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República / marcos / a ditadura militar

A ditadura militar (1964–1985) · trabalho e Previdência

Lula e a greve de Vila Euclides

13 de março de 1979 · governo de Ernesto Geisel

O estádio Primeiro de Maio, em São Bernardo do Campo, o estádio de Vila Euclides das assembleias de 1979; foto de 16 de abril de 2022Antônio Lucarelli, 2022 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

Em 13 de março de 1979, os metalúrgicos do ABC paulista entraram em greve geral e, com o sindicato cercado, fizeram suas assembleias no estádio de Vila Euclides, em São Bernardo, com 60 mil a 80 mil pessoas, falando por um megafone o presidente do sindicato, Luiz Inácio da Silva, o Lula. A intervenção do Ministério do Trabalho não quebrou o movimento, e dele saíram o Partido dos Trabalhadores, fundado em fevereiro de 1980, e a liderança política que a prisão de 1980 e o processo na Lei de Segurança Nacional não desfizeram.

O que havia antes

Luiz Inácio da Silva, torneiro mecânico, entrou no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema em 1967, por indicação do irmão, frei Chico; foi suplente na chapa de 1969, primeiro-secretário em 1972 e, em 1975, indicado por Paulo Vidal, foi eleito presidente, reeleito em 1978 (FGV CPDOC, DHBB, verbete “Luís Inácio da Silva”).

Em 1977, a Folha de S.Paulo divulgou um relatório do Banco Mundial mostrando que o governo manipulara o índice de inflação de 1973; os metalúrgicos passaram a reclamar os 34,1% de reposição. Em 12 de maio de 1978, os operários da Saab-Scania, em São Bernardo, bateram o ponto e não ligaram as máquinas: foi a primeira greve do ciclo do fim da ditadura, que o sindicato não convocou mas negociou, e que chegou a cerca de 150 mil metalúrgicos no estado (DHBB; ver o marco da greve da Scania).

Sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo; foto de 2025

Sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo; foto de 2025Marcos Elias de Oliveira Júnior, 2025 · Wikimedia Commons · CC0

O que aconteceu

Em 13 de março de 1979, os metalúrgicos de São Bernardo, Diadema, Santo André e São Caetano entraram em greve geral, a primeira de uma categoria no país desde Contagem, em 1968, pedindo 78,1% de reajuste. Com o sindicato cercado, as assembleias foram para o estádio de Vila Euclides, em São Bernardo: cerca de 60 mil trabalhadores na primeira e 80 mil no domingo, 18 de março, quando decidiram manter a paralisação. Lula falava de cima de uma mesa de escritório, com um megafone: “Que ninguém, nunca mais, ouse duvidar da capacidade de luta dos trabalhadores” (Fundação Perseu Abramo, 2020).

A Delegacia Regional do Trabalho declarou a greve ilegal e a Polícia Militar entrou com tropa de choque, cavalaria e cães (Memorial da Democracia). Em 23 de março, o ministro do Trabalho, Murilo Macedo, decretou intervenção nos três sindicatos do ABC e destituiu as diretorias. Quatro dias depois, Lula propôs à assembleia uma trégua de 45 dias, aceita; em 13 de maio, nova assembleia em Vila Euclides aprovou o reajuste de 63%, a intervenção foi suspensa e a diretoria eleita reassumiu o sindicato em 18 de maio. O DHBB conta cerca de 15 dias de greve e assembleias de cerca de 80 mil pessoas; a Perseu Abramo fala em 200 mil participantes, o Memorial da Democracia em 180 mil.

A greve fez do presidente de um sindicato do ABC a figura central da oposição operária à ditadura. Em 14 de outubro de 1979, em São Bernardo, formou-se a comissão nacional provisória do Partido dos Trabalhadores; o manifesto de lançamento foi lido em 10 de janeiro de 1980 e assinado no Colégio Sion, em São Paulo, na reunião de 10 de fevereiro de 1980, data que o partido adota como a da fundação; o pedido de registro provisório ao TSE é de 22 de outubro de 1980 (DHBB; Fundação Perseu Abramo; PT). O manifesto declarava o partido “nascido da vontade de independência política dos trabalhadores”.

“Que ninguém, nunca mais, ouse duvidar da capacidade de luta dos trabalhadores.”

Luiz Inácio da Silva, no estádio de Vila Euclides, segundo a Fundação Perseu AbramoHá 41 anos: a grande greve dos trabalhadores do ABC (Fundação Perseu Abramo, 13/03/2020), 1979-03a fonte

O que veio depois

A greve seguinte, iniciada em 1º de abril de 1980, durou 41 dias, com 300 mil metalúrgicos parados no estado e o Primeiro de Maio reunindo 80 mil pessoas em Vila Euclides. No 17º dia, o ministro Murilo Macedo interveio de novo nos sindicatos e afastou 42 dirigentes; em 19 de abril, Lula foi preso em casa e indiciado na Lei de Segurança Nacional com outros dez dirigentes, e ficou oito dias incomunicável no Dops. Em 11 de maio, a categoria suspendeu a greve; em 20 de maio, o juiz da Auditoria Militar revogou as prisões (Memorial da Democracia; Fundação Perseu Abramo).

Em 25 de fevereiro de 1981, a 2ª Auditoria Militar de São Paulo condenou Lula e os dirigentes, à revelia, a penas de dois a três anos e seis meses; a condenação foi confirmada em novembro de 1981. Em 16 de abril de 1982, o Superior Tribunal Militar anulou o processo por 9 votos a 3 e o remeteu à Justiça Federal, sob a Lei de Greve, onde prescreveu (Fundação Perseu Abramo); o DHBB resume o desfecho como absolvição pelo STM e diz que o processo o afastou em definitivo da presidência do sindicato.

Em 1982, Lula foi candidato ao governo de São Paulo pelo PT e teve 1.144.648 votos, a quarta votação; o partido, em todo o país, obteve 1.589.645 votos nas eleições para governador e elegeu 12 deputados estaduais, sem governador (DHBB, verbetes “Luís Inácio da Silva” e “Partido dos Trabalhadores”). Os sindicalistas do ciclo de 1978-1980 fundariam a Central Única dos Trabalhadores em 1983 (Memorial da Democracia). Lula seria eleito deputado federal constituinte em 1986, o mais votado do país, e presidente da República em 2002, 2006, 2022 e 2026.

Relato escrito sobre as fontes listadas abaixo, conferidas em 29/10/2026.

Na República

Referências

FGV CPDOC, DHBB, verbete “Luís Inácio da Silva”

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