O ferro-velho da Rua 6, em Goiânia, onde a cápsula de césio-137 foi aberta em 1987, fotografado em 2007IAEA Imagebank (Agência Internacional de Energia Atômica), 2007 · IAEA Imagebank (Flickr), via Wikimedia Commons · CC BY 2.0
Em 13 de setembro de 1987, dois catadores retiraram das ruínas do Instituto Goiano de Radioterapia, em Goiânia, um aparelho abandonado e abriram a cápsula de césio-137, cujo pó azul brilhante foi vendido a um ferro-velho e distribuído entre parentes e amigos. Quatro pessoas morreram em outubro, entre elas uma menina de 6 anos; 112.800 pessoas foram monitoradas e 249 tiveram contaminação, no maior acidente radiológico fora de uma usina nuclear.
- 112.800pessoas monitoradas no Estádio Olímpico
- 249com contaminação; 129 em acompanhamento médico
- 4mortes diretas em outubro de 1987, segundo o Estado; a associação de vítimas conta 66
- 6 anosa idade de Leide das Neves Ferreira
- 3.500 m³de rejeitos em Abadia de Goiás, a 23 km de Goiânia
O que havia antes
O Instituto Goiano de Radioterapia funcionou no Setor Central de Goiânia até 1985 e deixou no prédio, em ruínas, um aparelho de teleterapia com uma fonte de cloreto de césio-137 (Radis, Fiocruz).

A fonte de césio-137 do acidente de Goiânia, retirada do aparelho de radioterapiaIAEA Imagebank (Agência Internacional de Energia Atômica), 2007 · IAEA Imagebank (Flickr), via Wikimedia Commons · CC BY 2.0
O que aconteceu
Em 13 de setembro de 1987, Wagner Mota Pereira e Roberto Santos Alves retiraram o aparelho das ruínas e romperam o lacre da cápsula, para vendê-la como sucata. Em 18 de setembro, Devair Alves Ferreira, dono de um ferro-velho no Setor Aeroporto, comprou a peça; à noite, viu o brilho azul do pó e o levou para casa, distribuindo-o a parentes e amigos. Em 28 de setembro, com os primeiros doentes, Maria Gabriela Ferreira, mulher de Devair, levou a cápsula num ônibus à Vigilância Sanitária; em 29 de setembro, o físico Walter Mendes Ferreira identificou a radiação e a Comissão Nacional de Energia Nuclear foi avisada (Radis, Fiocruz).
De 30 de setembro a dezembro, a CNEN mapeou os pontos contaminados; no Estádio Olímpico, 112.800 pessoas passaram pela triagem: 249 apresentaram contaminação interna ou externa e 129 passaram a acompanhamento médico regular (Governo de Goiás; CNEN, Relatório do Acidente Radiológico em Goiânia, 1988). Em 23 de outubro morreram Leide das Neves Ferreira, de 6 anos, que manipulara e ingerira o pó, e Maria Gabriela Ferreira; em 27 e 28 de outubro, Israel Batista dos Santos, de 20 anos, e Admilson Alves de Souza, de 18, empregados do ferro-velho (Radis).
A descontaminação terminou em 21 de dezembro de 1987, com sete casas demolidas e 41 evacuadas; o presidente da CNEN, Rex Nazaré Alves, apresentou o relatório à CPI do Senado em 10 de março de 1988 (Radis).
“É concedida pensão vitalícia, a título de indenização especial, às vítimas do acidente com a substância radioativa césio 137, ocorrido em Goiânia, Estado de Goiás.”
O que veio depois
Os rejeitos, cerca de 3.500 m³ segundo o Governo de Goiás e cerca de 6 mil toneladas segundo a CNEN citada pela Câmara, foram levados em outubro de 1987 a um depósito provisório em Abadia de Goiás, a 23 km de Goiânia, definido como definitivo em 1989 e inaugurado em 1997, onde a CNEN instalou o Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste (Radis; Governo de Goiás; Câmara dos Deputados).
Em fevereiro de 1988 o governo de Goiás criou a Fundação Leide das Neves Ferreira para acompanhar as vítimas (Governo de Goiás). A Lei federal 9.425, de 24 de dezembro de 1996, concedeu pensão vitalícia, “a título de indenização especial”, às vítimas, por faixas de dose e de incapacidade, inclusive descendentes nascidos com anomalia e os agentes da Vigilância Sanitária expostos.
O número de mortos segue em disputa: a Secretaria de Saúde de Goiás conta quatro mortes diretas; a associação de vítimas e o Ministério Público de Goiás relacionam ao acidente pelo menos 66 óbitos e cerca de 1,4 mil contaminados ao longo dos anos (Mapa de Conflitos, Fiocruz).
Relato escrito sobre as fontes listadas abaixo, conferidas em 29/10/2026.
Referências
Secretaria de Saúde de Goiás, História do Césio 137; CNEN, relatório de 1988
Documentos oficiais
- Lei nº 9.425, de 24 de dezembro de 1996 · Presidência da República
- História do Césio 137 em Goiânia · Secretaria de Saúde de Goiás
- Acidente em Goiânia gerou 6 mil toneladas de lixo radioativo · Câmara dos Deputados
Para ler mais
- Como aconteceu o acidente do césio-137 em Goiânia (Radis, 19/06/2026) · Fiocruz
- GO: Vítimas do Césio 137 até hoje lutam pelo reconhecimento pleno de seus direitos · Fiocruz, Mapa de Conflitos
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