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A República de 1946 (1945–1964) · violência e segurança

O massacre de Ipatinga

7 de outubro de 1963 · governo de João Goulart

Monumento 7 de Outubro, em Ipatinga (MG), em memória das vítimas do massacre de 1963; foto de 2016HVL, 2016 · Wikimedia Commons · CC BY 3.0

Na manhã de 7 de outubro de 1963, seis meses antes do golpe, a Polícia Militar de Minas Gerais disparou rajadas de metralhadora contra milhares de operários da Usiminas concentrados na porta da usina, em Ipatinga, então distrito de Coronel Fabriciano. A contagem oficial é de oito mortos, um deles a menina Eliane Martins, de três meses, e dezenas de feridos; testemunhas sempre falaram em muito mais. Os policiais foram julgados e absolvidos em 1965, já sob o regime militar. Em 2004, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos reconheceu a responsabilidade do Estado em cinco dos oito casos.

O que havia antes

A Usiminas foi construída no fim dos anos 1950, no Plano de Metas de Juscelino Kubitschek, ao lado de um distrito de 60 casas e 300 habitantes; com a usina, inaugurada em outubro de 1962, a população saltou para 10 mil pessoas, sem infraestrutura, e os operários viviam em alojamentos onde as camas eram compartilhadas por turno, com transporte em caminhões lotados e comida ruim. Também eram comuns os abusos dos vigilantes da empresa e da Polícia Militar que a servia (livro “Direito à memória e à verdade”, da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, 2007).

Na noite de 6 de outubro de 1963, na troca de turno, um operário foi retido e espancado por vigilantes e policiais; a notícia juntou gente, a PM mandou reforços e, de madrugada, cerca de 300 trabalhadores foram presos e maltratados nos alojamentos. Um acordo mediado pelo padre Avelino Marques previu a soltura dos presos e uma reunião no dia seguinte (textos de Marcelo Freitas no LEHMT/UFRJ e no Além do Fato; página de Eliane Martins no Memórias da Ditadura).

Minas era governada por Magalhães Pinto, que em abril seguinte estaria entre os articuladores do golpe. O episódio é anterior à ditadura, mas a Comissão da Verdade de Minas Gerais e o Memórias da Ditadura o tratam como o maior conflito operário da história do país e como peça do mesmo quadro de repressão a trabalhadores (reportagens do Brasil de Fato, 2019, e da Itatiaia, 2023).

Placa de inauguração do Monumento 7 de Outubro, Ipatinga (MG), 2016

Placa de inauguração do Monumento 7 de Outubro, Ipatinga (MG), 2016HVL, 2016 · Wikimedia Commons · CC BY 3.0

O que aconteceu

Na manhã de 7 de outubro, uma segunda-feira, os operários da Usiminas e das empreiteiras se recusaram a entrar na usina e se concentraram em um portão à beira da rodovia, pedindo a retirada da Polícia Militar. Enquanto a direção da empresa, o sindicato, a PM e o padre negociavam a saída da tropa, veio a ordem de atirar. Pela versão oficial reproduzida no livro da Comissão Especial, por volta das 10 horas uma pedra feriu um soldado e a PM abriu fogo contra a multidão, com metralhadoras.

O saldo oficial foi de oito mortos e 78 feridos, segundo o livro “Direito à memória e à verdade”; a Comissão da Verdade em Minas Gerais, cruzando a lista do inquérito policial militar com a do ambulatório da Usiminas, chegou a 92 feridos e três desaparecidos (Fábio Rodrigues de Souza, Gesulino França de Souza e João Flávio Neto), segundo a Assembleia de Minas e a Itatiaia. Entre os mortos estava Eliane Martins, de três meses, levada pela mãe para vacinar no ambulatório da empresa. O operário e fotógrafo José Isabel do Nascimento, autor das únicas imagens do momento anterior aos tiros, morreu dias depois no hospital.

A contagem sempre foi disputada. O padre Abdala dizia ter contado mais de 40 mortes; o sobrevivente Jurandir Persichini afirmou à Assembleia de Minas, em 2009, que “foram 44 mortos”; a empresa encomendou 32 caixões em Belo Horizonte dois dias depois, e um motorista relatou ter buscado 50 (reportagem do Brasil de Fato e notícias da ALMG). Marcelo Freitas, que assessorou a comissão mineira, considera que a cifra oficial de mortos está correta, porque nenhum outro familiar apareceu para pedir indenização ao Estado (Além do Fato, 2023).

Os policiais foram presos e levados a Belo Horizonte, e abriu-se inquérito policial militar. Depois do golpe de 1964, o julgamento terminou em absolvição de todos os réus, por excludente de ilicitude; as fontes divergem na data: 17 de setembro de 1965, segundo o Memórias da Ditadura, ou 10 de dezembro de 1965, segundo Marcelo Freitas. Os trabalhadores passaram a ser tratados como réus e “comunistas” (Brasil de Fato, 2021).

“a ação ou reação policial de disparar contra uma multidão desarmada não poderia ter outra consequência senão as várias mortes e inúmeros feridos”

Relatores da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (grafia atualizada)Direito à memória e à verdade, Secretaria Especial dos Direitos Humanos, 2007, p. 51, 29/08/2007a fonte

O que veio depois

O caso ficou em silêncio por décadas: segundo o pesquisador Vagner Bravos, houve um acordo entre o governo estadual e a elite local, com a emancipação de Ipatinga (1964) em troca do esquecimento, e falar do massacre era punido (Brasil de Fato, 2019). Só com a Lei nº 10.875, de 2004, que estendeu a Lei 9.140 às mortes em repressão a manifestações, cinco famílias pediram reconhecimento: a Comissão Especial deferiu por unanimidade, em outubro de 2004, os casos de Alvino Ferreira Felipe, Antônio José dos Reis, Geraldo da Rocha Gualberto, José Isabel do Nascimento e Sebastião Tomé da Silva; não houve pedido pelas mortes de Eliane Martins, Aides Dias de Carvalho e Gilson Miranda.

A Comissão da Verdade em Minas Gerais, criada em 2013, ouviu sobreviventes e recomendou monumento e ensino do episódio nas escolas; seu relatório final saiu em dezembro de 2017 (ALMG). A partir dele, em novembro de 2023 o Ministério Público Federal abriu inquérito civil para apurar se a Usiminas colaborou com violações de direitos humanos; a empresa respondeu que era estatal à época e que “os fatos ocorreram fora das dependências da empresa” (Itatiaia).

Em 2021, a websérie “Massacre de Ipatinga, versão dos autos”, de Nilmar Lage, expôs o inquérito 2.035 da corregedoria da PM e o processo (Brasil de Fato). A cada 7 de outubro, sindicatos e a prefeitura lembram a data, e o massacre segue sem punição.

Avenida Pedro Linhares Gomes com a usina da Usiminas ao fundo, Ipatinga (MG), 2011

Avenida Pedro Linhares Gomes com a usina da Usiminas ao fundo, Ipatinga (MG), 2011HVL, 2011 · Wikimedia Commons · CC BY 3.0

Relato escrito sobre as fontes listadas abaixo, conferidas em 29/10/2026.

Na República

Referências

Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, “Direito à memória e à verdade” (2007)

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