Ciência · peça · revista em 30/10/2026
Como um gráfico engana
Um gráfico pode mentir sem nenhum número falso. Basta escolher onde o eixo começa, que séries aparecem e que pedaço do tempo se mostra. Teste com um dado do Censo.
O dado
No Censo de 2010, 43,1% dos brasileiros se declararam pardos. No de 2022, 45,3%. Os brancos foram de 47,7% para 43,5%. Os números são do IBGE e não mudam abaixo. O que muda é o desenho.
Mexa no gráfico
IBGE, Censo Demográfico 2010 e 2022, tabela 9605 (população por cor ou raça), em proporção de quem declarou a cor ou raça.
Cinco perguntas para qualquer gráfico
- Onde o eixo começa? Barra que não começa no zero aumenta a diferença. Num gráfico de barras, o comprimento é a medida.
- O que ficou de fora? Uma série sozinha pode esconder a outra metade da história.
- Que período? Começar no ano certo cria a tendência que se quer mostrar.
- Contra o quê? Um número só é alto ou baixo comparado com outro. Sem comparação, não diz nada.
- O título afirma o quê? O título diz a conclusão. Confira se o desenho a sustenta sem truque.
A Vigília se cobra a mesma lista nos próprios gráficos: como trabalhamos.
Fontes
- IBGE, Censo Demográfico 2010 e 2022, tabela 9605, pela API de agregados (os mesmos números da página do Censo da República).
- Alberto Cairo, How Charts Lie (2019); Edward Tufte, The Visual Display of Quantitative Information (2001); Darrell Huff, Como mentir com estatística (1954); Jessica Hullman e Nicholas Diakopoulos, “Visualization Rhetoric” (2011); Deirdre McCloskey, The Rhetoric of Economics (1998). Fichados no acervo da Vigília.