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República / marcos / a ditadura militar

A ditadura militar (1964–1985) · violência e segurança

A morte de Carlos Marighella

4 de novembro de 1969 · governo de Emílio Médici

Pedra em homenagem a Carlos Marighella na alameda Casa Branca, em São Paulo, perto do ponto onde ele foi morto em 1969; foto de 2012Caio do Valle, 2012 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 3.0

Na noite de 4 de novembro de 1969, Carlos Marighella, fundador da Ação Libertadora Nacional e o homem mais procurado da ditadura, foi morto numa emboscada do Dops de São Paulo na alameda Casa Branca, nos Jardins. Dois frades dominicanos presos e torturados serviram de isca; a polícia, comandada pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, disse que houve tiroteio. A Comissão Nacional da Verdade concluiu em 2014 que ele estava desarmado, deitado no banco de trás de um Fusca, e foi executado; o Estado já havia reconhecido a responsabilidade em 1996.

O que havia antes

Marighella nasceu em Salvador em 5 de dezembro de 1911, filho de um mecânico italiano e de uma baiana descendente de escravizados. Entrou no PCB nos anos 1930, foi preso e torturado em 1936 e passou seis anos encarcerado a partir de 1939. Anistiado em 1945, elegeu-se deputado constituinte pela Bahia, com a bancada comunista cassada em 1948 (verbete do DHBB, FGV CPDOC; ficha da CNV).

Depois do golpe de 1964, baleado ao resistir à prisão num cinema da Tijuca, passou a defender a luta armada contra a linha do partido. Rompeu com o PCB em 1966-1967, foi expulso após a conferência da OLAS, em Havana, e fundou em julho de 1968 a Ação Libertadora Nacional (ALN), que iniciou a guerrilha urbana com assaltos a bancos; em 1969 escreveu o “Minimanual do guerrilheiro urbano” (DHBB).

Em 4 de setembro de 1969, a ALN apoiou a Dissidência da Guanabara no sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, trocado por 15 presos políticos. Em outubro, a Operação Bandeirante prendeu 19 militantes da ALN em São Paulo e desbaratou 13 “aparelhos”, segundo relatório do CIE de 21 de outubro; sob tortura, um militante revelou a ligação de Marighella com frades dominicanos, que foram presos (ficha da CNV).

Lápide de Carlos Marighella, desenhada por Oscar Niemeyer (2009), no cemitério Quinta dos Lázaros, em Salvador; foto de 2017

Lápide de Carlos Marighella, desenhada por Oscar Niemeyer (2009), no cemitério Quinta dos Lázaros, em Salvador; foto de 2017Paul R. Burley, 2017 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

O que aconteceu

Segundo a ficha da CNV, os dominicanos presos frei Fernando de Brito e frei Ivo (Yves do Amaral Lesbaupin) foram usados como “isca”: do telefone da livraria Duas Cidades, onde trabalhava, frei Fernando marcou um ponto com Marighella, como fizera outras vezes. Um aparato policial do Dops/SP foi montado na alameda Casa Branca sob o comando do delegado Sérgio Paranhos Fleury: o Fusca azul dos frades parado em frente ao número 806, policiais atrás de um tapume de obra, Fleury num Chevrolet com duas investigadoras, como se fossem casais, e o investigador João Carlos Tralli escondido sob a lona de uma picape.

Na noite de 4 de novembro, no horário marcado, Marighella atravessou a alameda Lorena, entrou no Fusca e sentou-se no banco de trás. Os policiais tiraram os frades do carro, Fleury deu voz de prisão e, ao gesto de Marighella de pegar algo na pasta, abriram fogo “à queima-roupa”, diz a CNV. Na pasta, segundo relatório do CIE, havia mil dólares, cruzeiros novos, duas cápsulas de cianureto, chaves e rascunhos cifrados; ele estava desarmado. Também morreram, por tiros dos próprios agentes, a investigadora Stela Borges Morato e o protético Friederich Adolph Rohmann, que passava pelo local, e o delegado Rubens Tucunduva foi ferido na perna.

A versão oficial, registrada no exame necroscópico assinado por Harry Shibata e Abeylard de Queiroz Orsini, foi a de morte “por ocasião de um tiroteio com a polícia”. A perícia da CNV concluiu, em 2014, que Marighella foi atingido por pelo menos quatro projéteis quando estava deitado no banco traseiro, que todos os disparos partiram de fora para dentro do veículo, sem troca de tiros, e que o tiro no tórax, provavelmente o último, foi dado a menos de oito centímetros, “numa ação típica de execução”. O livro da Comissão Especial de 2007 fala em cerca de 150 agentes na operação.

Enterrado como indigente em São Paulo, Marighella teve os restos transferidos para Salvador em 1979. Em 1995, documentos do Deops isentaram os dominicanos da delação; em 1996, dossiê do legista Nelson Massini já apontava execução, com tiro à queima-roupa no peito e cena montada (DHBB).

“Diante das investigações realizadas, conclui-se que Carlos Marighella foi executado por agentes do Estado brasileiro, em contexto de sistemáticas violações de direitos humanos promovidas pela ditadura militar.”

Comissão Nacional da VerdadeRelatório da CNV, volume III, ficha de Carlos Marighella, 10/12/2014a fonte

O que veio depois

A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos reconheceu Marighella como morto político em 11 de setembro de 1996, nos termos da Lei 9.140; a decisão exigiu debate sobre o alcance da expressão “dependências policiais ou assemelhadas”, resolvido pela leitura de que a vítima já estava sob o domínio do poder público (ficha da CNV). A Comissão de Anistia o declarou anistiado político pela Portaria nº 2.780, de 8 de novembro de 2012, sem reparação econômica pedida pela família (ficha da CNV; IHU).

O relatório da CNV, de dezembro de 2014, concluiu que “Carlos Marighella foi executado por agentes do Estado brasileiro” e recomendou a retificação da certidão de óbito e a continuidade das investigações. Em 14 de maio de 2024, o Ministério Público Federal denunciou por homicídio qualificado quatro ex-agentes das equipes da operação (Amador Navarro Parra, Djalma Oliveira da Silva, Luiz Antônio Mariano e Walter Francisco) e, por falsidade ideológica, o legista Harry Shibata, por omitir no laudo os sinais de execução; Fleury morreu em 1979 (Agência Brasil). Em setembro de 2024, ação civil pública do MPF pediu a perda das aposentadorias de 37 ex-agentes e o ressarcimento das indenizações pagas pelo Estado (Agência Brasil). Não há notícia de recebimento da denúncia nem de condenação.

A rua onde foi morto recebe homenagens anuais, e a lápide, desenhada por Oscar Niemeyer, diz “Não tive tempo para ter medo”. Marighella virou nome de ruas e de um colégio estadual na Bahia, de livros, canções e do filme de Wagner Moura (ficha da CNV).

Relato escrito sobre as fontes listadas abaixo, conferidas em 29/10/2026.

Na República

Referências

Comissão Nacional da Verdade, relatório, volume III (cópia)

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