Almirante apresenta o programa da Velha Guarda com Pixinguinha, Donga e João da Baiana, julho de 1956 (não é 1916)Autor não identificado, 1956 · Arquivo Nacional, fundo Correio da Manhã (via Wikimedia Commons) · domínio público
Em novembro de 1916, Donga registrou na Biblioteca Nacional a partitura de “Pelo telefone”, com a designação de samba. A gravação de 1917 fez sucesso no carnaval e passou a ser tida como o primeiro samba gravado. A autoria foi contestada desde então: a música teria nascido de improvisos coletivos na casa de tia Ciata.
- 3.295número do registro na Biblioteca Nacional
- 3gravações feitas pela Casa Edison em janeiro de 1917
- 21 diasentre o pedido e o registro
O que havia antes
No Rio do começo do século XX, músicos negros e baianos se reuniam na casa de tia Ciata, no bairro da Saúde, a chamada Pequena África. Ali o samba era criado em roda, em improvisos coletivos e sem dono. Antes de 1916, outras canções já tinham sido gravadas com a palavra “samba” no rótulo; para muitos analistas, todas soavam mais como maxixe.
Ernesto Joaquim Maria dos Santos, o Donga, nascido em 1889, frequentava essas rodas. A indústria fonográfica nascente, com a Casa Edison, começava a transformar canções em discos vendáveis, e a autoria passou a valer dinheiro.

Os Oito Batutas, conjunto de Pixinguinha e Donga, em 1921Autor não identificado, 1921 · Wikimedia Commons · domínio público
O que aconteceu
Em 6 de novembro de 1916, Donga entregou à Biblioteca Nacional o pedido de registro da partitura de “Pelo telephone”. Anexou um atestado de que o samba fora executado pela primeira vez em 25 de outubro de 1916, no Cine-Teatro Velho. O registro foi feito em 27 de novembro de 1916, com o número 3.295, segundo a revista “Arquivo em Cartaz” do Arquivo Nacional.
A primeira edição comercial da partitura chegou às lojas em 16 de dezembro de 1916. Em janeiro de 1917, a Casa Edison fez três gravações. A que ficou foi a do cantor Baiano, só com cavaquinho e violão, sucesso no carnaval daquele ano, segundo o historiador José Geraldo Vince de Moraes, da USP. O selo do disco trazia “samba carnavalesco”.
O jornalista Mauro de Almeida, o “Peru dos Pés Frios”, ganhou depois a coautoria da letra. A versão que circulava dizia “O chefe da polícia/ Pelo telefone/ Mandou avisar/ Que na Carioca/ Tem uma roleta/ Para se jogar”. No registro, Donga trocou “polícia” por “folia”.
“Donga anexou à petição um atestado que afirmava ter sido o samba Pelo telephone executado pela primeira vez em 25 de outubro de 1916 no Cine-Teatro Velho. O registro da obra foi efetuado pela Biblioteca Nacional em 27 de novembro de 1916, com o número 3.295.”
O que veio depois
O registro provocou protesto. Os frequentadores das rodas da Saúde reclamaram em versos: “É do bom Hilário/ E da velha Ciata/ Que o Sinhô escreveu” (Schwarcz e Starling, 2015, cap. 13). Para as autoras, Donga “assegurou direitos autorais sobre uma composição provavelmente de produção coletiva”. O refrão também vinha de uma canção folclórica.
Para Moraes, o gesto de Donga antecipou a figura do “compositor moderno”, que assina a obra para viver dela. A condição de primeiro samba gravado é disputada, e o samba urbano moderno só se firmaria nos anos 1930, com a turma do Estácio e Noel Rosa.
Em 2016, o centenário foi lembrado pela Rádio Senado e pelo Arquivo Nacional, que dedicou ao samba a segunda edição do festival “Arquivo em Cartaz”.

Donga em 1972Autor não identificado, 1972 · Arquivo Nacional, fundo Correio da Manhã (via Wikimedia Commons) · domínio público
Relato escrito sobre as fontes listadas abaixo, conferidas em 28/10/2026.
Referências
Agência Senado, centenário de “Pelo telefone” (2016)
Documentos oficiais
- Revista Arquivo em Cartaz (2016) · Arquivo Nacional
- Os presidentes e a República: Deodoro da Fonseca a Luiz Inácio Lula da Silva (6ª ed., 2026) · Arquivo Nacional
Para ler mais
- Centenário do samba ‘Pelo Telefone’ inspira radionovela da Rádio Senado (22/7/2016) · Agência Senado
- O centenário de “Pelo telefone” (José Geraldo Vince de Moraes, 27/8/2016) · Jornal da USP
- O samba faz a história (exposição virtual) · Arquivo Nacional
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