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A Nova República (desde 1985) · política e instituições

A fuga de Flávio Bolsonaro

27 de outubro de 2026 · governo de Luiz Inácio Lula da Silva

A ponte internacional Tancredo Neves (ponte da Fraternidade), entre Foz do Iguaçu e Puerto Iguazú, vista de baixo, 2014Garon Piceli (Flickr), 2014 · Wikimedia Commons · CC0

Dois dias depois de perder o segundo turno para Lula, o senador Flávio Bolsonaro, proibido pelo STF de deixar o país e intimado a entregar os passaportes em 24 horas, cruzou a fronteira com a Argentina na noite de 27 de outubro de 2026 com passaporte italiano, com a mulher e as filhas, e embarcou num jato particular pago por um intermediário dos Estados Unidos; desembarcou na Flórida na manhã seguinte, admitido por decisão discricionária do governo Trump. A Argentina de Milei diz que ele entrou “em regra”, e um assessor do presidente foi flagrado em Misiones na noite do voo; a Polícia Federal, que pedira as cautelares por risco de fuga, investiga o descumprimento. Não há mandado de prisão, pedido de extradição nem alerta da Interpol.

O que havia antes

Flávio Bolsonaro, senador pelo PL do Rio de Janeiro, foi o candidato da oposição à Presidência em 2026: venceu o primeiro turno com 47,03% e perdeu o segundo, em 25 de outubro, para Lula, que teve 51,79% dos votos válidos. Na noite da derrota, anunciou que não reconhecia o resultado e tentaria anular o pleito (ver o marco da eleição). Dias antes do segundo turno, o irmão, o deputado Eduardo Bolsonaro, que vive nos Estados Unidos desde o início de 2026, dissera numa transmissão que Flávio deveria deixar o país se perdesse (Agência Brasil, 27/10/2026).

No domingo da eleição, a Polícia Federal representou ao STF por medidas cautelares contra o senador, investigado na Petição 16.877, a mesma em que o advogado Willer Tomaz é apurado por lavagem de dinheiro ligada a casas de apostas, com bloqueio de até R$ 6 bilhões; a apuração preliminar da PF aponta Flávio como beneficiário de recursos da Alcazar Holdings, sediada na Ilha da Madeira. O pedido foi motivado pelo risco de saída do país (nota da PF, 28/10/2026; Agência Brasil, 26/10/2026). Flávio e Tomaz negam irregularidades.

A ponte Tancredo Neves vista do lado brasileiro, depois do controle de saída, com o rio Iguaçu marcando a fronteira com a Argentina, janeiro de 2020

A ponte Tancredo Neves vista do lado brasileiro, depois do controle de saída, com o rio Iguaçu marcando a fronteira com a Argentina, janeiro de 2020Falk2 (Wikimedia Commons), 2020 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

O que aconteceu

Em 26 de outubro, segunda-feira, o ministro Alexandre de Moraes proibiu Flávio de deixar o país e mandou entregar os passaportes à PF em 24 horas; a decisão corre em segredo de justiça e veio a público pelo próprio senador, intimado ao visitar o pai, Jair Bolsonaro, em prisão domiciliar em Brasília: “fui intimado a entregar meus passaportes e também estou proibido de deixar o país”, disse num vídeo, e perguntou “Isso é motivo para tirar meu passaporte? Isso é justiça?”. No mesmo vídeo negou intenção de sair do Brasil e disse que ficaria para organizar a oposição (Agência Brasil, 26 e 27/10/2026).

Os passaportes comum e diplomático foram cancelados e um alerta foi inserido no sistema migratório; o prazo para entregar eventuais passaportes de outra nacionalidade venceu na manhã de terça-feira, 27, sem que fossem entregues (nota da PF). Naquela tarde, a Reuters apurou com uma fonte do governo dos Estados Unidos e com um aliado do senador que ele fugira para os EUA; sua assessoria dissera na véspera que ele “nunca pensou em deixar o Brasil”, e aliados negaram a viagem (Agência Brasil, 27/10/2026; Gazeta do Povo, 27/10/2026).

A Direção Nacional de Migrações da Argentina confirmou que Flávio, a mulher, Fernanda, e as filhas Carolina e Luiza cruzaram a Ponte Internacional Tancredo Neves, em Misiones, às 22h50 de 27 de outubro, com documentos válidos e “sem incidentes”, e às 23h30 embarcaram num jato da Baires Fly com plano de voo para Guayaquil, no Equador (Agência Brasil, 28/10/2026). Não há registro de saída por posto de controle brasileiro (nota da PF). Em 28 de outubro, a PF informou que o senador desembarcara no aeroporto executivo de Opa-locka, na Flórida, e que investiga as circunstâncias do descumprimento das ordens judiciais; a nota ressalva que as restrições sobre documentos de viagem “não caracterizam a condição de foragido” nem autorizam prisão (Agência Brasil, 28/10/2026).

“Fui intimado a entregar meus passaportes e também estou proibido de deixar o país.”

Flávio Bolsonaro, em vídeo nas redes sociais, segundo a Agência BrasilMoraes manda Flávio entregar passaporte e o proíbe de deixar o país (Agência Brasil), 26/10/2026a fonte

O que veio depois

O que se sabe em 29 de outubro de 2026, com a fase de cada fato. O jato Gulfstream da Baires Fly foi contratado na segunda-feira, 26, por um intermediário aeronáutico dos Estados Unidos, não identificado, que pagou adiantado cerca de US$ 140 mil para “oito passageiros brasileiros”; pousou em Puerto Iguazú às 23h45 daquele dia e esperou (La Nación, com a própria Baires Fly). A rota desviou para não sobrevoar o Brasil, com parada em Guayaquil, e o pouso no aeroporto executivo de Opa-locka foi às 10h25 de 28 de outubro; os registros da alfândega americana, lidos pelo Poder360 e pela CNN Brasil, dão a admissão por “parole” discricionário, válido até outubro de 2027, com o passaporte diplomático já cancelado pela PF.

A Argentina. Na tarde de 27, a Direção Nacional de Migrações disse não ter registro da entrada; por volta das 2h de 28 confirmou a travessia das 22h50, “sem impedimento legal” e “sem incidentes”, e informou à EFE que Flávio usou passaporte italiano: “Não podemos impedi-lo de entrar no país com seu passaporte europeu”. O porta-voz de Milei, Adrián Ravier, disse que o governo “tomou nota” do resultado da eleição, que Flávio “não pediu asilo” e que não haveria felicitação a Lula; em 29, o chefe de gabinete, Diego Santilli, fez a primeira defesa pública: o senador “ingressou com a documentação correspondente, em regra”, “não tinha impedimentos da Interpol”. Milei não se manifestou. Às 2h50 de 28, um controle policial em Capioví, na estrada que sai de Puerto Iguazú, identificou Santiago Caputo, assessor do presidente, num veículo oficial da Yacyretá com placa diplomática, segundo a ata a que La Nación teve acesso; Caputo respondeu “Mistério” e “Nem ideia”. Clarín, La Nación e Infobae relatam, por fontes não nomeadas, que ele coordenou a operação; o governo não confirma. Um promotor federal de Puerto Iguazú pediu informes, a juíza María Eugenia Capuchetti mandou preservar as câmeras do aeroporto, e a comissão bicameral de inteligência do Congresso argentino enviou 14 perguntas ao serviço secreto.

Os Estados Unidos. Em 27, fontes anônimas do Departamento de Estado disseram à Axios, à AP e à CNN Brasil que o governo emitiria vistos para o senador e a família; nenhuma nota oficial foi localizada, e o que se materializou nos registros foi o “parole”, não um visto. Trump disse em 27: “Eu aprovaria. Acho que são boas pessoas”; em 28: “demos a ele uma autorização para entrar no país. Mas eu não vou me envolver. Foi uma eleição muito estranha”; em 29: “o atual presidente me pediu para não tomar partido. E eu não tomei”, a eleição foi “um grande constrangimento para o povo brasileiro”, e ele falaria com Lula, sem dizer se reconhece a vitória (Agência Brasil; Poder360; Infobae, em tradução). O New York Times, citado pela CNN Brasil e pelo Metrópoles, relata por fontes anônimas que o jato foi providenciado por Jason Miller, aliado da família e da comunicação da Casa Branca, em contato com Eduardo Bolsonaro; Miller, a Casa Branca e o Departamento de Estado não responderam. Marco Rubio não se pronunciou; a versão de que ele “liderou” a articulação é só de Simón Levy, investidor próximo à família. Democratas do Comitê de Relações Exteriores da Câmara e o deputado Joaquin Castro criticaram: “perder as eleições não é motivo para asilo”. Não há registro de pedido formal de asilo. Em 28, Eduardo Bolsonaro e Alexandre Ramagem publicaram fotos com Flávio nos EUA.

A carta. Na tarde de 28, Flávio divulgou uma carta que, na primeira versão, o chamava de “verdadeiro presidente eleito do Brasil”, corrigida depois para “líder do Brasil”: “não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil, saí de um regime de exceção”; agradece a Milei “por sua coragem, seu senso de justiça e de legalidade” e “ao presidente Trump e ao maravilhoso povo americano por me acolher”; promete liderar a oposição de fora e alega fraude sem prova, pela prorrogação da votação; a carta não fala em asilo (Agência Brasil; Infobae). O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, respondeu que a eleição transcorreu com “mais absoluta normalidade”; o coordenador da campanha, Rogério Marinho, admitiu que “não há provas nesse sentido” e chamou o senador de “exilado político”; o ex-ministro Celso de Mello: “Ninguém adquire um mandato presidencial por autoproclamação”. Valdemar Costa Neto, presidente do PL, depois de visitar Jair Bolsonaro em 29: “ninguém sabia, eu também não sabia”; “compreendemos, mas não aprovamos”.

O Brasil. Lula, em 27, na festa de 81 anos: “Esse ato de sair do Brasil é vergonhoso. Ele deveria ter entregue o passaporte”; “quem não deve, não teme”; em 29, agradeceu a Mauricio Macri pelos cumprimentos recordando “com nostalgia os tempos em que diferenças circunstanciais entre nossos países se discutiam e se solucionavam de maneira civilizada e republicana”, sem citar Milei. O Itamaraty não emitiu nota; fontes diplomáticas falam em cautela e numa “lei da reciprocidade” contra os EUA como hipótese em estudo. A coligação de Lula acusou “interferência estrangeira”. No STF, não há decisão conhecida sobre o pedido de prisão preventiva e alerta vermelho protocolado por deputados do PT em 27; em 28 o tribunal negou que houvesse busca na casa do senador. A PF, por fontes da CNN Brasil, avalia pedir o bloqueio de bens e apura se houve ajuda de empresários e políticos; a avaliação interna é que não houve descumprimento de medida cautelar, e sim de ordem judicial. No Senado, o mandato vai até 1º de fevereiro de 2027; Flávio não comunicou a saída, soma 11 faltas em 2026, de um limite de 24, e há um pedido de perda de mandato anunciado pela deputada Sâmia Bomfim e outro, de um advogado, protocolado no Conselho de Ética em 29; o presidente Davi Alcolumbre não se pronunciou. Os senadores Randolfe Rodrigues, Alessandro Vieira, Eliziane Gama e Veneziano Vital do Rêgo reafirmaram em plenário, em 28, o resultado da eleição.

O edifício-sede do Supremo Tribunal Federal, na Praça dos Três Poderes, Brasília, 2021

O edifício-sede do Supremo Tribunal Federal, na Praça dos Três Poderes, Brasília, 2021Rodrigo Rocatto, 2021 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

Relato escrito sobre as fontes listadas abaixo, conferidas em 29/10/2026.

Na República

Referências

Polícia Federal, nota à imprensa (28/10/2026); Agência Brasil

Documentos oficiais

Para ler mais

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