Marcha dos 30 anos da luta antimanicomial, em São Carlos (SP), no Dia Nacional da Luta Antimanicomial (18/05/2018)Romerito Pontes from São Carlos, 2018 · Wikimedia Commons · CC BY 2.0
A Lei 10.216, de 6 de abril de 2001, garantiu direitos às pessoas com transtornos mentais e redirecionou o modelo de assistência para serviços fora do hospital. Nasceu do projeto do deputado Paulo Delgado, de 1989, que tramitou cerca de doze anos. O texto aprovado substituiu a extinção progressiva dos manicômios pela regra de que a internação só cabe quando o tratamento fora do hospital não basta.
- ~12 anosde tramitação, de 1989 a 2001 (Senado, PLC 8/1991)
- 72 horasprazo para comunicar a internação involuntária ao Ministério Público (art. 8º)
- 10.980leitos do SUS em hospitais psiquiátricos (Saúde Mental em Dados, 13ª ed., via Outras Palavras)
- mais de 3.000CAPS habilitados (mesma fonte)
- 950serviços residenciais terapêuticos (mesma fonte)
- R$ 240auxílio mensal inicial do De Volta para Casa (Lei 10.708)
O que havia antes
O modelo dominante era o hospital psiquiátrico de longa permanência. O caso mais documentado é o do Hospital Colônia de Barbacena (MG). Daniela Arbex (*Holocausto brasileiro*, 2013) afirma que ao menos 60 mil pessoas morreram ali entre o início do século XX e 1980.
Em 12 de setembro de 1989, o deputado Paulo Delgado apresentou o PL 3.657/1989. A ementa original tratava da “extinção progressiva dos manicômios” e da substituição deles por outros recursos assistenciais. Também regulamentava a internação compulsória.
No Senado, o projeto virou PLC 8/1991. Teve como relatores José Paulo Bisol, Lúcio Alcântara e Sebastião Rocha. Em 23 de novembro de 1995, a Comissão de Assuntos Sociais rejeitou o relatório de Alcântara e aprovou um substitutivo do senador Lucídio Portella.

Pacientes deixam as obras de construção da Colônia dos Alienados de Barbacena (MG), em 1921autor desconhecido · Wikimedia Commons · domínio público
O que aconteceu
Em 15 de dezembro de 1998, o plenário do Senado aprovou o substitutivo de Sebastião Rocha, que prejudicou o texto original. O turno suplementar foi em 21 de janeiro de 1999, e o projeto voltou à Câmara. A Câmara aprovou o substitutivo em 4 de abril de 2001. A sanção veio dois dias depois, assinada por Fernando Henrique Cardoso, José Gregori, José Serra e Roberto Brant. O Diário Oficial publicou a lei em 9 de abril.

Diário Oficial da União de 09/04/2001, Seção 1, p. 2, com a publicação da Lei 10.216 (reforma psiquiátrica)Imprensa Nacional, 2001 · Imprensa Nacional, acervo do Diário Oficial da União (pesquisa.in.gov.br) · ato oficial, sem direito autoral
O artigo 2º lista nove direitos da pessoa com transtorno mental. Entre eles estão o tratamento humanizado e o sigilo. Também estão o tratamento pelos meios menos invasivos e, de preferência, em serviços comunitários.
A lei define três tipos de internação: voluntária, involuntária (a pedido de terceiro) e compulsória (determinada pela Justiça). A involuntária tem de ser comunicada ao Ministério Público Estadual em até 72 horas. O artigo 4º proíbe internar em instituições “com características asilares”.
“A internação, em qualquer de suas modalidades, só será indicada quando os recursos extra-hospitalares se mostrarem insuficientes.”
O que veio depois
A Lei 10.708, de 31 de julho de 2003, criou o auxílio-reabilitação psicossocial do programa De Volta para Casa. Eram R$ 240 por mês para pessoas que deixavam longas internações. A Portaria 3.088, de 23 de dezembro de 2011, instituiu a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), com os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) em seis modalidades, entre elas os CAPS III, de 24 horas.
O Ministério da Saúde ficou cerca de dez anos sem publicar o boletim *Saúde Mental em Dados* e retomou a série em 2025. Segundo a análise de Cláudia Braga sobre a 13ª edição, havia mais de 3.000 CAPS habilitados. Também havia 950 serviços residenciais terapêuticos, mais de 4.000 beneficiários do De Volta para Casa e 10.980 leitos do SUS em hospitais psiquiátricos.
Arbex registra que a lei e o fechamento de leitos foram contestados, como na polêmica com Ferreira Gullar em 2009. Em 2025, o portal Futuro da Saúde informou que 21,6% dos municípios com mais de 15 mil habitantes e CAPS habilitado não tinham o serviço funcionando.

O Museu da Loucura, no antigo prédio do Hospital Colônia de BarbacenaEVELYN CRISTINA MIRANDA DIAS, 2025 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

O ex-deputado Paulo Delgado, autor do projeto da lei da reforma psiquiátrica (2010)Comunidade Bahá'í do Brasil, 2010 · Wikimedia Commons · CC BY 2.0
Relato escrito sobre as fontes listadas abaixo, conferidas em 28/10/2026.
Na República
Referências
Documentos oficiais
- Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001 · Presidência da República (Planalto)
- Projeto de Lei da Câmara nº 8, de 1991: tramitação · Senado Federal
- Lei nº 10.708, de 31 de julho de 2003 · Presidência da República (Planalto)
- Portaria nº 3.088, de 23 de dezembro de 2011 (Rede de Atenção Psicossocial) · Ministério da Saúde
Para ler mais
Toda mensagem é conferida na fonte oficial antes de mudar a página. Como corrigimos
