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A Era Vargas (1930–1945) · direitos

A Frente Negra Brasileira

16 de setembro de 1931 · governo de Getúlio Vargas

Em 16 de setembro de 1931, em São Paulo, um grupo de negros fundou a Frente Negra Brasileira para a “união política e social da gente negra nacional”. Com jornal próprio, A Voz da Raça, departamentos de instrução, saúde e esporte e núcleos em vários estados, foi a primeira organização de massas dos afro-brasileiros. Transformada em partido em 1936, foi dissolvida pelo Estado Novo em 1937.

O que havia antes

A abolição de 1888 não veio acompanhada de terra, escola ou trabalho para os libertos, e a República preferiu o imigrante europeu subvencionado ao trabalhador negro. Em São Paulo, a cidade que mais recebeu imigrantes, a população negra se organizou em associações recreativas e numa imprensa própria, que denunciava a exclusão dos clubes, dos hotéis e das escolas.

Segundo o verbete do CPDOC, a articulação da Frente começou em 1928, com a tentativa de realizar um congresso da mocidade negra, e só ganhou corpo no início da década de 1930. O senador Abdias Nascimento, que militou na entidade, disse em 1997 que ela “não nasceu num vácuo político-social”: vinha das organizações anteriores de São Paulo, da frustração com a Revolução de 1930 e do agravamento da vida depois da crise de 1929 (Agência Senado).

Arlindo Veiga dos Santos, presidente fundador da Frente Negra Brasileira, em entrevista ao Jornal de Notícias (SP), 1949

Arlindo Veiga dos Santos, presidente fundador da Frente Negra Brasileira, em entrevista ao Jornal de Notícias (SP), 1949Jornal de Notícias (SP), 1949 · Wikimedia Commons · Public domain

O que aconteceu

Em 16 de setembro de 1931, em São Paulo, foi fundada a Frente Negra Brasileira. Os principais organizadores, pelo CPDOC, foram Arlindo Veiga dos Santos e José Correia Leite. O estatuto fixou como objetivo a “união política e social da gente negra nacional”, com a reivindicação de direitos materiais e políticos, a defesa do trabalho dos negros e a “elevação moral, intelectual, artística, teórico-profissional e física” dos membros, de ambos os sexos.

A Voz da Raça, órgão oficial da Frente Negra Brasileira, primeira edição, São Paulo, 18 de março de 1933
O documento

A Voz da Raça, órgão oficial da Frente Negra Brasileira, primeira edição, São Paulo, 18 de março de 1933Frente Negra Brasileira, 1933 · Arquivo Público do Estado de São Paulo, via Wikimedia Commons · Public domain

A entidade cresceu depressa. O Memorial da Democracia descreve departamentos jurídico-social, artístico, musical, esportivo, de saúde, de propaganda e de instrução, a Cruzada Feminina e as Rosas Negras, e filiais no interior paulista e em Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Espírito Santo e Maranhão. A principal atividade, pelo CPDOC, eram as manifestações públicas contra a discriminação racial: denúncia de hotéis, bares, barbeiros, clubes e delegacias que vetavam a entrada de negros.

O jornal A Voz da Raça, órgão oficial da Frente, começou a circular em março de 1933, com notícias das lutas dos negros no Brasil e no exterior (Memorial da Democracia; o CPDOC cita ainda O Clarim da Alvorada como veículo das posições do grupo). A Fundação Cultural Palmares estima em cerca de cem mil as pessoas que integraram o movimento em todo o país; Abdias Nascimento falou em “dezenas de milhares”.

“União política e social da gente negra nacional.”

Estatuto da Frente Negra Brasileira, citado no verbete do CPDOCVerbete temático “Frente Negra Brasileira”, Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro (CPDOC/FGV), 1931a fonte

O que veio depois

Nas eleições para a Constituinte de 1933, a Frente reivindicou igualdade de direitos e cargos eletivos para negros (CPDOC). Em 1936, foi transformada em partido político, e logo depois veio o Estado Novo: o Decreto-Lei nº 37, de 2 de dezembro de 1937, dissolveu “nesta data, todos os partidos políticos”, inclusive os que, não registrados em 10 de novembro, “já tivessem requerido o seu registo”. A Frente acabou em 1937 (Agência Senado; CPDOC).

O CPDOC registra também o desgaste interno: Arlindo Veiga dos Santos era ligado ao Movimento Patrianovista, de direita, e José Correia Leite aderiu ao pensamento socialista; a polarização fracionou o grupo antes da dissolução.

Para Abdias Nascimento, em discurso no Senado em 20 de outubro de 1997, a Frente foi “a única organização de massas jamais criada pelos afro-brasileiros” e a prova de que o movimento negro tem raízes no próprio país, não no reflexo dos Estados Unidos. Em 1950, ao discutir a Lei Afonso Arinos, um deputado ainda tentou proibir a formação de “frentes negras” baseadas na cor; a emenda foi rejeitada (Agência Senado, Arquivo S).

Manchete da edição 52 de A Voz da Raça (abril de 1936) sobre a prisão de um dirigente da Frente Negra

Manchete da edição 52 de A Voz da Raça (abril de 1936) sobre a prisão de um dirigente da Frente NegraFrente Negra Brasileira, 1936 · Wikimedia Commons · Public domain

Relato escrito sobre as fontes listadas abaixo, conferidas em 29/10/2026.

Na República

Referências

FGV CPDOC, verbete temático “Frente Negra Brasileira”

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