O prédio da rua Tutoia, 921, em São Paulo, onde funcionou o DOI-Codi do II Exército e hoje é o 36º Distrito Policial; foto de 2009FrancisW, 2009 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 3.0
Manoel Fiel Filho, prensista alagoano de 49 anos, foi tirado da fábrica Metal Arte, na Mooca, ao meio-dia de 16 de janeiro de 1976, e apareceu morto no dia seguinte no DOI-Codi do II Exército, em São Paulo: “enforcado com as próprias meias”, disse a nota oficial, a mesma versão dada três meses antes para Vladimir Herzog. O presidente Ernesto Geisel afastou o general Ednardo D’Ávila Melo do comando do II Exército em 20 de janeiro, sem consultar o ministro do Exército. A Justiça Federal responsabilizou a União em 1980, a Comissão Especial reconheceu o caso em 1996 e a CNV concluiu, por laudo pericial de 2014, que foi homicídio por estrangulamento.
- 25 horasentre a prisão, ao meio-dia de 16/1, e a hora da morte na nota oficial, 13h de 17/1
- 84 diasentre as mortes de Herzog e de Fiel Filho no mesmo DOI-Codi
- 3 diasentre a morte e o afastamento do comandante do II Exército
- 30 diasde duração do IPM que concluiu por suicídio
- 4 anosentre a morte e a sentença que responsabilizou a União (1980)
O que havia antes
Manoel Fiel Filho nasceu em Quebrangulo, Alagoas, em 7 de janeiro de 1927, e migrou para São Paulo nos anos 1950; foi padeiro e cobrador de ônibus antes de virar prensista na Metal Arte, na Mooca, onde trabalhava havia 19 anos. Casado com Thereza de Lourdes Martins Fiel, pai de duas filhas, distribuía o jornal clandestino “Voz Operária” e organizava o PCB entre os operários das fábricas do bairro (ficha da CNV).
Entre março de 1974 e janeiro de 1976, o DOI do II Exército conduziu a “Operação Radar”, para dizimar a direção do PCB; o jornalista Vladimir Herzog morrera ali em 25 de outubro de 1975, com a versão de suicídio por enforcamento, e o governador Paulo Egydio Martins já alertara Geisel sobre o descontrole da repressão paulista (ficha da CNV; verbete de Ednardo D’Ávila Melo no DHBB).
O comandante do II Exército desde janeiro de 1974, general Ednardo D’Ávila Melo, divergia abertamente da distensão: em março de 1975 chamara a abertura de “balela”, porque “a subversão continua presente” (DHBB).

Lápide de Manoel Fiel Filho no cemitério, em São Paulo, 15 de janeiro de 2016, às vésperas dos 40 anos da morteRovena Rosa/Agência Brasil, 2016 · Agência Brasil/EBC, via Wikimedia Commons · CC BY 3.0 br
O que aconteceu
Às 12 horas de 16 de janeiro de 1976, dois homens que se apresentaram como funcionários da prefeitura levaram Manoel da fábrica para o DOI-Codi, na rua Tomás Carvalhal; depois vasculharam a casa, acharam exemplares do jornal e disseram à mulher que ele seria solto no dia seguinte. Segundo a ficha da CNV, a prisão decorreu do interrogatório de outro preso sobre a “Voz Operária”.
No dia 17, uma nota do II Exército informou que Manoel fora encontrado morto às 13 horas, enforcado com as próprias meias, e que um inquérito policial militar seria aberto. Um agente levou o macacão e os documentos à casa da família: “Seu marido se suicidou”. Os colegas afirmaram que ele fora preso de chinelos, sem meias, e todos os presos da época contaram que cintos e meias eram recolhidos na entrada do DOI; liberado o corpo sob condição de enterro rápido, a família viu sinais de tortura (ficha da CNV; CUT).
O laudo necroscópico, dos médicos José Antônio de Mello e José Henrique da Fonseca, deu asfixia mecânica por estrangulamento e apontou suicídio sem registrar tortura; o IPM, concluído em 30 dias, foi arquivado, e o procurador militar e o juiz auditor confirmaram em abril e maio de 1976 a versão de suicídio. O preso Geraldo Castro da Silva depôs ter ouvido os gritos de Manoel no interrogatório e, depois do silêncio, alguém dizer: “chefe, o omelete está feito” (ficha da CNV).
A reação foi imediata: Geisel considerou a morte uma afronta à sua autoridade e à distensão e, em 20 de janeiro de 1976, afastou o general Ednardo do comando do II Exército, sem consultar o ministro do Exército, Sylvio Frota; também demitiu o chefe do CIE, Confúcio Danton de Paula Avelino. O general Ariel Pacca da Fonseca assumiu interinamente, e o titular, Dilermando Gomes Monteiro, quatro dias depois. Ednardo passou à reserva: “Infelizmente, vou para a história como um torturador” (DHBB; ficha da CNV).
“o diagnóstico diferencial do evento é de homicídio por estrangulamento, consumado em local e circunstâncias que não foram possíveis determinar”
O que veio depois
O sindicato dos metalúrgicos denunciou a farsa e pediu a Geisel a demissão do comandante; os detalhes vieram a público em 22 de janeiro, por Ricardo Kotscho, no “Estado de S. Paulo” (CUT). A morte não teve a comoção do caso Herzog, mas consolidou a imagem da tortura como rotina e, com a queda de Ednardo, abriu a crise entre Geisel e a linha-dura, que culminaria na demissão de Frota em outubro de 1977 (Correio Braziliense; DHBB).
Em 1978, Thereza Fiel, com a Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, processou a União; em 1980, o juiz federal Jorge Flaquer Scartezzini reconheceu a responsabilidade objetiva do Estado pela prisão, tortura e morte. Em 30 de maio de 1996, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos deferiu por unanimidade o pedido da viúva, nos termos da Lei 9.140. Em 2009, ação civil do MPF pediu o afastamento dos agentes envolvidos de funções públicas e o ressarcimento das indenizações (ficha da CNV).
Em setembro de 2014, laudo pericial indireto da CNV desconstruiu o autoestrangulamento: pela posição do corpo e pela impossibilidade de a vítima dar o nó após a constrição, “o diagnóstico diferencial do evento é de homicídio por estrangulamento”; o relatório concluiu que Manoel morreu “em decorrência de ação perpetrada por agentes do Estado” e recomendou a retificação da certidão de óbito, feita em 2025 na leva das certidões corrigidas pela Resolução 601/2024 do CNJ (TNH1). Nos 50 anos da morte, em janeiro de 2026, entidades e centrais sindicais lançaram em São Paulo a biografia “Carrascos da ditadura”, de Jorge Oliveira, e a Medalha Manoel Fiel Filho (Correio Braziliense).
Relato escrito sobre as fontes listadas abaixo, conferidas em 29/10/2026.
Na República
Referências
Comissão Nacional da Verdade, relatório, volume III (cópia)
Documentos oficiais
- Relatório da CNV, volume III — mortos e desaparecidos maio de 1974 a outubro de 1985, ficha “Manoel Fiel Filho” · Comissão Nacional da Verdade (cópia em marxists.org)
- Verbete “Melo, Ednardo D’Ávila” — DHBB · FGV CPDOC
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