O Theatro Municipal de São Paulo visto do Vale do Anhangabaú; nas escadarias da fachada se fez o ato de 7 de julho de 1978Moyarte (Mônica Yamagawa), 2014 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0
Em 7 de julho de 1978, um ato público nas escadarias do Theatro Municipal de São Paulo protestou contra o racismo e a violência policial. Convocado por entidades negras reunidas no Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial, o ato lançou a organização que seria renomeada Movimento Negro Unificado, o MNU.
- cerca de 2 milpessoas no ato, segundo o Arquivo Nacional
- cerca de 3 milpessoas, segundo outras fontes
- 4garotos barrados no Clube Tietê
- 18h30hora marcada no panfleto
O que havia antes
Dois casos de 1978 motivaram o ato, segundo o panfleto de convocação guardado pelo Arquivo Nacional. Em 28 de abril, numa delegacia de Guaianases, em São Paulo, o feirante Robson Silveira da Luz, trabalhador, casado e pai, morreu em decorrência de torturas policiais. No Clube de Regatas Tietê, quatro garotos negros foram barrados do time infantil de vôlei.
Segundo o fundador Milton Barbosa, ao Brasil de Fato, o movimento foi criado em 18 de junho de 1978, numa reunião de várias entidades. Robson fora preso no 44º Distrito Policial, acusado de roubar frutas na feira. O operário Nilton Lourenço foi morto pela Polícia Militar na Lapa no mesmo ano, segundo o jornal.

As escadarias do Theatro Municipal de São PauloBruno Jamalaro, 2013 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0
O que aconteceu
O panfleto convocava um ato público “contra o racismo” para 7 de julho, às 18h30, no Viaduto do Chá. O ato ocupou as escadarias do Theatro Municipal, ao lado. Reuniu perto de duas mil pessoas, segundo o Arquivo Nacional; outras fontes falam em cerca de três mil.
O texto denunciava a discriminação, o desemprego, o subemprego e a vida nas favelas, e chamava “todos os setores democráticos” a se juntar. Terminava com “Pelo fortalecimento e união das entidades afro-brasileiras”. Os panfletos foram parar nos arquivos dos órgãos de vigilância, que acompanharam o ato, segundo o Arquivo Nacional; o documento está no fundo da Divisão de Segurança e Informações do Itamaraty.
“Não podemos mais calar, a discriminação racial é um fato marcante na sociedade brasileira, que barra o desenvolvimento do negro, destrói sua alma e sua capacidade de realização como ser humano.”
O que veio depois
O Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial passou a se chamar Movimento Negro Unificado. Em 4 de novembro de 1978, em assembleia nacional em Salvador, o movimento propôs o 20 de novembro como Dia Nacional da Consciência Negra, segundo Milton Barbosa. A intelectual Lélia Gonzalez esteve entre os fundadores; em ensaio de 1984, ela cita a militância no MNU como “fator determinante” do próprio trabalho (Gonzalez, 1984, PDF p. 4, pela ficha do cofre).
O MNU criou núcleos em associações, sindicatos e universidades. Em 1984, o governo Franco Montoro, em São Paulo, criou o Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra, apresentado pela CUT, com informação da Fundação Palmares, como resultado dessa pressão. O 7 de julho passou a ser lembrado como Dia Nacional de Combate ao Racismo.
O MNU levou demandas à Constituinte de 1987-1988, segundo os fundadores ouvidos pelo Brasil de Fato. Para Regina Lúcia Santos, militante desde 1996, os fundamentos da Lei nº 10.639, de 2003, sobre o ensino de história afro-brasileira, já estavam no primeiro programa de ação do movimento. Em 2018, nos 40 anos, a Câmara fez sessão solene; segundo a coordenadora Ieda Leal, o MNU estava em mais de 20 estados.
Relato escrito sobre as fontes listadas abaixo, conferidas em 28/10/2026.
Referências
Arquivo Nacional, Memórias Reveladas
Documentos oficiais
- Em plena ditadura, em 7 de julho de 1978, a população negra foi às ruas de São Paulo protestar contra o racismo e a violência estatal · Arquivo Nacional, Memórias Reveladas
Para ler mais
- Câmara homenageia o Movimento Negro Unificado (2018) · Agência Câmara
- Uma história oral do Movimento Negro Unificado por três de seus fundadores (05/04/2019) · Brasil de Fato
- 37 anos de luta contra o preconceito racial (com informação da Fundação Palmares, 07/07/2015) · CUT
- O MNU e o fortalecimento do sujeito político negro no Brasil (Herlon Miguel) · Le Monde Diplomatique Brasil
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