Ciência · peça · revista em 30/10/2026
Como a ciência sabe que errou
A ciência erra. A diferença é que ela tem como descobrir. Um caso, com datas: a extinção do fim do Cretáceo, a dos dinossauros, e a ideia que precisou cair para explicá-la.
Role a página. A linha do tempo acompanha o texto, de 1796 a 1984. Em 1985, a pergunta é sua.
o ano1984
- irídio1980
- quartzo de impacto1984
- crateraainda não
a explicação devagar ou de repente? em disputa
-
1796
Os ossos que não batem
Antes de 1796, ninguém achava que uma espécie inteira pudesse sumir. Nem Aristóteles, nem Lineu, nem Thomas Jefferson.
Georges Cuvier comparou ossos e provou que o mastodonte não era um elefante. Era um animal que não existia mais. Para explicar a perda, falou em revoluções violentas na superfície da Terra.
Kolbert, cap. II.
-
1812
Quarenta e nove
Em 1812, Cuvier já contava 49 espécies de vertebrados extintos. A extinção deixava de ser hipótese e virava fato.
Kolbert, cap. II.
-
1832
Duas ideias, dois nomes
Em 1832, William Whewell deu nome à briga. Catastrofismo, para a ideia de Cuvier. Uniformitarismo, para a de Charles Lyell.
Para Lyell, cada traço da paisagem vinha de processos muito lentos, como a erosão e o vulcanismo, que ainda se podiam ver. Em resumo: o presente explica o passado. Darwin levou a ideia para a vida: a extinção seria um efeito lento da seleção natural.
Kolbert, cap. III.
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1844
Um caso que não cabe
Em 1844, colecionadores mataram os últimos araus-gigantes na ilha de Eldey. Darwin era vivo. A teoria não previa uma extinção tão rápida, e feita por gente.
Elizabeth Kolbert resume o dilema. Ou a extinção causada pelo homem era um caso à parte, ou Cuvier, afinal, tinha razão.
Kolbert, cap. III.
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1980
O irídio
Em 1980, Luis e Walter Alvarez apresentaram uma pista achada em Gubbio, na Itália: o irídio. Com ela, uma hipótese. A extinção do fim do Cretáceo, há 66 milhões de anos, teria vindo de um impacto.
Era a catástrofe de volta. Houve resistência entre os paleontólogos. Kolbert a lê com Thomas Kuhn: é a resistência de quem trabalha dentro de um paradigma.
Kolbert, caps. IV e V.
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1984
O quartzo
Em 1984, veio a segunda pista: o quartzo de impacto. Mas faltava o principal. Se houve um impacto, onde estava a cratera?
Kolbert, cap. IV.
Em que você acreditaria?
Você tem duas pistas: o irídio, de 1980, e o quartzo de impacto, de 1984. Não há cratera. A ideia de Lyell e Darwin explica a paisagem há mais de cem anos. Escolha.
Na extinção lenta, de Lyell e Darwin
Você estaria ao lado dos paleontólogos que resistiam. Não é só teimosia. Para Kuhn, quem trabalha dentro de um paradigma resolve os problemas que ele propõe, e é isso que faz a ciência avançar no dia a dia.
O custo: o fato que não cabe tende a ficar de fora. E o irídio não cabia.
No impacto dos Alvarez
Você teria acertado, mas ainda sem a prova mais forte. Uma hipótese boa diz onde procurar. Se houve um impacto, deve haver um buraco. Em 1985, ninguém o tinha achado.
Ainda não sei
Talvez a resposta mais científica de 1985. Duas pistas apontavam para o impacto. A ideia antiga não dava conta delas. E faltava a peça que decidiria.
A pergunta útil não é em que acreditar. É o que faria você mudar de ideia.
1991 A cratera
Em 1991, a cratera de Chicxulub fechou a questão. Com o irídio e o quartzo, provou o impacto de 66 milhões de anos atrás. A catástrofe de Cuvier estava de volta.
A geologia de hoje não voltou a Cuvier, nem ficou com Lyell. Juntou os dois. Para ela, a Terra muda muito devagar, menos quando muda de repente. É o que Kolbert chama de neocatastrofismo.
Kolbert conta essa história, de Cuvier a Chicxulub, como uma sequência de mudanças de paradigma, com Kuhn na mão.
Kolbert, A sexta extinção, caps. IV e V. Paráfrase.
Por que é tão difícil ver
Em 1962, o historiador da ciência Thomas Kuhn publicou A estrutura das revoluções científicas. Ele chama de paradigma a realização que uma comunidade adota como modelo. Os exemplos dele são livros: os Principia de Newton, a Química de Lavoisier, a Geologia de Lyell.
Dentro de um paradigma, o trabalho é o que Kuhn chama de ciência normal: resolver os problemas que o modelo propõe. O preço vem dito sem rodeio:
“A ciência normal não tem como objetivo trazer à tona novas espécies de fenômeno; na verdade, aqueles que não se ajustam aos limites do paradigma freqüentemente nem são vistos.” (p. 45)
Kuhn não condena isso. O foco obriga a estudar a natureza com uma profundidade que, de outro modo, seria inimaginável. E a ciência normal tem um jeito de afrouxar o foco quando o paradigma deixa de funcionar.
Quando um paradigma dá lugar a outro, Kuhn fala em revolução. E ela custa, porque abandonar o paradigma “é deixar de praticar a ciência que este define” (p. 55). Não se troca uma frase. Troca-se um modo de trabalhar.
Kuhn, cap. 1 (os livros como paradigma) e cap. 2, p. 45 e 55 da 5ª ed. (Perspectiva, 1998).
O manual que apaga a revolução
Depois de cada revolução, diz Kuhn, os manuais são reescritos. E, uma vez reescritos,
“dissimulam inevitavelmente não só o papel desempenhado, mas também a própria existência das revoluções que os produziram.” (p. 175)
Não é preciso má-fé: basta reescrever o manual para a turma seguinte. O resultado, para Kuhn, é que “a tradição derivada dos manuais, da qual os cientistas sentem-se participantes, jamais existiu” (p. 175).
Quem aprende hoje que um asteroide encerrou o Cretáceo aprende o resultado. Os onze anos de briga somem. E some a lição mais útil: a ideia derrubada também era a ideia aceita.
Kuhn, cap. 10, p. 175 da 5ª ed. (1998).
Até a palavra foi corrigida
Kuhn também passou pelo mesmo crivo. A pesquisadora Margaret Masterman, de Cambridge, fez um índice do livro dele numa cama de hospital (p. 59, nota 1). Contou o uso de “paradigma” em “não menos que vinte e um sentidos diferentes” (p. 61), cada um com a página.
Kuhn não discutiu a conta. Aceitou-a: “concordo com o julgamento dela”, o de que o tratamento do termo era “muito confuso” (p. 234). E trocou a palavra por duas: matriz disciplinar, para o que um grupo partilha, e exemplares, para os problemas resolvidos que servem de modelo. Tinha, disse, “perdido o controle da palavra” (p. 272).
Um detalhe que reforça a lição: no posfácio da Estrutura, Kuhn fala em “pelo menos vinte e duas maneiras” (p. 226). A lista dela tem 21. Até a contagem de uma crítica pode ser refeita, porque foi publicada com as páginas.
Masterman, em Lakatos e Musgrave (orgs.), Criticism and the Growth of Knowledge (1970), p. 59 e 61; Kuhn, no mesmo volume, p. 234 e 272 (traduções nossas); Kuhn, Estrutura, posfácio, p. 226 da 5ª ed. (1998).
Por que errar assim é a força
O historiador Paolo Rossi diz o que separa a ciência moderna de outros saberes. Não é a experiência, que magos e alquimistas também invocavam. É a recusa do segredo:
Toda afirmação tem de ser publicada: posta sob o controle dos outros, demonstrada a eles, discutida, exposta a contestação.
Na ciência, diz Rossi, o segredo passou a valer como defeito. Em 1665 nasceram as Philosophical Transactions, que ele dá como a primeira revista europeia só de ciência.
Rossi, O nascimento da ciência moderna na Europa, Premissa (“Ciência européia”), cap. 2 e cap. 16. Paráfrase.
O historiador Marc Bloch dá a outra metade. No século xvii, o jesuíta Papenbroeck dizia que todos os velhos diplomas merovíngios guardados nos mosteiros eram falsos. Jean Mabillon respondeu, em substância: há documentos forjados e há autênticos, e eis como distinguir uns dos outros. O livro de Mabillon, o De re diplomatica, saiu em 1681.
Para Bloch, foi nesse ano, uma grande data na história do espírito humano, que a crítica de documentos ficou fundada de vez.
Nem crer em tudo, nem duvidar de tudo. Ter um método para separar. E a regra que decorre dela, para Bloch: fora da fantasia, só se tem o direito de afirmar o que se pode verificar.
A geologia herdou esse gesto. Rossi conta como os fósseis deixaram de ser só observados e passaram a ser lidos como se lê um documento. Foi o que Cuvier fez com os ossos do mastodonte, e o que os Alvarez fizeram com o irídio.
Bloch, Apologia da história, cap. III; Rossi, cap. 13 (“Pedras estranhas”). Paráfrase.
Então, como a ciência sabe que errou?
- Porque publica. Toda afirmação fica à vista de quem pode contestá-la.
- Porque confere. Há método para separar a prova boa da prova forjada.
- Porque troca de ideia quando a prova chega. Do irídio à cratera, onze anos.
É lento. E, depois, o manual esconde a briga. Mas o saber que se corrige traz dentro de si o modo de se corrigir. A fraqueza aparente, errar em público, é o que permite descobrir o erro.
Fontes
- Elizabeth Kolbert, A sexta extinção: uma história não natural, trad. Mauro Pinheiro (Intrínseca, 2015), caps. II a V. A edição digital não tem paginação; cita-se o capítulo.
- Thomas S. Kuhn, A estrutura das revoluções científicas, trad. Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira (Perspectiva). As páginas são da 5ª edição (1998); a 12ª (2013) traz pequenas emendas de revisão no mesmo texto.
- Margaret Masterman, “The Nature of a Paradigm”, e Thomas S. Kuhn, “Reflections on my Critics”, em Imre Lakatos e Alan Musgrave (orgs.), Criticism and the Growth of Knowledge (Cambridge University Press, 1970). Traduções nossas.
- Paolo Rossi, O nascimento da ciência moderna na Europa, trad. Antonio Angonese (Edusc, 2001). Cita-se o capítulo e a seção.
- Marc Bloch, Apologia da história, ou O ofício de historiador (Zahar). Cita-se o capítulo.
- Na Floresta, a sexta extinção, a parte da história que acontece agora.