Oficiais do Exército e da polícia do Paraná junto a um monoplano Morane-Saulnier em Porto União, na primeira campanha com aviação militar no Brasil, 1915Imprensa Militar, 1915., 1915 · Wikimedia Commons (Imprensa Militar) · domínio público
Entre 1912 e 1916, na região disputada por Paraná e Santa Catarina, sertanejos reunidos em torno do monge José Maria enfrentaram as polícias dos dois estados e o Exército. A guerra misturou messianismo, luta pela terra e reação à ferrovia de Percival Farquhar. Morreram, pelas estimativas, mais de 10 mil pessoas, a maioria civis.
- mais de 10 milmortos, segundo o Senado e Paulo Pinheiro Machado
- cerca de 20 milmortos, segundo o Arquivo Nacional
- 6 mil + 2 milsoldados e vaqueanos na campanha de Setembrino
- 25 milpessoas em Santa Maria, a maior “cidade santa”
- 28 de 48 mil km²da área disputada que ficaram com Santa Catarina
- 15 kmde cada lado da ferrovia, dados a Farquhar
O que havia antes
O planalto entre os rios Negro, Iguaçu e Uruguai era disputado por Paraná e Santa Catarina desde o Império. O Supremo Tribunal Federal deu ganho de causa aos catarinenses em 1904, mas o Paraná ignorou a sentença, segundo o Arquivo S do Senado. Na região viviam caboclos, posseiros e pequenos lavradores, muitos sem título de terra.
O grupo de Percival Farquhar construiu a Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande e recebeu do governo uma faixa de 15 km de cada lado dos trilhos. Ali instalou a Southern Brazil Lumber and Colonization Company, que desmatou os pinhais e vendeu terras a imigrantes. Famílias foram expulsas por milícias da empresa, com apoio das autoridades.
A região conhecia a tradição dos monges andarilhos: um João Maria em 1844, outro entre 1893 e 1895. Em 1912, o curandeiro José Maria reuniu seguidores perto de Curitibanos (SC) e anunciava uma “monarquia celestial”, com bens divididos em comum.

José Maria, o monge do Contestado, ao centro, antes de 1913Autor não identificado · Wikimedia Commons · domínio público
O que aconteceu
O superintendente de Curitibanos pediu tropas contra um “ajuntamento de fanáticos”. O grupo seguiu para Irani, área em litígio. O Paraná viu ali uma invasão catarinense e mandou o Regimento de Segurança. No combate de outubro de 1912 morreram 11 soldados, seis seguidores, o monge José Maria e o comandante paranaense, coronel João Gualberto Gomes de Sá.

Decreto de 1918 que concede anistia aos envolvidos nos movimentos do ContestadoGoverno do Brasil, 1918 · Wikimedia Commons · domínio público
Em 1913, em Taquaruçu, a menina Teodora, de 11 anos, dizia receber em sonho ordens de José Maria, que voltaria com o “Exército Encantado de São Sebastião”. Somaram-se posseiros expulsos, tropeiros sem trabalho, desempregados da ferrovia e ex-combatentes da Revolução Federalista. Em fevereiro de 1914, Taquaruçu foi bombardeada; morreram sobretudo mulheres, crianças e idosos.
O movimento cresceu e formou “cidades santas”. A maior, Santa Maria, chegou a cerca de 25 mil pessoas. Em setembro de 1914 veio a intervenção federal: o general Fernando Setembrino de Carvalho comandou cerca de 6 mil soldados e mais de 2 mil vaqueanos civis. O cerco trouxe fome e tifo. Santa Maria foi destruída na Páscoa de 1915.
“A revolta do Contestado é apenas uma insurreição de sertanejos espoliados nas suas terras, nos seus direitos e na sua segurança.”
O que veio depois
Os últimos combates foram em dezembro de 1915. Vaqueanos caçaram os líderes restantes, e muitos foram executados depois de rendidos. O último grande chefe, Adeodato Ramos, foi capturado na virada de julho para agosto de 1916. Em 20 de outubro de 1916, Paraná e Santa Catarina assinaram no Palácio do Catete o acordo de limites; os catarinenses ficaram com 28 mil dos 48 mil km² em disputa.
As estimativas de mortos variam. O Arquivo S do Senado e o historiador Paulo Pinheiro Machado falam em pelo menos ou mais de 10 mil; “Os presidentes e a República”, do Arquivo Nacional, em cerca de 20 mil. A guerra mobilizou mais de 7 mil soldados nos momentos mais intensos, cerca de metade do Exército, segundo o Senado.
Na época, a imprensa e quase todo o Congresso trataram os rebeldes como fanáticos e bandidos; o deputado Maurício de Lacerda chamou o Contestado de “um novo Canudos”. A partir dos anos 1970, os estudos passaram a ler o movimento também como revolta camponesa.

Infantaria da polícia marcha rumo à zona de combate, foto de Claro JanssonClaro Jansson/Acervo Dorothy Jansson Moretti, 1912 · Wikimedia Commons (acervo Dorothy Jansson Moretti) · CC BY-SA 4.0 — Creative Commons Attribution-Share Alike 4.0

“Fon-Fon! no Contestado”: oficiais em Canoinhas, na revista Fon-Fon, 1914-1915Autor não identificado, 1914 · Wikimedia Commons (revista Fon-Fon) · domínio público
Relato escrito sobre as fontes listadas abaixo, conferidas em 28/10/2026.
Referências
FGV CPDOC, Atlas Histórico do Brasil, verbete “Guerra do Contestado”
Documentos oficiais
- Cronologia da Primeira República (1889 a 1930) · Arquivo Nacional (MAPA)
- Os presidentes e a República: Deodoro da Fonseca a Luiz Inácio Lula da Silva (6ª ed., 2026) · Arquivo Nacional
Para ler mais
- Guerra do Contestado (verbete de Rogério Rosa Rodrigues) · FGV CPDOC, Atlas Histórico do Brasil
- Há 100 anos, o fim da sangrenta Guerra do Contestado (Tatiana Beltrão, 4/7/2016) · Agência Senado (Arquivo S)
- A aventura cabocla do Contestado: o conflito e seu desfecho (Paulo Pinheiro Machado, 2018) · Arquivo Nacional, “Que República é essa?”
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