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Ciência · peça · revista em 30/10/2026

Como a ciência sabe que errou

A ciência erra. A diferença é que ela tem como descobrir. Um caso, com datas: a extinção do fim do Cretáceo, a dos dinossauros, e a ideia que precisou cair para explicá-la.

Role a página. A linha do tempo acompanha o texto, de 1796 a 1984. Em 1985, a pergunta é sua.

11 anos para uma ideia aceita cair: uma barra de 184 anos, de Cuvier (1796) ao irídio (1980), e um trecho curto até a cratera (1991)
De Cuvier ao irídio, 184 anos; do irídio à cratera, 11. Vigília, 2026 · desenho da casa, com os dados da peça · ilustração da Vigília

o ano1984

1800 1850 1900 1950 ?
  • irídio1980
  • quartzo de impacto1984
  • crateraainda não

a explicação devagar ou de repente? em disputa

A linha vai de 1790 a 1995, em escala: cada ano ocupa o mesmo espaço. As pistas são as que provaram o impacto, na ordem em que apareceram.
  1. 1796

    Os ossos que não batem

    Antes de 1796, ninguém achava que uma espécie inteira pudesse sumir. Nem Aristóteles, nem Lineu, nem Thomas Jefferson.

    Georges Cuvier comparou ossos e provou que o mastodonte não era um elefante. Era um animal que não existia mais. Para explicar a perda, falou em revoluções violentas na superfície da Terra.

    Kolbert, cap. II.

  2. 1812

    Quarenta e nove

    Em 1812, Cuvier já contava 49 espécies de vertebrados extintos. A extinção deixava de ser hipótese e virava fato.

    Kolbert, cap. II.

  3. 1832

    Duas ideias, dois nomes

    Em 1832, William Whewell deu nome à briga. Catastrofismo, para a ideia de Cuvier. Uniformitarismo, para a de Charles Lyell.

    Para Lyell, cada traço da paisagem vinha de processos muito lentos, como a erosão e o vulcanismo, que ainda se podiam ver. Em resumo: o presente explica o passado. Darwin levou a ideia para a vida: a extinção seria um efeito lento da seleção natural.

    Kolbert, cap. III.

  4. 1844

    Um caso que não cabe

    Em 1844, colecionadores mataram os últimos araus-gigantes na ilha de Eldey. Darwin era vivo. A teoria não previa uma extinção tão rápida, e feita por gente.

    Elizabeth Kolbert resume o dilema. Ou a extinção causada pelo homem era um caso à parte, ou Cuvier, afinal, tinha razão.

    Kolbert, cap. III.

  5. 1980

    O irídio

    Em 1980, Luis e Walter Alvarez apresentaram uma pista achada em Gubbio, na Itália: o irídio. Com ela, uma hipótese. A extinção do fim do Cretáceo, há 66 milhões de anos, teria vindo de um impacto.

    Era a catástrofe de volta. Houve resistência entre os paleontólogos. Kolbert a lê com Thomas Kuhn: é a resistência de quem trabalha dentro de um paradigma.

    Kolbert, caps. IV e V.

  6. 1984

    O quartzo

    Em 1984, veio a segunda pista: o quartzo de impacto. Mas faltava o principal. Se houve um impacto, onde estava a cratera?

    Kolbert, cap. IV.

Em que você acreditaria?

Você tem duas pistas: o irídio, de 1980, e o quartzo de impacto, de 1984. Não há cratera. A ideia de Lyell e Darwin explica a paisagem há mais de cem anos. Escolha.

Na extinção lenta, de Lyell e Darwin

Você estaria ao lado dos paleontólogos que resistiam. Não é só teimosia. Para Kuhn, quem trabalha dentro de um paradigma resolve os problemas que ele propõe, e é isso que faz a ciência avançar no dia a dia.

O custo: o fato que não cabe tende a ficar de fora. E o irídio não cabia.

No impacto dos Alvarez

Você teria acertado, mas ainda sem a prova mais forte. Uma hipótese boa diz onde procurar. Se houve um impacto, deve haver um buraco. Em 1985, ninguém o tinha achado.

Ainda não sei

Talvez a resposta mais científica de 1985. Duas pistas apontavam para o impacto. A ideia antiga não dava conta delas. E faltava a peça que decidiria.

A pergunta útil não é em que acreditar. É o que faria você mudar de ideia.

1991 A cratera

Em 1991, a cratera de Chicxulub fechou a questão. Com o irídio e o quartzo, provou o impacto de 66 milhões de anos atrás. A catástrofe de Cuvier estava de volta.

1800 1850 1900 1950 de Cuvier ao irídio: 184 anos 11 anos
A mesma escala da linha de cima. A ideia antiga durou quase dois séculos; a troca, depois da primeira pista, levou onze anos.

A geologia de hoje não voltou a Cuvier, nem ficou com Lyell. Juntou os dois. Para ela, a Terra muda muito devagar, menos quando muda de repente. É o que Kolbert chama de neocatastrofismo.

Kolbert conta essa história, de Cuvier a Chicxulub, como uma sequência de mudanças de paradigma, com Kuhn na mão.

Kolbert, A sexta extinção, caps. IV e V. Paráfrase.

Por que é tão difícil ver

Em 1962, o historiador da ciência Thomas Kuhn publicou A estrutura das revoluções científicas. Ele chama de paradigma a realização que uma comunidade adota como modelo. Os exemplos dele são livros: os Principia de Newton, a Química de Lavoisier, a Geologia de Lyell.

Dentro de um paradigma, o trabalho é o que Kuhn chama de ciência normal: resolver os problemas que o modelo propõe. O preço vem dito sem rodeio:

“A ciência normal não tem como objetivo trazer à tona novas espécies de fenômeno; na verdade, aqueles que não se ajustam aos limites do paradigma freqüentemente nem são vistos.” (p. 45)

Kuhn não condena isso. O foco obriga a estudar a natureza com uma profundidade que, de outro modo, seria inimaginável. E a ciência normal tem um jeito de afrouxar o foco quando o paradigma deixa de funcionar.

Quando um paradigma dá lugar a outro, Kuhn fala em revolução. E ela custa, porque abandonar o paradigma “é deixar de praticar a ciência que este define” (p. 55). Não se troca uma frase. Troca-se um modo de trabalhar.

Kuhn, cap. 1 (os livros como paradigma) e cap. 2, p. 45 e 55 da 5ª ed. (Perspectiva, 1998).

O manual que apaga a revolução

Depois de cada revolução, diz Kuhn, os manuais são reescritos. E, uma vez reescritos,

“dissimulam inevitavelmente não só o papel desempenhado, mas também a própria existência das revoluções que os produziram.” (p. 175)

Não é preciso má-fé: basta reescrever o manual para a turma seguinte. O resultado, para Kuhn, é que “a tradição derivada dos manuais, da qual os cientistas sentem-se participantes, jamais existiu” (p. 175).

Quem aprende hoje que um asteroide encerrou o Cretáceo aprende o resultado. Os onze anos de briga somem. E some a lição mais útil: a ideia derrubada também era a ideia aceita.

Kuhn, cap. 10, p. 175 da 5ª ed. (1998).

Até a palavra foi corrigida

21sentidos de “paradigma” no livro de Kuhn, pela conta de Margaret Masterman

Kuhn também passou pelo mesmo crivo. A pesquisadora Margaret Masterman, de Cambridge, fez um índice do livro dele numa cama de hospital (p. 59, nota 1). Contou o uso de “paradigma” em “não menos que vinte e um sentidos diferentes” (p. 61), cada um com a página.

Kuhn não discutiu a conta. Aceitou-a: “concordo com o julgamento dela”, o de que o tratamento do termo era “muito confuso” (p. 234). E trocou a palavra por duas: matriz disciplinar, para o que um grupo partilha, e exemplares, para os problemas resolvidos que servem de modelo. Tinha, disse, “perdido o controle da palavra” (p. 272).

Um detalhe que reforça a lição: no posfácio da Estrutura, Kuhn fala em “pelo menos vinte e duas maneiras” (p. 226). A lista dela tem 21. Até a contagem de uma crítica pode ser refeita, porque foi publicada com as páginas.

Masterman, em Lakatos e Musgrave (orgs.), Criticism and the Growth of Knowledge (1970), p. 59 e 61; Kuhn, no mesmo volume, p. 234 e 272 (traduções nossas); Kuhn, Estrutura, posfácio, p. 226 da 5ª ed. (1998).

Por que errar assim é a força

O historiador Paolo Rossi diz o que separa a ciência moderna de outros saberes. Não é a experiência, que magos e alquimistas também invocavam. É a recusa do segredo:

Toda afirmação tem de ser publicada: posta sob o controle dos outros, demonstrada a eles, discutida, exposta a contestação.

Na ciência, diz Rossi, o segredo passou a valer como defeito. Em 1665 nasceram as Philosophical Transactions, que ele dá como a primeira revista europeia só de ciência.

Rossi, O nascimento da ciência moderna na Europa, Premissa (“Ciência européia”), cap. 2 e cap. 16. Paráfrase.

O historiador Marc Bloch dá a outra metade. No século xvii, o jesuíta Papenbroeck dizia que todos os velhos diplomas merovíngios guardados nos mosteiros eram falsos. Jean Mabillon respondeu, em substância: há documentos forjados e há autênticos, e eis como distinguir uns dos outros. O livro de Mabillon, o De re diplomatica, saiu em 1681.

Para Bloch, foi nesse ano, uma grande data na história do espírito humano, que a crítica de documentos ficou fundada de vez.

Nem crer em tudo, nem duvidar de tudo. Ter um método para separar. E a regra que decorre dela, para Bloch: fora da fantasia, só se tem o direito de afirmar o que se pode verificar.

A geologia herdou esse gesto. Rossi conta como os fósseis deixaram de ser só observados e passaram a ser lidos como se lê um documento. Foi o que Cuvier fez com os ossos do mastodonte, e o que os Alvarez fizeram com o irídio.

Bloch, Apologia da história, cap. III; Rossi, cap. 13 (“Pedras estranhas”). Paráfrase.

Então, como a ciência sabe que errou?

  1. Porque publica. Toda afirmação fica à vista de quem pode contestá-la.
  2. Porque confere. Há método para separar a prova boa da prova forjada.
  3. Porque troca de ideia quando a prova chega. Do irídio à cratera, onze anos.

É lento. E, depois, o manual esconde a briga. Mas o saber que se corrige traz dentro de si o modo de se corrigir. A fraqueza aparente, errar em público, é o que permite descobrir o erro.

Fontes

  • Elizabeth Kolbert, A sexta extinção: uma história não natural, trad. Mauro Pinheiro (Intrínseca, 2015), caps. II a V. A edição digital não tem paginação; cita-se o capítulo.
  • Thomas S. Kuhn, A estrutura das revoluções científicas, trad. Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira (Perspectiva). As páginas são da 5ª edição (1998); a 12ª (2013) traz pequenas emendas de revisão no mesmo texto.
  • Margaret Masterman, “The Nature of a Paradigm”, e Thomas S. Kuhn, “Reflections on my Critics”, em Imre Lakatos e Alan Musgrave (orgs.), Criticism and the Growth of Knowledge (Cambridge University Press, 1970). Traduções nossas.
  • Paolo Rossi, O nascimento da ciência moderna na Europa, trad. Antonio Angonese (Edusc, 2001). Cita-se o capítulo e a seção.
  • Marc Bloch, Apologia da história, ou O ofício de historiador (Zahar). Cita-se o capítulo.
  • Na Floresta, a sexta extinção, a parte da história que acontece agora.

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