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República

República / marcos / a primeira república

A Primeira República (1889–1930) · território

A Guerra do Contestado

1912 · governo de Hermes da Fonseca

Oficiais do Exército e da polícia do Paraná junto a um monoplano Morane-Saulnier em Porto União, na primeira campanha com aviação militar no Brasil, 1915Imprensa Militar, 1915., 1915 · Wikimedia Commons (Imprensa Militar) · domínio público

Entre 1912 e 1916, na região disputada por Paraná e Santa Catarina, sertanejos reunidos em torno do monge José Maria enfrentaram as polícias dos dois estados e o Exército. A guerra misturou messianismo, luta pela terra e reação à ferrovia de Percival Farquhar. Morreram, pelas estimativas, mais de 10 mil pessoas, a maioria civis.

O que havia antes

O planalto entre os rios Negro, Iguaçu e Uruguai era disputado por Paraná e Santa Catarina desde o Império. O Supremo Tribunal Federal deu ganho de causa aos catarinenses em 1904, mas o Paraná ignorou a sentença, segundo o Arquivo S do Senado. Na região viviam caboclos, posseiros e pequenos lavradores, muitos sem título de terra.

O grupo de Percival Farquhar construiu a Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande e recebeu do governo uma faixa de 15 km de cada lado dos trilhos. Ali instalou a Southern Brazil Lumber and Colonization Company, que desmatou os pinhais e vendeu terras a imigrantes. Famílias foram expulsas por milícias da empresa, com apoio das autoridades.

A região conhecia a tradição dos monges andarilhos: um João Maria em 1844, outro entre 1893 e 1895. Em 1912, o curandeiro José Maria reuniu seguidores perto de Curitibanos (SC) e anunciava uma “monarquia celestial”, com bens divididos em comum.

José Maria, o monge do Contestado, ao centro, antes de 1913

José Maria, o monge do Contestado, ao centro, antes de 1913Autor não identificado · Wikimedia Commons · domínio público

O que aconteceu

O superintendente de Curitibanos pediu tropas contra um “ajuntamento de fanáticos”. O grupo seguiu para Irani, área em litígio. O Paraná viu ali uma invasão catarinense e mandou o Regimento de Segurança. No combate de outubro de 1912 morreram 11 soldados, seis seguidores, o monge José Maria e o comandante paranaense, coronel João Gualberto Gomes de Sá.

Decreto de 1918 que concede anistia aos envolvidos nos movimentos do Contestado
O documento

Decreto de 1918 que concede anistia aos envolvidos nos movimentos do ContestadoGoverno do Brasil, 1918 · Wikimedia Commons · domínio público

Em 1913, em Taquaruçu, a menina Teodora, de 11 anos, dizia receber em sonho ordens de José Maria, que voltaria com o “Exército Encantado de São Sebastião”. Somaram-se posseiros expulsos, tropeiros sem trabalho, desempregados da ferrovia e ex-combatentes da Revolução Federalista. Em fevereiro de 1914, Taquaruçu foi bombardeada; morreram sobretudo mulheres, crianças e idosos.

O movimento cresceu e formou “cidades santas”. A maior, Santa Maria, chegou a cerca de 25 mil pessoas. Em setembro de 1914 veio a intervenção federal: o general Fernando Setembrino de Carvalho comandou cerca de 6 mil soldados e mais de 2 mil vaqueanos civis. O cerco trouxe fome e tifo. Santa Maria foi destruída na Páscoa de 1915.

“A revolta do Contestado é apenas uma insurreição de sertanejos espoliados nas suas terras, nos seus direitos e na sua segurança.”

Capitão Matos Costa, morto em combate em 1914Relato militar citado em “Há 100 anos, o fim da sangrenta Guerra do Contestado” (Arquivo S), 1914a fonte

O que veio depois

Os últimos combates foram em dezembro de 1915. Vaqueanos caçaram os líderes restantes, e muitos foram executados depois de rendidos. O último grande chefe, Adeodato Ramos, foi capturado na virada de julho para agosto de 1916. Em 20 de outubro de 1916, Paraná e Santa Catarina assinaram no Palácio do Catete o acordo de limites; os catarinenses ficaram com 28 mil dos 48 mil km² em disputa.

As estimativas de mortos variam. O Arquivo S do Senado e o historiador Paulo Pinheiro Machado falam em pelo menos ou mais de 10 mil; “Os presidentes e a República”, do Arquivo Nacional, em cerca de 20 mil. A guerra mobilizou mais de 7 mil soldados nos momentos mais intensos, cerca de metade do Exército, segundo o Senado.

Na época, a imprensa e quase todo o Congresso trataram os rebeldes como fanáticos e bandidos; o deputado Maurício de Lacerda chamou o Contestado de “um novo Canudos”. A partir dos anos 1970, os estudos passaram a ler o movimento também como revolta camponesa.

Infantaria da polícia marcha rumo à zona de combate, foto de Claro Jansson

Infantaria da polícia marcha rumo à zona de combate, foto de Claro JanssonClaro Jansson/Acervo Dorothy Jansson Moretti, 1912 · Wikimedia Commons (acervo Dorothy Jansson Moretti) · CC BY-SA 4.0 — Creative Commons Attribution-Share Alike 4.0

“Fon-Fon! no Contestado”: oficiais em Canoinhas, na revista Fon-Fon, 1914-1915

“Fon-Fon! no Contestado”: oficiais em Canoinhas, na revista Fon-Fon, 1914-1915Autor não identificado, 1914 · Wikimedia Commons (revista Fon-Fon) · domínio público

Relato escrito sobre as fontes listadas abaixo, conferidas em 28/10/2026.

Referências

FGV CPDOC, Atlas Histórico do Brasil, verbete “Guerra do Contestado”

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