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A revista · poesia · Volume 1 · dossiê lugar de mulher

eu queria ser uma baleia

Martina Sohn Fischer

Publicado em 10 de julho de 2017

Na cidade
Nem tempestade
Lava o sangue

*

eu queria ser uma baleia

Pra falar outra língua, que não fosse a nossa
Pra nunca fechar os olhos
Pra deslizar uma vida toda
Pra ser peixe grande no infinito
E pequeno então

até desaparecer
de carcaça e tudo
bem lá no fundo do mar

num adeus silencioso
indecifrável

virar oceano

*

O dia mais triste

São todos
que ainda levam minha memória de você
para longe
o lugar no tempo onde não há lembrança

o dia mais triste
é este
que cresce numa memória inventada
de nós
jogando cartas nas mãos
eu criança
sabendo de tudo, sobre um mundo todo
que não existe mais

o dia mais triste
é hoje
onde todas as saudades estão
num coração só

*

flor de cúpula

raízes no vidro, não há terra nem mundo suficientes
caindo para o lado da janela, cresce torta, esperando que o vidro se parta
na força de sua existência, mesmo no mínimo espaço, ela existe para tudo
mais que todos
deito na minha cama, pequena, sendo pequena,
caindo para o lado da janela
buscamos a vida e no fim
admito que a morte não cabe aqui
não mais que minhas pernas e braços
sou inteira de existir
e memória
criando tudo feito raízes

*

caça

me fiz
olhando a teia que sobe a árvore
grudada nos galhos, começa no tronco
nada me fez
olhando as gotas finas
delicada aranha
prendendo o vento
e asas
eu presa olhando
a árvore toda
 caçando

*

De quatro
Para algo de você
que só toco assim

e algo de mim
que nunca sou

só assim

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