João Cândido (à esquerda, de pé) com repórteres e oficiais a bordo do Minas Geraes, 26/11/1910autor desconhecido, 1910 · Wikimedia Commons · domínio público
Em 22 de novembro de 1910, marinheiros liderados por João Cândido Felisberto tomaram os maiores navios da Marinha na baía de Guanabara e exigiram o fim dos castigos físicos. O governo aboliu a chibata e prometeu anistia. Semanas depois, quase todos foram presos, mortos ou desterrados.
- 250chibatadas em Marcelino Rodrigues Meneses
- 4 + 4navios grandes e embarcações menores rebelados
- 12 horasprazo do ultimato
- cerca de 600revoltosos da Ilha das Cobras em dezembro
- 2 de 18presos vivos na cela de rocha no dia seguinte
O que havia antes
Mais de vinte anos depois da abolição, a Marinha ainda punia marinheiros com a chibata. O código previa “vinte e cinco chibatadas, no mínimo” para faltas graves, segundo o Atlas Histórico do CPDOC. A maioria dos marinheiros era negra, anota a Agência Senado.
Em 16 de novembro de 1910, o marinheiro Marcelino Rodrigues Meneses recebeu 250 chibatadas diante de toda a tripulação do encouraçado Minas Gerais. O castigo antecipou um motim que já vinha sendo preparado. Hermes da Fonseca tinha tomado posse na Presidência seis dias antes, em 15 de novembro.

O convés principal do encouraçado Minas Geraes (c. 1910)Bain News Service · Wikimedia Commons (origem: Library of Congress) · domínio público
O que aconteceu
Na noite de 22 de novembro, os marinheiros tomaram o Minas Gerais. Seis oficiais foram mortos, entre eles o comandante Batista das Neves. Aderiram o encouraçado São Paulo, o Deodoro, o cruzador Bahia e quatro embarcações menores. A imprensa passou a chamar o líder, João Cândido Felisberto, de “Almirante Negro”.

O Correio da Manhã de 24 de novembro de 1910 noticia a revoltaautor desconhecido, 1910 · Wikimedia Commons · domínio público
Em 23 de novembro, os rebeldes mandaram um ultimato ao governo, com a ameaça de bombardear a capital em 12 horas. O texto foi redigido por Francisco Dias Martins, o “Mão Negra”, e atribuído a João Cândido. No dia 24, dispararam contra instalações da Marinha na Ilha das Cobras e contra o Palácio do Catete.
Em 25 de novembro, o ministro da Marinha, Joaquim Marques Batista Leão, mandou pôr os navios a pique. O Congresso, porém, aprovou a anistia, e o Decreto nº 2.280, de 25 de novembro, a concedeu. Em 26 de novembro, Hermes da Fonseca declarou abolidos os castigos físicos. Em 27, os marinheiros depuseram as armas e devolveram os navios.
“É concedida anistia post mortem a João Cândido Felisberto, líder da chamada Revolta da Chibata, e aos demais participantes do movimento, com o objetivo de restaurar o que lhes foi assegurado pelo Decreto nº 2.280, de 25 de novembro de 1910.”
O que veio depois
Em 28 de novembro, marinheiros começaram a ser expulsos por indisciplina. Em 4 de dezembro, os fuzileiros navais da Ilha das Cobras se sublevaram e foram bombardeados o dia inteiro, mesmo depois de se renderem. Dos cerca de 600 revoltosos, pouco mais de 100 sobreviveram. Dezoito presos foram postos numa cela cavada na rocha; no dia seguinte, só dois estavam vivos, João Cândido e o soldado Pau de Lira.
Outros marinheiros foram embarcados à força para os seringais da Amazônia, e parte deles foi fuzilada no caminho, segundo o Atlas do CPDOC. Em abril de 1911, João Cândido foi internado no Hospital dos Alienados. Foi absolvido pela Justiça em 1º de dezembro de 1912 e expulso da Marinha. Morreu em 1969, aos 89 anos. Em 22 de janeiro de 1912, o filme “A vida de João Cândido” sofreu o primeiro ato de censura a um filme brasileiro, segundo o Arquivo Nacional.
A Lei nº 11.756, de julho de 2008, concedeu “anistia post mortem” a João Cândido e aos demais participantes, para restaurar o que lhes fora assegurado pelo decreto de 1910; o parágrafo sobre a reintegração à Marinha foi vetado. A inscrição de seu nome no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria (PL 4046/21) foi aprovada no Senado e em 2024 seguia em discussão na Câmara, sem consenso.

João Cândido entrega o comando do Minas Geraes ao capitão Pereira Leite, fim da revolta (1910)autor desconhecido, 1910 · Wikimedia Commons · domínio público

João Cândido em 1963autor desconhecido, 1963 · Wikimedia Commons (origem: Arquivo Nacional) · domínio público
Relato escrito sobre as fontes listadas abaixo, conferidas em 28/10/2026.
Referências
FGV CPDOC, Atlas Histórico do Brasil, verbete “Revolta da Chibata”
Documentos oficiais
- Cronologia da Primeira República (1889 a 1930) · Arquivo Nacional (MAPA)
- Os presidentes e a República: Deodoro da Fonseca a Luiz Inácio Lula da Silva (6ª ed., 2026) · Arquivo Nacional
- Lei nº 11.756/2008 — anistia post mortem a João Cândido · Presidência da República
Para ler mais
- Revolta da Chibata (verbete de Beatriz Coelho Silva) · FGV CPDOC, Atlas Histórico do Brasil
- Comissão vota inscrição de João Cândido e líderes indígenas no ‘Livro dos Heróis da Pátria’ (26/10/2021) · Agência Senado
- Comissão discute projeto que inclui líder da Revolta da Chibata no Livro dos Heróis da Pátria (24/4/2024) · Agência Câmara
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