Cândido Mariano da Silva Rondon, coronel de engenharia, por volta de 1910, ano em que assumiu a direção do SPIautor desconhecido, 1910 · Wikimedia Commons (reproduzido de Todd A. Diacon, Stringing Together a Nation, 2004) · Public domain
O Decreto nº 8.072, de 20 de junho de 1910, assinado por Nilo Peçanha e pelo ministro da Agricultura Rodolfo Miranda, criou o Serviço de Proteção aos Índios e Localização de Trabalhadores Nacionais e aprovou seu regulamento. O órgão nasceu depois das denúncias de massacre de índios feitas no Congresso de Americanistas de Viena, em 1908, e das propostas do coronel positivista Cândido Rondon, que tomou posse como primeiro diretor em 7 de setembro de 1910. O regulamento manda garantir a posse das terras, impedir invasões, punir crimes e vedar o trabalho forçado; a política, porém, era a da integração, com o índio tratado como “relativamente incapaz” e tutelado pelo Estado. O SPI durou até 1967.
- 17incisos do art. 2º do regulamento, as tarefas do serviço
- 57 anosde existência, de 1910 a 1967
- mais de 100funcionários demitidos ou suspensos após a CPI do início dos anos 1960 (CPDOC)
- 2finalidades no art. 1º: proteger os índios e localizar trabalhadores nacionais
O que havia antes
A catequese missionária, resume o verbete do CPDOC, não impedira as invasões de terras nem o extermínio de tribos, pelo contágio de doenças ou pela matança dos bugreiros contratados por especuladores. A abertura da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, em São Paulo, atravessou o território Kaingang e abriu uma disputa armada; houve lutas em Minas, no Espírito Santo, em Santa Catarina e no Paraná (CPDOC, verbete SPI).
Em 1908, no XVI Congresso de Americanistas, em Viena, o Brasil foi denunciado por massacrar os índios, e a denúncia levou o governo a buscar “uma ação de proteção leiga e privativa do Estado” (CPDOC). Do outro lado, o coronel Cândido Mariano da Silva Rondon, à frente da Comissão de Linhas Telegráficas de Mato Grosso ao Amazonas (1907-1915), tivera contato pacífico com vários povos e propunha que o governo assumisse a tarefa de evitar o extermínio. Rondon chegou ao Rio em fevereiro de 1910, depois de quatro anos de sertão (CPDOC, verbete Rondon).

Marechal Rondon no pico da Pedra de Cucuí, São Gabriel da Cachoeira (AM), Comissão de Inspeção de Fronteiras, 1929-1930B. Rondon, 1929 · Arquivo Nacional, Fundo Ministério da Guerra, via Wikimedia Commons · Public domain
O que aconteceu
Em 20 de junho de 1910, o presidente Nilo Peçanha e o ministro da Agricultura, Indústria e Comércio, Rodolfo Nogueira da Rocha Miranda, assinaram o Decreto nº 8.072, que “crêa o Serviço de Protecção aos Indios e Localização de Trabalhadores Nacionaes e approva o respectivo regulamento”, publicado no Diário Oficial de 24 de junho. O art. 1º do regulamento dá ao serviço duas finalidades: prestar assistência aos índios, “quer vivam aldeiados, reunidos em tribus, em estado nomade ou promiscuamente com civilizados”, e criar centros agrícolas com trabalhadores nacionais em zonas férteis.
O art. 2º, em dezessete incisos, manda “velar pelos direitos que as leis vigentes conferem aos indios”, garantir a posse dos territórios que ocupam, “evitar que os civilizados invadam terras dos indios”, respeitar a organização interna das tribos, punir os crimes cometidos contra eles, impedir que sejam coagidos a trabalhar para particulares, fiscalizar os contratos de trabalho e oferecer ensino primário e profissional aos filhos de índios, sem obrigatoriedade e ouvidos os pais. O art. 3º autoriza acordos com estados e municípios para regularizar as posses e ceder terras devolutas.
A criação, diz o CPDOC, foi possível pelo apoio de Nilo Peçanha e de Rodolfo Miranda, apesar da oposição de membros do governo, sobretudo do ministro da Viação, J. J. Seabra. Rondon tomou posse como primeiro diretor em 7 de setembro de 1910, data tomada como a da fundação, e deu aos seus homens o lema “Morrer se preciso for, matar, nunca” (CPDOC, verbete Rondon).
“velar pelos direitos que as leis vigentes conferem aos indios”
O que veio depois
Rondon imprimiu ao órgão as ideias positivistas e a política de integração: o índio era reconhecido como “sujeito transitório”, enquanto se preparava para entrar na “civilização”, e a diversidade étnica, como um estágio a ser superado (CPDOC, verbete SPI). O Código Civil de 1917 pôs os índios entre os “relativamente incapazes”, ao lado dos maiores de 16 e menores de 21 anos, e coube ao Estado tutelá-los.
Em 6 de janeiro de 1918, o Decreto nº 3.454 separou as duas funções e o órgão passou a chamar-se apenas SPI. Passou pelos ministérios da Agricultura, do Trabalho, da Guerra (como parte da Inspetoria de Fronteiras) e do Interior; em 1939, ganhou ao lado o Conselho Nacional de Proteção aos Índios, presidido por Rondon. Instalou postos em áreas de colonização recente e negociou reservas com os governos estaduais, muitas vezes negadas (CPDOC, verbete SPI).
Com falta de recursos e de pessoal qualificado, o SPI acabou por gerar “resultados opostos a sua proposta”: fome, doenças, assassinatos e escravização eram denúncias frequentes. No início dos anos 1960, uma CPI o investigou por genocídio, corrupção e ineficiência, e mais de cem funcionários foram demitidos ou suspensos. Em 1956, aos 91 anos, Rondon apelou a Juscelino Kubitschek para salvar o órgão da “desmoralização” causada pela política partidária (CPDOC, verbete Rondon). Em 1967, depois do Relatório Figueiredo, o SPI foi extinto e substituído pela Funai.

Nilo Peçanha, presidente da República (1909-1910), que assinou o decreto de criação do SPI; foto oficial, c. 1909Governo do Brasil, 1909 · Wikimedia Commons · Public domain
Relato escrito sobre as fontes listadas abaixo, conferidas em 29/10/2026.
Na República
Referências
Câmara dos Deputados, Decreto nº 8.072/1910
Documentos oficiais
- Decreto nº 8.072, de 20 de junho de 1910 (publicação original) · Câmara dos Deputados (Legin)
- Decreto nº 8.072, de 20 de junho de 1910 (revogado pelo Decreto nº 11, de 1991) · Presidência da República
Para ler mais
- Serviço de Proteção aos Índios (SPI), verbete de Alzira Alves de Abreu · FGV CPDOC, Dicionário da Primeira República
- Cândido Mariano da Silva Rondon (verbete biográfico) · FGV CPDOC (DHBB)
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