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A Primeira República (1889–1930) · cultura

O Manifesto Antropófago

1928 · governo de Washington Luís

Pagu, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Elsie Houston, Benjamin Péret e Eugênia Álvaro Moreyra na exposição de Tarsila no Rio, 1929Autor não identificado, 1929 · Wikimedia Commons · domínio público

Em maio de 1928, o primeiro número da “Revista de Antropofagia”, em São Paulo, trouxe o “Manifesto antropófago”, de Oswald de Andrade. O texto propõe “deglutir” criticamente a cultura europeia para fazer uma arte brasileira. É tido como o ápice da primeira fase do modernismo.

O que havia antes

Depois da Semana de 1922, Oswald de Andrade publicou em 1924, no “Correio da Manhã”, o “Manifesto da Poesia Pau-Brasil”, que pedia uma poesia de exportação feita da linguagem do povo. Paulo Prado escreveu que Oswald, em Paris, “descobriu, deslumbrado, a sua própria terra”. Ao mesmo tempo, o grupo verde-amarelo de Plínio Salgado e Cassiano Ricardo defendia um nacionalismo sem influência europeia.

Em 11 de janeiro de 1928, Tarsila do Amaral deu a Oswald, com quem era casada, o quadro “Abaporu”, de presente de aniversário. O nome, sugerido pelo poeta Raul Bopp, vem do tupi e quer dizer “o homem que come gente”. Ao ver o quadro, Bopp propôs criar um movimento em torno dele, segundo o CPDOC.

Capa do nº 1 da Revista de Antropofagia, maio de 1928

Capa do nº 1 da Revista de Antropofagia, maio de 1928Revista de Antropofagia, 1928 · Wikimedia Commons · domínio público

O que aconteceu

O manifesto foi lido para amigos na casa de Mário de Andrade e publicado no número 1 da “Revista de Antropofagia”, de maio de 1928, dirigida por Antônio de Alcântara Machado e gerida por Raul Bopp. O exemplar custava 500 réis. O texto vem assinado “Oswald de Andrade. Em Piratininga. Anno 374 da Deglutição do Bispo Sardinha”, em referência ao bispo devorado pelos caetés no século XVI.

É feito de aforismos. Diz, entre outros: “Só a ANTROPOFAGIA nos une”; “Tupy or not tupy, that is the question”; “A alegria é a prova dos nove”; “Antes dos portuguezes descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade”. Contrapõe ao patriarcado e à catequese um “matriarcado de Pindorama”. Cita Freud, Marx e Rousseau.

Segundo a Biblioteca Brasiliana Mindlin, da USP, Oswald já não fala da assimilação harmoniosa do Pau-Brasil, mas da “deglutição crítica das influências”. O antropófago é quem devora o inimigo para ficar com suas virtudes: a cultura europeia deveria ser comida e transformada.

“Antes dos portuguezes descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade.”

Oswald de Andrade“Manifesto antropófago”, Revista de Antropofagia, ano I, n. 1, 1928-05a fonte

O que veio depois

A primeira “dentição” da revista teve dez números, de maio de 1928 a fevereiro ou março de 1929; neles saíram um capítulo de “Macunaíma” e “No meio do caminho”, de Drummond. A segunda saiu em uma página semanal do “Diário de São Paulo”, de março a 1º de agosto de 1929, mais agressiva. Mário de Andrade e Drummond romperam com o grupo, e o jornal acabou com a página depois de protestos de leitores.

Em 1929, Tarsila pintou “Antropofagia”. Para Schwarcz e Starling, o manifesto buscava uma “língua literária” “não catequizada” (2015, cap. 13). Em 2022, a Biblioteca Mindlin e a Universidade Nova de Lisboa puseram a revista em fac-símile digital, de acesso gratuito.

Oswald de Andrade, c. 1920

Oswald de Andrade, c. 1920Auréola · Wikimedia Commons (revista Auréola) · domínio público

Relato escrito sobre as fontes listadas abaixo, conferidas em 28/10/2026.

Referências

Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (USP)

Documentos oficiais

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