O Palácio Itamaraty, no Rio, sede do ministério do barão do Rio Branco, que negociou o tratado (retrato dele no canto superior esquerdo)Núcleo de digitalização / IMS · Wikimedia Commons (origem: Instituto Moreira Salles) · domínio público
Em 17 de novembro de 1903, Brasil e Bolívia assinaram em Petrópolis um tratado de permuta de territórios. O Brasil ficou com o Acre, então ocupado por seringueiros brasileiros; em troca, pagou 2 milhões de libras esterlinas, cedeu terras em Mato Grosso e prometeu construir a ferrovia Madeira-Mamoré.
- 2 milhões de libraspagas à Bolívia pelo tratado
- 110 mil libraspagas ao Bolivian Syndicate pela desistência
- 191.000 km²recebidos pelo Brasil, pelo cálculo de Rio Branco
- 2.296 km²cedidos à Bolívia entre os rios Madeira e Abunã
- 60% / 40%partilha dos lucros entre a Bolívia e o Bolivian Syndicate
O que havia antes
Pelo Tratado de Ayacucho, de 1867, o Acre pertencia à Bolívia, e os governos do Império e da República o reconheciam assim. Mas no fim do século XIX a região estava ocupada por seringais de empresários de Manaus e Belém, com mão de obra nordestina e indígena. Os povos indígenas da área foram ignorados nas negociações entre os dois Estados, anota o verbete do CPDOC.
Em 1899, a Bolívia instalou a alfândega de Puerto Alonso. Em 14 de julho, o espanhol Luiz Galvez, financiado pelo governo do Amazonas, proclamou a República Independente do Acre. Ela durou oito meses: Galvez renunciou em 15 de março de 1900, diante de um navio militar enviado pelo governo federal para garantir os direitos bolivianos.
A Bolívia arrendou então o território ao Bolivian Syndicate, companhia de capitais anglo-americanos. O contrato daria 60% dos lucros ao governo boliviano e 40% aos arrendatários. A imprensa brasileira tratou o arrendamento como ameaça à soberania. Em 6 de agosto de 1902, o gaúcho Plácido de Castro tomou Xapuri e reiniciou a guerra; em janeiro de 1903, venceu a guarnição boliviana em Porto Acre.

Mapa do Território do Acre comprado da Bolívia, de Plácido de Castro e do barão do Rio Branco (1907)Plácido de Castro e Barão do Rio Branco, 1907 · Wikimedia Commons · domínio público
O que aconteceu
Em dezembro de 1902, o barão do Rio Branco assumiu o Ministério das Relações Exteriores do governo Rodrigues Alves. O Brasil pagou 110 mil libras esterlinas para o Bolivian Syndicate desistir do contrato, ocupou militarmente o Acre, declarado território em litígio em março de 1903, e assinou um acordo para congelar a situação durante as negociações.

“Mappa mostrando a nova fronteira norte entre o Brasil e a Bolívia”: o Acre transferido ao Brasil pelo Tratado de Petrópolis (1903)Plácido de Castro e Barão do Rio Branco, 1903 · Wikimedia Commons · domínio público
Rio Branco defendeu a negociação direta, e não o arbitramento, porque sucessivos governos haviam reconhecido o Acre como boliviano. Os negociadores brasileiros foram Rio Branco, o embaixador Assis Brasil e o senador Rui Barbosa. Rui se opôs a qualquer cessão de terra e renunciou ao posto em outubro de 1903. Pela Bolívia, negociaram Fernando Guachalla e Cláudio Pinilla.
O tratado foi assinado em 17 de novembro de 1903, em Petrópolis, onde Rio Branco morava. Previa a permuta de territórios, o pagamento de 2 milhões de libras esterlinas à Bolívia e a construção da ferrovia Madeira-Mamoré. Na exposição de motivos ao Congresso, Rio Branco calculou receber 191.000 km² e ceder 2.296 km² entre os rios Madeira e Abunã.
“em troca de 142.900 quilômetros quadrados de terra que lhe disputávamos e de 48.100 de terra que era reconhecidamente sua, isto é, em troca de 191.000 quilômetros quadrados, damos à Bolívia entre os rios Madeira e Abunã (ainda segundo os cálculos acima referidos) uma área de 2.296 quilômetros quadrados”
O que veio depois
O tratado foi criticado no Congresso e na imprensa, pela soma paga e pelas terras cedidas; o senador mato-grossense A. Azeredo protestou contra a cessão sem consulta ao estado. Mesmo assim, foi aprovado pelas duas Casas, segundo o CPDOC, e o Decreto nº 1.179, de 18 de fevereiro de 1904, o aprovou “em todas as suas clausulas”. As ratificações foram trocadas em 10 de março.
O Decreto nº 1.181, de 25 de fevereiro de 1904, autorizou o presidente a administrar provisoriamente o território. Foi a primeira vez que o país teve um território governado diretamente pela União, fora de qualquer estado. Em 7 de abril, o Decreto nº 5.188 organizou o Território do Acre, dividido em departamentos com prefeitos nomeados.
Plácido de Castro governou o território até fevereiro de 1904. Morreu em 11 de agosto de 1908, dois dias depois de ser ferido numa emboscada. O Acre seguiu território federal por décadas; foi elevado a estado em agosto de 1962, segundo o Arquivo Nacional.

O coronel Plácido de Castro depois da Revolução Acreana (c. 1904)autor desconhecido · Wikimedia Commons · domínio público
Relato escrito sobre as fontes listadas abaixo, conferidas em 28/10/2026.
Referências
Arquivo Nacional, cronologia da Primeira República
Documentos oficiais
- Decreto nº 1.179, de 18/02/1904 — aprova o tratado de 17 de novembro de 1903 · Senado Federal, Legislação
- Decreto nº 1.181, de 25/02/1904 — autoriza a administração provisória do território · Senado Federal, Legislação
- Cronologia da Primeira República (1889 a 1930) · Arquivo Nacional (MAPA)
- Os presidentes e a República: Deodoro da Fonseca a Luiz Inácio Lula da Silva (6ª ed., 2026) · Arquivo Nacional
Para ler mais
- Tratado de Petrópolis (verbete de Cristina Patriota de Moura) · FGV CPDOC, Dicionário da Primeira República
- Bolivian Syndicate (verbete) · FGV CPDOC, Dicionário da Primeira República
- Castro, Plácido de (verbete de Sergio Lamarão e Inoã Carvalho Urbinati) · FGV CPDOC, Dicionário da Primeira República
- A Primeira República · Câmara dos Deputados
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