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República

República / marcos / a primeira república

A Primeira República (1889–1930) · direitos

A Revolta da Chibata

22 de novembro de 1910 · governo de Hermes da Fonseca

João Cândido (à esquerda, de pé) com repórteres e oficiais a bordo do Minas Geraes, 26/11/1910autor desconhecido, 1910 · Wikimedia Commons · domínio público

Em 22 de novembro de 1910, marinheiros liderados por João Cândido Felisberto tomaram os maiores navios da Marinha na baía de Guanabara e exigiram o fim dos castigos físicos. O governo aboliu a chibata e prometeu anistia. Semanas depois, quase todos foram presos, mortos ou desterrados.

O que havia antes

Mais de vinte anos depois da abolição, a Marinha ainda punia marinheiros com a chibata. O código previa “vinte e cinco chibatadas, no mínimo” para faltas graves, segundo o Atlas Histórico do CPDOC. A maioria dos marinheiros era negra, anota a Agência Senado.

Em 16 de novembro de 1910, o marinheiro Marcelino Rodrigues Meneses recebeu 250 chibatadas diante de toda a tripulação do encouraçado Minas Gerais. O castigo antecipou um motim que já vinha sendo preparado. Hermes da Fonseca tinha tomado posse na Presidência seis dias antes, em 15 de novembro.

O convés principal do encouraçado Minas Geraes (c. 1910)

O convés principal do encouraçado Minas Geraes (c. 1910)Bain News Service · Wikimedia Commons (origem: Library of Congress) · domínio público

O que aconteceu

Na noite de 22 de novembro, os marinheiros tomaram o Minas Gerais. Seis oficiais foram mortos, entre eles o comandante Batista das Neves. Aderiram o encouraçado São Paulo, o Deodoro, o cruzador Bahia e quatro embarcações menores. A imprensa passou a chamar o líder, João Cândido Felisberto, de “Almirante Negro”.

O Correio da Manhã de 24 de novembro de 1910 noticia a revolta
O documento

O Correio da Manhã de 24 de novembro de 1910 noticia a revoltaautor desconhecido, 1910 · Wikimedia Commons · domínio público

Em 23 de novembro, os rebeldes mandaram um ultimato ao governo, com a ameaça de bombardear a capital em 12 horas. O texto foi redigido por Francisco Dias Martins, o “Mão Negra”, e atribuído a João Cândido. No dia 24, dispararam contra instalações da Marinha na Ilha das Cobras e contra o Palácio do Catete.

Em 25 de novembro, o ministro da Marinha, Joaquim Marques Batista Leão, mandou pôr os navios a pique. O Congresso, porém, aprovou a anistia, e o Decreto nº 2.280, de 25 de novembro, a concedeu. Em 26 de novembro, Hermes da Fonseca declarou abolidos os castigos físicos. Em 27, os marinheiros depuseram as armas e devolveram os navios.

“É concedida anistia post mortem a João Cândido Felisberto, líder da chamada Revolta da Chibata, e aos demais participantes do movimento, com o objetivo de restaurar o que lhes foi assegurado pelo Decreto nº 2.280, de 25 de novembro de 1910.”

Congresso NacionalLei nº 11.756, art. 1º, 2008-07a fonte

O que veio depois

Em 28 de novembro, marinheiros começaram a ser expulsos por indisciplina. Em 4 de dezembro, os fuzileiros navais da Ilha das Cobras se sublevaram e foram bombardeados o dia inteiro, mesmo depois de se renderem. Dos cerca de 600 revoltosos, pouco mais de 100 sobreviveram. Dezoito presos foram postos numa cela cavada na rocha; no dia seguinte, só dois estavam vivos, João Cândido e o soldado Pau de Lira.

Outros marinheiros foram embarcados à força para os seringais da Amazônia, e parte deles foi fuzilada no caminho, segundo o Atlas do CPDOC. Em abril de 1911, João Cândido foi internado no Hospital dos Alienados. Foi absolvido pela Justiça em 1º de dezembro de 1912 e expulso da Marinha. Morreu em 1969, aos 89 anos. Em 22 de janeiro de 1912, o filme “A vida de João Cândido” sofreu o primeiro ato de censura a um filme brasileiro, segundo o Arquivo Nacional.

A Lei nº 11.756, de julho de 2008, concedeu “anistia post mortem” a João Cândido e aos demais participantes, para restaurar o que lhes fora assegurado pelo decreto de 1910; o parágrafo sobre a reintegração à Marinha foi vetado. A inscrição de seu nome no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria (PL 4046/21) foi aprovada no Senado e em 2024 seguia em discussão na Câmara, sem consenso.

João Cândido entrega o comando do Minas Geraes ao capitão Pereira Leite, fim da revolta (1910)

João Cândido entrega o comando do Minas Geraes ao capitão Pereira Leite, fim da revolta (1910)autor desconhecido, 1910 · Wikimedia Commons · domínio público

João Cândido em 1963

João Cândido em 1963autor desconhecido, 1963 · Wikimedia Commons (origem: Arquivo Nacional) · domínio público

Relato escrito sobre as fontes listadas abaixo, conferidas em 28/10/2026.

Referências

FGV CPDOC, Atlas Histórico do Brasil, verbete “Revolta da Chibata”

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