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República / marcos / a ditadura militar

A ditadura militar (1964–1985) · crises e escândalos

O caso Coroa-Brastel

27 de junho de 1983 · governo de João Figueiredo

Edifício-sede do Banco Central do Brasil, em Brasília, que decretou a intervenção na Coroa; foto de 2015Jonas Pereira/Agência Senado, 2015 · Agência Senado (Flickr), via Wikimedia Commons · CC BY 2.0

Em 27 de junho de 1983, o Banco Central interveio na Coroa S.A. Crédito, Financiamento e Investimento, financeira do grupo de Assis Paim Cunha, dono das lojas Brastel, que vendia letras de câmbio sem lastro a juros de até 250% ao ano. Cerca de 34 mil investidores ficaram sem o dinheiro. Paim acusou os ministros Delfim Netto e Ernane Galvêas e o presidente do BC, Carlos Langoni, de o terem forçado a comprar a corretora Laureano; denunciados ao STF, os três foram absolvidos em junho de 1994, segundo o CPDOC. Paim foi condenado em 1998 a oito anos e três meses de prisão por gestão fraudulenta.

O que havia antes

Assis Paim Cunha, nascido em Vassouras em 1928, montou a Brastel no começo dos anos 1970, da fusão das lojas Cobrás e Telegeo, e em dez anos tinha um dos maiores grupos do país: em 1983, o Coroa-Brastel era o 40º conglomerado privado nacional (História de Empresas, 2012). O braço financeiro reunia a Coroa Administração e Participações, a Coroa S.A. Crédito, Financiamento e Investimento, a Coroa Distribuidora de Títulos e Valores e, desde 1981, a Laureano Corretora. A financeira captava com letras de câmbio que pagavam até 250% ao ano, quando o mercado girava em torno de 150% (Eu Quero Investir, 2026).

Segundo Paim, a compra da Laureano, corretora com sérios problemas, foi imposta pelo governo em 1981. Para refinanciar as dívidas dela, o grupo obteve um “vultoso empréstimo na Caixa Econômica Federal”, que deveria reforçar o capital de giro da Brastel e foi usado para pagar a corretora (Folha de S.Paulo, 1/10/1998, citada por Brasil de Fato; Eu Quero Investir). Com a desconfiança do mercado, a Coroa passou a emitir letras sem lastro para cobrir o rombo. Em 1981, o Banco Central teria suspendido a fiscalização do grupo alegando “ordens de escalões superiores” (Diário do Grande ABC, 22/5/2000).

Antônio Delfim Netto em 1970, então ministro da Fazenda; Fundo Correio da Manhã

Antônio Delfim Netto em 1970, então ministro da Fazenda; Fundo Correio da Manhãautor desconhecido, 1970 · Arquivo Nacional, Fundo Correio da Manhã (BR_RJANRIO_PH_0_FOT_19029_002), via Wikimedia Commons · Public domain

O que aconteceu

Em 27 de junho de 1983, o Banco Central interveio na Coroa S.A. Crédito, Financiamento e Investimento; a liquidação extrajudicial do grupo veio no mesmo ano e se arrastou por mais de duas décadas (História de Empresas, citando a Veja de 12/10/1983; Eu Quero Investir). Cerca de 34 mil pequenos aplicadores de todo o país ficaram com letras de câmbio frias nas mãos; o prejuízo é estimado em R$ 250 milhões em valores atualizados. O verbete de Delfim Netto no CPDOC registra a quebra do conglomerado Coroa-Brastel, ao lado da do montepio Capemi, “no início do ano” de 1983.

Paim foi à imprensa acusar o governo. Em 8 de setembro de 1983, o senador Roberto Saturnino (PDT-RJ) comentou no plenário as “declarações prestadas à imprensa pelo senhor Assis Paim, a respeito da participação de autoridades do governo federal nas transações feitas pelo grupo Coroa-Brastel no mercado financeiro do país”. Em 22 de setembro, Humberto Lucena (PMDB-PB) encaminhou à Mesa projeto de resolução pedindo uma CPI sobre a intervenção do Banco Central e as acusações do presidente do grupo “contra autoridades da área econômica”.

Em julho de 1986, acusado de ter emitido “o equivalente a quinhentos milhões de dólares em letras de câmbio frias” a partir do Rio em 1983, Paim apresentou 28 fitas cassete e voltou a denunciar Delfim Netto, então ministro do Planejamento, Ernane Galvêas, ministro da Fazenda, e Carlos Langoni, ex-presidente do Banco Central (CPDOC, verbete Delfim Neto). Para ele, os três “obedeciam às determinações do general Golbery”; a Laureano tinha entre seus ativos interesses ligados ao filho do general (Folha, 1998).

“Encaminhamento à Mesa de projeto de resolução, solicitando a criação de comissão parlamentar de inquérito, destinada a investigar todos os fatos relacionados com a intervenção do Banco Central no grupo Coroa-Brastel, bem como as acusações feitas através da imprensa, pelo presidente daquele grupo, contra autoridades da área econômica.”

Ementa do discurso do senador Humberto Lucena (grafia atualizada)Pronunciamento de Humberto Lucena em 22/09/1983, Senado Federal, 22/09/1983a fonte

O que veio depois

Na Justiça, a denúncia contra Delfim e Galvêas foi encaminhada em março de 1985 pelo subprocurador-geral José Arnaldo da Fonseca; em outubro de 1988 o Ministério Público Federal denunciou ao STF Paim, Delfim e Galvêas pelo empréstimo da Caixa (Folha, 1/10/1998). Em novembro de 1986, Delfim fora eleito deputado constituinte com mais de 76 mil votos. Em junho de 1994, segundo o CPDOC, “o STF absolveu Delfim, Galveias e Langoni das acusações do caso”; outras fontes, não abertas, descrevem o desfecho como rejeição da denúncia, e a acusação contra Delfim, deputado, como não examinada.

Paim foi o único condenado: em 1998, quinze anos depois da quebra, o juiz federal Marcelo Bretas o sentenciou a oito anos e três meses de detenção em regime semiaberto por gestão fraudulenta de instituição financeira (Folha, 1/10/1998). Em entrevista ao Jornal do Brasil nos anos 1990, admitiu: “Pedir desculpas não vai reparar todo o mal que eu fiz”. Em 2000, aos 73 anos, vivia num hotel modesto no centro do Rio e dizia: “meu único crime foi acreditar no Governo”. Morreu falido em 22 de outubro de 2008.

Os investidores ficaram com a disputa sobre a culpa do fiscal. O TRF de Brasília condenou o Banco Central por falha de fiscalização; no STJ, em 2000, a 2ª Turma julgava um recurso empatado em 2 a 2 (Diário do Grande ABC), e em 2005 o tribunal decidiu que o BC não tinha de indenizar os investidores (O Globo, 13/4/2005). Em 25 de março de 2014, a 1ª Turma do STF manteve a condenação do BC a pagar à PEBB Corretora o valor nominal dos títulos, corrigido desde o vencimento, cerca de R$ 400 milhões, por rejeitar o recurso do banco como intempestivo; ainda cabia recurso (Agência Brasil).

Relato escrito sobre as fontes listadas abaixo, conferidas em 29/10/2026.

Na República

Referências

Senado Federal, pronunciamento de Humberto Lucena em 22/09/1983

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