Multidão com bandeiras nas ruas de São Paulo durante a greve geral de 1917Autor não identificado, 1917 · Wikimedia Commons · domínio público
Em julho de 1917, mais de 50 mil trabalhadores pararam São Paulo e os municípios vizinhos contra a carestia e as jornadas longas. A greve começou no Cotonifício Crespi, na Mooca, e terminou com um acordo mediado pela imprensa, que prometia aumentos de cerca de 20%. Foi a primeira vez que o poder público negociou com grevistas, segundo o historiador Luigi Biondi.
- mais de 50 miltrabalhadores em greve
- 43.800grevistas no pico, em 16 de julho
- 25 milgrevistas em 90 estabelecimentos em 13 de julho
- 12empresários signatários do acordo
- cerca de 20%de aumento prometido
- 12 horasjornada mínima comum em 1917
O que havia antes
Em 1917 quase não havia direitos trabalhistas. Operários trabalhavam no mínimo 12 horas por dia, sem férias, aposentadoria ou descanso semanal, e as greves eram ilegais, mostram documentos do Arquivo do Senado. Mulheres e crianças faziam o mesmo trabalho por salários menores. A Primeira Guerra abriu mercado à indústria brasileira, e os preços subiram.
Em março de 1917, um Comitê Popular de Agitação lançou a campanha contra a “carestia da vida”. Em maio nasceram as ligas operárias do Belenzinho e da Mooca. Em 9 de junho, cerca de 400 operários do Cotonifício Crespi entraram em greve; em 29 de junho, os 1.500 da fábrica. Cerca de 75% deles eram imigrantes italianos.

Operários em greve no comício do Comitê de Defesa Proletária, 16 de julho de 1917Autor não identificado, 1917 · Wikimedia Commons · domínio público
O que aconteceu
A greve se espalhou: em 30 de junho, a fábrica Ipiranga, de Nami Jafet, com mais de 1.600 operários; em 7 de julho, a Antarctica. Em 9 de julho, criou-se o Comitê de Defesa Proletária, que unificou as reivindicações; dele fazia parte o libertário Edgard Leuenroth. Anarquistas e socialistas italianos e espanhóis tiveram papel de liderança.
Nos primeiros dias de julho, o jovem sapateiro espanhol José Gimenez Martinez foi baleado num confronto com a polícia no Brás e morreu. Seu enterro foi em 11 de julho. A partir dali a cidade parou: fábricas, comércio, bondes, escolas. Em 13 de julho, havia 25 mil grevistas em 90 estabelecimentos; na ladeira do Carmo, a cavalaria da Força Pública matou Nicola Salerno e Edoarda Bindo.
Não havia entidade patronal para negociar. Os diretores dos grandes jornais formaram uma comissão da imprensa e levaram as propostas a industriais e governo. O acordo foi assinado em 14 de julho por doze empresários, o primeiro deles Rodolfo Crespi, na redação de “O Estado de S. Paulo”. No dia 16, com os acordos lidos em comícios, a greve teve seu pico, de cerca de 43.800 grevistas.
“De qualquer forma, a greve de 1917 representou uma conquista histórica: foi a primeira vez que o poder público no Brasil negociou com os trabalhadores.”
O que veio depois
Os empresários prometeram aumento de cerca de 20%, não demitir grevistas e respeitar o direito de reunião; o governo, libertar os presos. A situação se normalizou no fim de julho. Em 26 de agosto, refundou-se a Federação Operária de São Paulo. Militantes como Teodoro Monicelli e Luigi Damiani foram condenados à expulsão do país.
Meses depois, os patrões começaram a recuar dos compromissos, diz Biondi. Greves gerais se repetiram até 1920, sem ganhos amplos, segundo o Arquivo Nacional. Leis trabalhistas viriam aos poucos: estabilidade em 1923, restrições ao trabalho infantil em 1927, segundo o Arquivo S do Senado.

Um orador fala aos operários durante a greve geral, julho de 1917Autor não identificado, 1917 · Wikimedia Commons · domínio público

O cortejo do enterro do sapateiro José Martinez, morto pela polícia, 11 de julho de 1917Autor não identificado, 1917 · Wikimedia Commons · domínio público

A polícia dispersa grevistas em São Paulo, julho de 1917Autor não identificado, 1917 · Wikimedia Commons · domínio público
Relato escrito sobre as fontes listadas abaixo, conferidas em 28/10/2026.
Referências
FGV CPDOC, Atlas Histórico do Brasil, verbete “Greve Geral de 1917”
Documentos oficiais
- Cronologia da Primeira República (1889 a 1930) · Arquivo Nacional (MAPA)
- Os presidentes e a República: Deodoro da Fonseca a Luiz Inácio Lula da Silva (6ª ed., 2026) · Arquivo Nacional
Para ler mais
- Greve Geral de 1917 (verbete de Luigi Biondi) · FGV CPDOC, Atlas Histórico do Brasil
- Há 100 anos, greve geral parou São Paulo (Ricardo Westin, 30/6/2017) · Agência Senado (Arquivo S)
- A greve geral de 1917 em São Paulo e a imigração italiana: novas perspectivas (Luigi Biondi, Cadernos AEL, v. 15, n. 27, 2009) · Unicamp, Arquivo Edgard Leuenroth
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