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A República de 1946 (1945–1964) · território

O Parque Nacional do Xingu

14 de abril de 1961 · governo de Jânio Quadros

Cláudio e Orlando Villas-Bôas na Expedição Roncador-Xingu, 1948autor desconhecido (Fundo Correio da Manhã), 1948 · Arquivo Nacional, Fundo Correio da Manhã (BR_RJANRIO_PH_0_FOT_12084_009), via Wikimedia Commons · Public domain

Em 14 de abril de 1961, o presidente Jânio Quadros assinou o Decreto nº 50.455, que criou no Mato Grosso o Parque Nacional do Xingu, “subordinado diretamente à Presidência da República”, com área aproximada de 22.000 km² no vale do rio Xingu. O decreto o concebe como reserva florestal e campo de estudo das riquezas naturais, “preservando-o para as gerações futuras”, e manda respeitar as terras indígenas para preservar os povos que ali vivem. Foi o resultado de quinze anos de presença dos irmãos Villas-Bôas no alto Xingu, desde a expedição Roncador-Xingu, e tornou-se, nas palavras do Instituto Socioambiental, “a primeira grande Terra Indígena demarcada pelo governo federal”.

O que havia antes

A Fundação Brasil Central, criada em 1942 pela Marcha para o Oeste do Estado Novo, começou a abrir estradas e acampamentos no alto Xingu. Em 1946, os Kamaiurá passaram a ter contato regular com a expedição Roncador-Xingu, “liderada pelos irmãos Villas-Bôas” (ISA, Povos Indígenas no Brasil, verbete Kamaiurá). O contato com a região remontava à expedição de Karl von den Steinen, em 1884, mas as visitas haviam sido intermitentes.

Os irmãos sertanistas Orlando, Cláudio e Leonardo Villas-Bôas fizeram incursões pela região ao longo dos anos 1950 e foram “os principais incentivadores da demarcação” (ISA, Blog do Xingu, 2018). A demarcação do território foi idealizada, entre outros, pelo antropólogo Darcy Ribeiro, pelos irmãos Villas-Bôas e pelo marechal Rondon (Agência Brasil, 2017).

Noel Nutels, Orlando e Cláudio Villas-Bôas, sem data

Noel Nutels, Orlando e Cláudio Villas-Bôas, sem dataautor desconhecido (Fundo Correio da Manhã) · Arquivo Nacional, via Wikimedia Commons · Public domain

O que aconteceu

Em 14 de abril de 1961, Jânio Quadros e treze ministros assinaram o Decreto nº 50.455, “Cria o Parque Nacional de Xingu”, publicado no mesmo dia no Diário Oficial. O art. 1º cria o parque no Estado de Mato Grosso, “subordinado diretamente à Presidência da República”. O art. 2º desenha o polígono, de cerca de 22.000 km², entre o paralelo 10° Sul, ao norte, e a confluência dos rios Culiseu e Kuluene, ao sul, com referência à Carta Internacional ao Milionésimo do IBGE de 1959.

Os considerandos falam em preservar a área como reserva florestal e campo de estudo das riquezas naturais, “preservando-o para as gerações futuras”. O art. 4º determina o respeito às terras indígenas, para preservar as populações que ali vivem, e dá ao Serviço de Proteção aos Índios a supervisão da assistência aos silvícolas. O art. 7º sujeita terras, flora e fauna ao Código Florestal; o art. 8º faz o administrador ser designado pelo presidente, de lista tríplice, demissível ad nutum; o art. 9º manda relatório trimestral à Fundação Brasil Central e ao diretor do SPI.

A área criada foi bem menor que a pretendida no primeiro projeto, levado ao Congresso no início dos anos 1950; o Blog do Xingu do ISA resume que o parque foi “homologado em 1961 com o nome de Parque Nacional do Xingu”, para proteger um complexo cultural e uma região ecologicamente estratégica.

“Fica criado, no Estado de Mato Grosso, o Parque Nacional do Xingu, subordinado diretamente à Presidência da República.”

Decreto nº 50.455, art. 1ºDecreto nº 50.455, de 14 de abril de 1961, 14/04/1961a fonte

O que veio depois

A Lei nº 5.371, de 5 de dezembro de 1967, que criou a Funai, extinguiu em seu art. 6º o Serviço de Proteção aos Índios, o Conselho Nacional de Proteção aos Índios e “o Parque Nacional do Xingu (PNX)” como entidade autônoma; o parque passou à Funai e ao nome de Parque Indígena do Xingu (ISA, acervo, 2023). Hoje tem cerca de 2,7 milhões de hectares no norte de Mato Grosso (Agência Brasil, 2017); com três terras adjacentes, o Território Indígena do Xingu soma 2,8 milhões de hectares, 16 povos e cerca de oito mil pessoas (ISA, 2018).

Em 16 de agosto de 2017, o Supremo Tribunal Federal decidiu por 7 a 0, com relatoria de Marco Aurélio Mello, que toda a área do parque é de “ocupação imemorial e contínua por povos originários”, e negou ao Estado de Mato Grosso indenização pela criação da reserva, numa ação aberta havia mais de trinta anos (Agência Brasil, 2017). O ministro Luís Roberto Barroso observou que o marco temporal não se aplicava, porque a demarcação era muito anterior a 1988.

Nos trinta anos anteriores a 2018, segundo o ISA, 66% das florestas do entorno do território foram derrubadas e substituídas por monoculturas; a ferrovia Ferrogrão (EF-170) e lotes da BR-242, a cerca de 12 km da fronteira sul, ameaçam os rios formadores do Xingu.

Aldeia Ipatse, dos Kuikuro, no Parque Indígena do Xingu (MT), 2007

Aldeia Ipatse, dos Kuikuro, no Parque Indígena do Xingu (MT), 2007Pedro Biondi/Agência Brasil, 2007 · Agência Brasil, via Wikimedia Commons · CC BY 3.0 BR

O Parque Indígena do Xingu visto do satélite MODIS: a mancha verde preservada no nordeste de Mato Grosso, 22 de maio de 2019

O Parque Indígena do Xingu visto do satélite MODIS: a mancha verde preservada no nordeste de Mato Grosso, 22 de maio de 2019MODIS Land Rapid Response Team, NASA GSFC, 2019 · NASA, via Wikimedia Commons · Public domain

Relato escrito sobre as fontes listadas abaixo, conferidas em 29/10/2026.

Na República

Referências

Câmara dos Deputados, Decreto nº 50.455/1961

Documentos oficiais

Dados

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