Elenco do Teatro Experimental do Negro, Rio de Janeiro, 30 de março de 1947autor desconhecido (Fundo Correio da Manhã), 1947 · Arquivo Nacional, Fundo Correio da Manhã (BR_RJANRIO_PH_0_FOT_01023_0007), via Wikimedia Commons · Public domain
Em 13 de outubro de 1944, no Rio de Janeiro, Abdias Nascimento fundou o Teatro Experimental do Negro, que alfabetizava e formava atores recrutados entre operários e empregadas domésticas. Em 8 de maio de 1945, o grupo estreou no Theatro Municipal com O imperador Jones, de Eugene O’Neill, com Aguinaldo Camargo no papel-título. O jornal Quilombo (1948–1950), a Convenção Nacional do Negro e o 1º Congresso do Negro Brasileiro saíram do mesmo grupo.
- 1 noitede palco no Municipal cedida ao TEN para a estreia
- 10edições do jornal Quilombo, de dezembro de 1948 a julho de 1950
- 24 anosde atuação, de 1944 a 1968, pela cronologia do Ipeafro
- 97 anosidade de Abdias Nascimento ao morrer, em 2011
O que havia antes
Em 1941, numa viagem a Lima, Abdias Nascimento assistiu a O imperador Jones, de Eugene O’Neill, com o protagonista negro feito por um ator branco de rosto pintado. O próprio O’Neill, em carta de 6 de dezembro de 1944 ao TEN, admitiu que os papéis de peso eram sempre feitos por “blacked-up white actors”. No Brasil, atores negros recebiam papéis secundários ou estereotipados (Ministério da Igualdade Racial; Ipeafro).
A Frente Negra Brasileira, de que Abdias participara nos anos 1930, tinha sido dissolvida pelo Estado Novo em 1937. Preso no Carandiru depois de protestar contra a ditadura de Vargas, Abdias fundou ali o Teatro do Sentenciado e um jornal dos presos (Memórias Reveladas, Arquivo Nacional).

Teatro Experimental do Negro ensaiando Sortilégio, com Abdias Nascimento e Léa Garcia, agosto de 1957autor desconhecido (Fundo Correio da Manhã), 1957 · Arquivo Nacional, via Wikimedia Commons · Public domain
O que aconteceu
Em 13 de outubro de 1944, no Rio de Janeiro, Abdias Nascimento fundou o Teatro Experimental do Negro, com Aguinaldo Camargo, o pintor Wilson Tibério, Teodorico dos Santos e José Herbel; a primeira reunião foi num café da Cinelândia (Ipeafro). O grupo recrutava o elenco entre operários, empregadas domésticas e pessoas sem profissão definida e dava cursos de alfabetização e de cultura geral nas salas do restaurante da UNE, na Praia do Flamengo. Abdias explicou: “Queríamos gente sem qualquer tarimba, pois tarimba de negro no teatro se restringia ao rebolado ou às palhaçadas.”
Em 8 de maio de 1945, o TEN estreou no Theatro Municipal do Rio com O imperador Jones, de O’Neill, que cedera os direitos sem cobrança. Aguinaldo de Oliveira Camargo, advogado, fez Brutus Jones na sua primeira vez como ator; os cenários eram de Enrico Bianco e a tradução de Ricardo Werneck de Aguiar. O palco do Municipal foi cedido por uma única noite, por intervenção direta do presidente Getúlio Vargas (Ipeafro).
A crítica, que cercara a estreia de pessimismo, rendeu-se: Henrique Pongetti escreveu em O Globo que “os negros do Brasil – e os brancos também – possuem agora um grande astro dramático”, e R. Magalhães Júnior elogiou a “direção firme e segura”. Seguiram-se Todos os filhos de Deus têm asas (1946), O filho pródigo, de Lúcio Cardoso, o primeiro texto escrito para o TEN, Aruanda, de Joaquim Ribeiro, e Sortilégio, do próprio Abdias (Fundação Cultural Palmares; Ipeafro).
“Os negros do Brasil – e os brancos também – possuem agora um grande astro dramático: Aguinaldo de Oliveira Camargo.”
O que veio depois
O TEN foi mais que um palco. Organizou a Convenção Nacional do Negro Brasileiro (São Paulo, 1945; Rio, 1946), cujo Manifesto à Nação Brasileira pedia que a nova Constituição definisse o racismo como crime de lesa-pátria; apresentada pelo senador Hamilton Nogueira, a proposta foi rejeitada pela Constituinte de 1946, sob o argumento de que não havia provas de discriminação (Ipeafro). Em 1950, promoveu o 1º Congresso do Negro Brasileiro.
Entre dezembro de 1948 e julho de 1950, o grupo publicou dez edições do jornal Quilombo, com o subtítulo “Vida, problemas e aspirações do negro”, artigo de Nelson Rodrigues na capa do primeiro número e a coluna “Fala a Mulher”, de Maria de Lourdes Valle do Nascimento (Radioagência Nacional; Ipeafro). O jornal abriu espaço a candidatos negros de todos os partidos e saudou a Lei Afonso Arinos, de 1951, como vitória da luta negra (Memorial da Democracia).
Pelo Ipeafro, o TEN atuou no Rio até 1968, quando Abdias, depois da primeira exposição do Museu de Arte Negra, permaneceu no exterior por causa da repressão política; a Palmares dá o fim do grupo em 1961, por dificuldades financeiras. Dele saíram Ruth de Souza e Haroldo Costa (Palmares). Abdias voltou em 1978, foi deputado federal pelo PDT em 1983 e senador em 1997; morreu em 23 de maio de 2011, aos 97 anos (Memórias Reveladas).

Ruth de Souza, primeira atriz do TEN, com Carlos Zara, Nieta Junqueira, Nydia Lícia e Wanda Kosmo na peça Vestido de Noiva, julho de 1958autor desconhecido (Fundo Correio da Manhã), 1958 · Arquivo Nacional, via Wikimedia Commons · Public domain
Relato escrito sobre as fontes listadas abaixo, conferidas em 29/10/2026.
Na República
Referências
Ipeafro, “76 anos do Teatro Experimental do Negro”
Documentos oficiais
- Teatro Experimental do Negro (TEN) · Fundação Cultural Palmares
- Há 82 anos, o Teatro Experimental do Negro entrava em cena · Ministério da Igualdade Racial
- Conheça Abdias Nascimento, um dos pioneiros do movimento antirracista brasileiro · Memórias Reveladas (Arquivo Nacional)
Para ler mais
- 76 anos do Teatro Experimental do Negro (TEN) · Ipeafro
- Há 74 anos, o TEN fazia sua estreia no Municipal do Rio de Janeiro · Ipeafro
- Seção TEN (acervo Ipeafro) · Ipeafro
- Podcast ep. 2: Abdias Nascimento e o jornal Quilombo · Radioagência Nacional (EBC)
- Lei Afonso Arinos punirá racismo · Memorial da Democracia
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