liberalismo é a favor do governo democrático, que ajusta o governo à vontade da maioria sem revolução. Ludwig von Mises, Ação humana (1949), cap. 8, § 2; em paráfrase.

Meio século depois, Hans-Hermann Hoppe, da mesma escola, escreve que numa ordem libertária não pode haver tolerância com democratas e comunistas, que teriam de ser separados e expulsos fisicamente da sociedade. Hans-Hermann Hoppe, Democracia, o deus que falhou (2001), cap. X, seção VI; em paráfrase. O contexto é o pacto de uma comunidade de proprietários privados, não o Estado, e o texto não diz como se faria a remoção. O mesmo rótulo, “direita liberal”, cobre as duas posições. E conservador não é reacionário, como se viu no eixo da mudança.

O centro não é um lugar. Para Terry Eagleton, a moderação de uns é o extremismo de outros. Terry Eagleton, Marx estava certo (2012), cap. IX; em paráfrase. O centro é uma distância medida de onde se está.

Um critério ao lado e acima. Depois dos campos de concentração, Hannah Arendt propôs uma pergunta que corta os dois lados sem apagar a diferença entre eles. Ao lado e acima das divergências entre direita e esquerda, o modo mais importante de julgar os fatos do nosso tempo seria perguntar se eles servem ou não ao domínio totalitário. Hannah Arendt, Origens do totalitarismo (1951), parte III, cap. 3, seção 3; em paráfrase.

Arendt reconhecia só dois casos plenos de domínio totalitário, o nazismo e o bolchevismo, um de cada lado da divisão. Arendt, Origens do totalitarismo, parte III, cap. 3. Para ela, o fascismo de Mussolini, até 1938, não era totalitário, mas uma ditadura nacionalista comum (parte II, cap. 4, seção 3; em paráfrase). É dessa pergunta que vem a posição da Vigília contra os totalitarismos, todos.

Por que fascismo pede critério

A palavra gasta perde a força quando mais se precisa dela. Por isso a Vigília só a usa com critério, e diz qual. São dois, e cada um faz uma coisa: a lista de Umberto Eco reconhece um ar de família; os estágios de Robert Paxton dizem quando o que se reconheceu fica perigoso. A página de método da Vigília tem os dois com as citações; aqui, você os usa.

Instrumento 1: a lista de Eco

Numa conferência de 1995, Eco parte de uma constatação: o fascismo italiano não tinha doutrina; Mussolini não tinha filosofia, só retórica. Sem essência, o reconhecimento se faz por semelhança de família, e Eco lista catorze traços do que chama de Ur-Fascismo, o fascismo eterno. Umberto Eco, “O fascismo eterno” (1995), em Cinco escritos morais, trad. Eliana Aguiar (Record, 1998); edição digital sem paginação; o segundo movimento do ensaio; em paráfrase.

a cláusula, em paráfraseOs traços não formam um sistema, muitos se contradizem e vários são de outros despotismos ou fanatismos. Mas basta que um apareça para que se forme em volta dele uma nebulosa fascista. Umberto Eco, “O fascismo eterno” (1995), em Cinco escritos morais, trad. Eliana Aguiar (Record, 1998); edição digital sem paginação; a passagem que abre a lista; em paráfrase.

Um discurso imaginário

A Vigília escreveu este discurso para o exercício. Não é de ninguém. Leia e marque, na lista ao lado, os traços que você reconhece.

  1. “Nosso povo já foi grande, e foi humilhado. Gente de fora e gente de dentro tramou a nossa queda.”
  2. “Esses inimigos mandam em tudo e, ao mesmo tempo, são covardes e fracos.”
  3. “Chega de discussão. Quem discorda de nós está do lado deles.”
  4. “O povo de verdade está nesta praça, e quem fala por ele sou eu.”
  5. “Professores e jornalistas só complicam. A verdade é simples, e já foi dita.”
  6. “Precisamos baixar os impostos e cortar o gasto público.”
  7. “Precisamos cobrar mais imposto de quem ganha mais.”
Os catorze traços de Eco, em paráfrase

Uma leitura possível, frase a frase
  1. “Nosso povo já foi grande, e foi humilhado. Gente de fora e gente de dentro tramou a nossa queda.” Lê-se aqui o traço 7, o complô que dá identidade à nação; e a obsessão com a decadência e a humilhação da comunidade, vista como vítima, da definição de Paxton.
  2. “Esses inimigos mandam em tudo e, ao mesmo tempo, são covardes e fracos.” Lê-se aqui o traço 8, o inimigo forte e fraco ao mesmo tempo.
  3. “Chega de discussão. Quem discorda de nós está do lado deles.” Lê-se aqui o traço 4, o desacordo como traição; com algo do 3, a ação contra o pensar.
  4. “O povo de verdade está nesta praça, e quem fala por ele sou eu.” Lê-se aqui o traço 13, o povo como entidade única, de que o líder é o intérprete.
  5. “Professores e jornalistas só complicam. A verdade é simples, e já foi dita.” Lê-se aqui o traço 1, a verdade dita de uma vez por todas; com algo do 2.
  6. “Precisamos baixar os impostos e cortar o gasto público.” Lê-se aqui nenhum traço. É uma posição de política econômica, que se discute com números.
  7. “Precisamos cobrar mais imposto de quem ganha mais.” Lê-se aqui nenhum traço. É também uma posição de política econômica, do outro lado.

É a leitura da Vigília, não a única. O que importa são as duas últimas frases: posições de política econômica, de um lado e do outro, não são traço nenhum. A lista não mede esquerda nem direita.

O que a lista não resolve

Basta um traço? Pela cláusula de Eco, um bastaria para formar a nebulosa. É largo demais: se um dos traços é o racismo por definição, todo racismo vira fascismo, o que diz mais do que o ensaio quer dizer. E os catorze não são da mesma natureza: há doutrinas, disposições, procedimentos de linguagem e estruturas. Ficha de leitura da Vigília sobre Eco, “O fascismo eterno”, seção 7.2, “Onde é frágil”.

Os traços não são de um lado só. O historiador João Bernardo documenta a origem de vários deles, o culto da ação, a guerra, o desprezo pelo parlamento, no sindicalismo revolucionário e no comunismo nacional. E documenta regimes fascistas sem racismo de Estado durante anos: a Itália até 1938, Franco, Salazar. João Bernardo, Labirintos do fascismo (versão definitiva, 2022), vol. 3, p. 79-81 e 255-258; vol. 4, p. 247 e 268. Paxton diz o mesmo da Itália: o regime mostrou poucos sinais de antissemitismo nos seus primeiros dezesseis anos no poder. Robert O. Paxton, A anatomia do fascismo (2004), trad. Patrícia Zimbres e Paula Zimbres (Paz e Terra, 2ª ed., 2023); edição digital sem paginação; cap. 1, “As imagens do fascismo”; em paráfrase.

Reconhecer não é concluir. A lista diz que um discurso tem um ar de família. Não diz se há perigo, nem quem o sustenta. Para isso, o segundo instrumento.

Instrumento 2: os estágios de Paxton

O historiador americano propõe olhar o que se faz, não o que se diz: o que os fascistas fizeram informa pelo menos tanto quanto o que disseram. Robert O. Paxton, A anatomia do fascismo (2004), trad. Patrícia Zimbres e Paula Zimbres (Paz e Terra, 2ª ed., 2023); edição digital sem paginação; cap. 1, “As imagens do fascismo”; em paráfrase. O fascismo, para ele, é um ciclo de cinco estágios, e o que importa em cada um é quem se alia a quem. Cada estágio é condição do seguinte, mas nada obriga um movimento a passar por todos. Robert O. Paxton, A anatomia do fascismo (2004), trad. Patrícia Zimbres e Paula Zimbres (Paz e Terra, 2ª ed., 2023); edição digital sem paginação; cap. 1, “Para onde vamos a partir daqui?”; em paráfrase.

Percorra os estágios

Cada estágio traz o que Paxton descreve, em paráfrase, e a pergunta que ele permite fazer a um caso. A pergunta é da Vigília, a partir do livro.

Estágio 1 · A criação

Os movimentos nascem depois de 1918, ao mesmo tempo e sem cópia, na Itália, na Hungria, na Áustria e na Alemanha. As condições são a política de massas e uma esquerda que já participou de governo. Para Paxton, este primeiro estágio existe em toda democracia de massas.

Paxton, em paráfraseUm movimento com todas as paixões mobilizadoras é antes um problema de polícia do que uma ameaça política, enquanto as elites o mantêm fora das alianças. Robert O. Paxton, A anatomia do fascismo (2004), trad. Patrícia Zimbres e Paula Zimbres (Paz e Terra, 2ª ed., 2023); edição digital sem paginação; cap. 7.

a perguntaHá um movimento que mobiliza essas paixões? Se há, ainda não se sabe nada do perigo: falta ver quem se aliou a ele.

Estágio 2 · O enraizamento

Enraizar-se é virar porta-voz de interesses reais e parceiro útil de quem tem poder. No vale do Pó, entre 1920 e 1922, os esquadrões fascistas quebravam os sindicatos rurais a serviço dos proprietários. Na França dos anos 1930, o fascismo fracassou: o Estado funcionava e as organizações conservadoras davam aos fazendeiros o que eles pediam.

Paxton, em paráfraseUm sistema político que funciona de modo tolerável resiste à entrada dos fascistas. A porta só se abre aos recém-chegados quando o Estado e as instituições fracassam gravemente. Robert O. Paxton, A anatomia do fascismo (2004), trad. Patrícia Zimbres e Paula Zimbres (Paz e Terra, 2ª ed., 2023); edição digital sem paginação; cap. 3, “Um fascismo malogrado”.

a perguntaO movimento passou a falar por interesses reais? As instituições estão resolvendo os problemas, ou falhando?

Estágio 3 · A chegada ao poder

Nenhum fascismo chegou ao poder por golpe nem por maioria em eleição livre. Mussolini e Hitler foram convidados por chefes de Estado, a conselho de elites conservadoras. Segundo Paxton, os nazistas tiveram 37,2% dos votos em julho de 1932 e 33,1% em novembro. Robert O. Paxton, A anatomia do fascismo (2004), trad. Patrícia Zimbres e Paula Zimbres (Paz e Terra, 2ª ed., 2023); edição digital sem paginação; cap. 4, “O que não aconteceu”. Os números são do autor e não foram conferidos nas fontes dele.

Paxton, em paráfrasePara caber no modelo, basta haver polarização, impasse, mobilização de massas contra inimigos internos e externos e a cumplicidade das elites que já estão no poder. Robert O. Paxton, A anatomia do fascismo (2004), trad. Patrícia Zimbres e Paula Zimbres (Paz e Terra, 2ª ed., 2023); edição digital sem paginação; cap. 4, “Comparações e alternativas”.

a perguntaQuem abre a porta? O critério não é o tamanho do movimento: é a cumplicidade de quem já está dentro.

Estágio 4 · O exercício do poder

Nenhum ditador governa sozinho. O regime é uma disputa permanente entre o líder, o partido, o Estado e a sociedade civil. Paxton usa o Estado dual de Ernst Fraenkel: de um lado, o Estado da lei e da burocracia; do outro, o do partido, sem regra.

Paxton, em paráfraseO regime funciona como uma cola de dois componentes: o dinamismo fascista e a ordem conservadora, muito diferentes entre si, unidos pela inimizade ao liberalismo e à esquerda e pela disposição de destruir os inimigos comuns a qualquer preço. Robert O. Paxton, A anatomia do fascismo (2004), trad. Patrícia Zimbres e Paula Zimbres (Paz e Terra, 2ª ed., 2023); edição digital sem paginação; cap. 5, “A ‘revolução’ fascista”.

a perguntaAo lado do Estado da lei, cresce outro, que não segue regra?

Estágio 5 · Radicalização ou entropia

Franco e Salazar se normalizaram: ficaram mais autoritários que fascistas. Só a Alemanha chegou à radicalização plena. A diferença entre os dois caminhos é também a fronteira entre fascismo e autoritarismo.

Paxton, em paráfraseO autoritário prefere o público desmobilizado e passivo; o fascista quer o público engajado e excitado. Robert O. Paxton, A anatomia do fascismo (2004), trad. Patrícia Zimbres e Paula Zimbres (Paz e Terra, 2ª ed., 2023); edição digital sem paginação; cap. 8, “Fronteiras”.

a perguntaO regime quer o público quieto em casa, ou mobilizado na rua?

As paixões mobilizadoras

O que liga os movimentos fascistas, para Paxton, não é uma filosofia: é um conjunto de sentimentos, que ele chama de paixões mobilizadoras. São nove: Robert O. Paxton, A anatomia do fascismo (2004), trad. Patrícia Zimbres e Paula Zimbres (Paz e Terra, 2ª ed., 2023); edição digital sem paginação; cap. 2, “Raízes intelectuais, culturais e emocionais”, e cap. 8. A lista vai aqui em paráfrase.

  1. uma crise tão grave que as soluções de sempre não bastam;
  2. o grupo acima do indivíduo;
  3. o grupo como vítima, o que justificaria qualquer ação;
  4. o pavor da decadência;
  5. a integração do grupo, por consentimento ou pela força;
  6. a autoridade de chefes masculinos, até um líder;
  7. o instinto do líder acima da razão;
  8. a beleza da violência;
  9. o direito do povo eleito de dominar.

Nenhuma delas, sozinha, faz um fascismo. O sinal de alerta é outro: os fascistas se aproximam do poder quando os conservadores começam a tomar emprestadas as suas técnicas, a apelar às paixões mobilizadoras e a tentar cooptar os seus seguidores. Robert O. Paxton, A anatomia do fascismo (2004), trad. Patrícia Zimbres e Paula Zimbres (Paz e Terra, 2ª ed., 2023); edição digital sem paginação; cap. 7, “O fascismo fora da Europa”; em paráfrase.

E o que basta para começar é pouco. Para se enraizar, o fascismo não precisa de uma marcha espetacular sobre a capital: decisões banais de tolerar o tratamento ilegal dos inimigos internos bastam. Robert O. Paxton, A anatomia do fascismo (2004), trad. Patrícia Zimbres e Paula Zimbres (Paz e Terra, 2ª ed., 2023); edição digital sem paginação; cap. 8, “O que é o fascismo?”; em paráfrase.

O que os estágios não resolvem

A definição final de Paxton pede limpeza étnica e expansão externa, e o próprio livro conclui que nenhum partido de extrema direita bem-sucedido na Europa propunha isso. Ali, nenhum propunha também trocar a democracia por um partido único. O presente, então, só se lê pelos primeiros estágios. Robert O. Paxton, A anatomia do fascismo (2004), trad. Patrícia Zimbres e Paula Zimbres (Paz e Terra, 2ª ed., 2023); edição digital sem paginação; cap. 7, “A Europa Ocidental desde 1945”, e cap. 8, “O que é o fascismo?”. O livro é de 2004: não conhece a extrema direita da década de 2010, e sobre o Brasil fala do integralismo e de Vargas. Para Paxton, a Ação Integralista foi um partido fascista; Vargas, que a extinguiu, não governou por meio de um partido fascista. Robert O. Paxton, A anatomia do fascismo (2004), trad. Patrícia Zimbres e Paula Zimbres (Paz e Terra, 2ª ed., 2023); edição digital sem paginação; cap. 7, “O fascismo fora da Europa”.

Como a Vigília usa os instrumentos

  1. A palavra vem com o critério. Quando a Vigília disser fascista, dirá qual traço de Eco aparece e em que estágio de Paxton o caso está.
  2. O alvo é a ação. O ataque às eleições, à imprensa, aos direitos, a violência contra um inimigo interno. Opinião conservadora não é alvo de denúncia: é interlocutora de debate.
  3. Conservador não é reacionário, e autoritário não é fascista. As distinções existem para que as palavras continuem a significar alguma coisa.
  4. A régua é a mesma para todos os lados. Os traços de Eco e as paixões de Paxton não são de um lado só, e a Vigília os procura em todos.
  5. Fato sobre uma pessoa só pelo protocolo. Esta peça não aplica os instrumentos a ninguém. Dizer de alguém real que pratica um traço é imputar um fato, e a Vigília só imputa com a fonte primária, a data, a situação atual e o outro lado.

As citações vêm das fichas de leitura e dos cadernos da Vigília, Entre aspas está só o que a ficha conferiu com a página impressa (Safatle, p. 53; Coutinho, p. 24-25). O resto vem de edições digitais sem a paginação do impresso e vai em paráfrase, com a obra e o capítulo. O livro de referência do tema, Direita e esquerda, de Norberto Bobbio, ainda não está no acervo da Vigília: esta peça foi feita sem ele. Achou um erro? Avise.

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