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A revista · ficções · Volume 2 · dossiê Copa russa

Gricha

Anton Tchékhov, tradução de Pedro Augusto Pinto

Publicado em 4 de julho de 2018

Gricha,[1] rapazinho pequeno, gorducho, nascido há dois anos e oito meses atrás, está passeando com a ama pelo bulevar. Vestiram-no com um longo albornoz de lã, um cachecol, um gorro enorme com um pompomzinho felpudo, e galochas quentinhas. Está com calor e sem ar, е além de tudo o sol desperto de abril bate diretamente em seus olhos e lhe queima as pálpebras.

Toda a sua desajeitada figura, caminhando tímida e titubeante, expressa uma profunda perplexidade.

Até então, Gricha só conhecera um mundo composto por quatro cantos, onde em um canto jaz sua cama, em outro o baú da ama, no terceiro, uma cadeira, e no quarto arde uma lamparina. Espiando debaixo da cama, aí também se vê uma boneca de braço arrancado e um tambor, já por trás do baú da ama há uma enorme diversidade de coisas: carreteis de linha, papeizinhos, uma caixa sem tampa e um palhaço quebrado. Neste mundo, além da ama e de Gricha, frequentemente surgem mamãe e o gatinho. Mamãe parece com a boneca, e o gatinho com a peliça de papai, só que a peliça não tem nem olho nem rabo. Saindo do mundo que se chama “de criança”, a porta leva à amplidão onde almoçam e bebem chá. Ali fica a cadeira de Gricha com suas perninhas altas e pende o relógio, que existe apenas para balançar o pêndulo e tiquetaquear. Da sala de jantar pode-se ir para o cômodo onde ficam as poltronas vermelhas. Ali, sobre o tapete, há uma mancha negra, pela qual até hoje ameaçam Gricha com o dedo. Depois desse cômodo tem ainda um outro, onde não se pode entrar, em que se vislumbra papai – figura profundamente enigmática! A ama e mamãe são compreensíveis: vestem Gricha, alimentam-no e põem-no para dormir, mas por que razão existe papai – não se sabe. Há ainda outra figura enigmática, titia, que foi quem deu o tambor para Gricha. Ora surge, ora some. Some para onde? Gricha mais de uma vez espiou debaixo da cama, atrás do baú e sob o sofá, mas lá é que ela não estava…

Já neste mundo novo, em que o sol fere a vista, há tantos papais, mamães e titias que não dá para saber para quem a gente corre. Mas o mais estranho e incoerente são os cavalos. Gricha olha para as suas pernas andantes e não consegue compreender. Olha para a ama para que esta o oriente, mas ela cala.

De repente, ouve um terrível tropel… pelo bulevar, com passo regular, vem vindo diretamente para Gricha uma multidão de soldados, com rostos vermelhos e vassouras de banho debaixo do braço. Gricha, de terror, congela todo, e olha interrogativo para a ama: não é perigoso? Mas a ama não corre nem chora, logo, não é perigoso. Gricha segue os soldados com os olhos e começa ele próprio a andar conforme o compasso.

Pelo bulevar, vão correndo dois grandes gatos de focinho comprido, com a língua de fora e o rabo empinado. Gricha acha que também deve correr, e sai correndo atrás dos gatos.

– Espera aí! – grita-lhe a ama, segurando-o bruscamente pelos ombros. – Aonde pensa que vai? Quem foi que mandou você aprontar?

Eis que uma outra ama está sentada e segura uma pequena tina de laranjas. Gricha passa ao seu lado e, em silêncio, pega uma laranja para si.

– Para que isso? – grita-lhe a sua acompanhante, estapeando sua mão e arrancando dela a laranja. – Imbecil!

Agora Gricha poderia pegar com prazer um vidrinho caído debaixo dos seus pés, brilhante como a lamparina, mas tem medo que lhe batam de novo na mão.

– Meus cumprimentos! – súbito ouve Gricha, quase que em sua orelha, a voz forte e grossa de alguém, e enxerga uma pessoa alta com botões claros.

Para sua grande alegria, essa pessoa dá a mão à ama, se detém junto a ela e começa a conversar. O brilho do sol, o barulho das carruagens, os cavalos, os botões claros – tudo isso é tão surpreendentemente novo e pouco assustador, que a alma de Gricha se enche de um sentimento de regozijo e ele começa a gargalhar.

– Vamos! Vamos! – grita à pessoa de botões brilhantes, puxando-a pela aba.

– Vamos aonde? – pergunta a pessoa.

– Vamos! – insiste Gricha.

Tinha vontade de dizer que não seria nada mal também arrastar consigo papai, mamãe e o gatinho, mas a língua fala tudo menos o que deve.

Após certa espera, a ama deixa o bulevar e leva Gricha a um grande pátio, onde ainda há neve. Também a pessoa dos botões claros vai com eles. Contornam com cuidado poças e blocos de neve, passam por uma escada suja e escura e entram em um cômodo. Ali há muita fumaça, o ar é quente e uma mulher está junto ao fogão fritando croquetes. A cozinheira e a ama se beijam e se sentam com a pessoa num banco, e começam a falar baixinho. Gricha, todo encapotado, sente um calor e uma falta de ar insuportáveis.

“Por que isso?” pensa, olhando ao redor.

Vê o teto escuro, o atiçador com dois chifres, o fogão que parece uma enorme toca negra…

– Ma-a-mã! – diz, arrastando a voz.

– É, é, é! – grita a ama – Vai esperar!

A cozinheira põe sobre a mesa uma garrafa, dois cálices e uma torta. As duas mulheres e a pessoa de botões claros brindam e bebem algumas vezes, e a pessoa abraça ora a ama, ora a cozinheira. E depois o trio inteiro começa a cantar baixinho.

Gricha se estica até a torta, e lhe dão um pedacinho. Ele come e observa como a ama bebe. Também tem vontade de beber.

– Dá! Ama, dá!

A cozinheira lhe dá um golinho de seu cálice. Ele esbugalha os olhos, franze todo, tosse e depois agita longamente as mãos, enquanto a cozinheira olha para ele, rindo.

Ao voltar para casa, Gricha começa a contar a mamãe, às paredes e à cama, onde foi que esteve e o que foi que viu. Fala mais com rosto e com as mãos do que com a língua. Mostra como brilha o sol, como correm os cavalos, como se parece o terrível fogão e como a cozinheira bebe…

À noite, não consegue de jeito nenhum adormecer. Soldados com vassouras, gatos enormes, cavalos, o vidrinho, a tina com laranjas, os botões claros – tudo isso se ajuntou em uma massa, apertando o seu cérebro. Ele vira de um lado para o outro, agita-se e por fim, não suportando sua própria excitação, começa a chorar.

– Mas você está ardendo! – diz mamãe, encostando a mão em sua testa. – De onde é que isso pode ter vindo?

– Fogão! – chora Gricha – Sai, fogão!

– Deve ter comido demais…. – conclui a mamãe.

E Gricha, sufocado pelas impressões da vida nova, e recém experimentada, recebe da mamãe uma colherinha de xarope.

*

[1] Diminutivo de Grigori.

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