Carolina Maria de Jesus (à esquerda), sorridente, no ano do lançamento de “Quarto de despejo”, 1960Autor não identificado, 1960 · Arquivo Nacional, fundo Correio da Manhã (via Wikimedia Commons) · domínio público
Em 19 de agosto de 1960, Carolina Maria de Jesus, catadora de papel da favela do Canindé, em São Paulo, lançou pela Francisco Alves Quarto de despejo, o diário que manteve de 1955 a 1960, editado pelo repórter Audálio Dantas. O livro foi sucesso de vendas e foi traduzido para mais de uma dezena de línguas.
- 13 ou 14idiomas das traduções (CMSP; Perpétua)
- 70 milexemplares vendidos (CMSP)
- 30 milexemplares previstos para a terceira edição (Casa de alvenaria)
- cerca de 20cadernos de onde saiu o livro (Dantas)
O que havia antes
Carolina Maria de Jesus nasceu em 1914, em Sacramento, Minas Gerais, e vivia com os três filhos num barraco do Canindé, na zona norte de São Paulo. Escrevia em cadernos achados no lixo. O repórter Audálio Dantas conheceu o diário na favela; a reportagem “Retrato da favela no Diário da Carolina” saiu em O Cruzeiro em 10 de junho de 1959, e o diário registra o episódio (Jesus, 1960).
Ela escrevia para ser lida. No diário, anotou: “Quem vai ler isto é o senhor Audálio Dantas, que vai publicá-lo”. Dantas cortou e selecionou trechos de “uns vinte cadernos encardidos”, como ele mesmo diz na apresentação, e levou o livro à Francisco Alves (Jesus, 1960).

Carolina Maria de Jesus assina exemplares de “Quarto de despejo”, 1960Arquivo Nacional, 1960 · Arquivo Nacional (via Wikimedia Commons) · domínio público
O que aconteceu
O lançamento foi em 19 de agosto de 1960, na Livraria Francisco Alves, em São Paulo. Carolina registrou o dia num caderno, publicado pelo IMS: foi de ônibus, autografou de manhã, voltou à favela para buscar os filhos e, à tarde, encontrou a livraria cheia. Autografou um exemplar para o político Adhemar de Barros.
O livro reúne entradas de julho de 1955 e de maio de 1958 a 1º de janeiro de 1960. A favela aparece como o lugar onde a cidade joga o que descarta, e a fome como critério para julgar quem governa (Jesus, 1960). O título vem da imagem que ela usa: a favela é o quarto de despejo de São Paulo.
“Eu era o alvo dos olhares.”
O que veio depois
Em julho de 1960, antes do lançamento, Dantas já previa segunda edição de 10 mil e terceira de 30 mil exemplares, segundo o diário seguinte de Carolina, Casa de alvenaria, citado na tese de Elzira Perpétua. A Câmara Municipal de São Paulo fala em 70 mil exemplares vendidos e em 13 idiomas; Perpétua, em traduções para 14 idiomas.
Depois da repercussão, Carolina deixou a favela, mas caiu no esquecimento e voltou a catar papel, segundo a Câmara Municipal. Morreu em 1977. Os cadernos estão em parte no Arquivo Público Municipal de Sacramento e em parte no Instituto Moreira Salles, que em 2021 preparou a exposição Um Brasil para os brasileiros.

Carolina Maria de Jesus autografa “Quarto de despejo”, 30 de agosto de 1960Autor não identificado, 1960 · Arquivo Nacional, fundo Correio da Manhã (via Wikimedia Commons) · domínio público

Carolina Maria de Jesus diante de um avião da Air FranceAutor não identificado · Arquivo Nacional, fundo Correio da Manhã (via Wikimedia Commons) · domínio público
Relato escrito sobre as fontes listadas abaixo, conferidas em 28/10/2026.
Referências
Para ler mais
- O aniversário de Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus · Instituto Moreira Salles
- Traços de Carolina Maria de Jesus: gênese, tradução e recepção de Quarto de despejo (tese, Elzira Divina Perpétua, UFMG, 2000) · Instituto Moreira Salles
- Carolina Maria de Jesus, negritude e resistência · Câmara Municipal de São Paulo
- Artigo sobre as traduções de Quarto de despejo · Belas Infiéis, UnB
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