A revista · ficções · Volume 1
Cumprir-se
José Santana Filho
Publicado em 14 de dezembro de 2017
A vida inteira acreditou-se escritor, mas nesta manhã descobriu o engano. Justo agora quando se sentia à vontade com folhas e a tela em branco percebeu que necessita de respaldo, aprovação, julgamento. E um escritor deve escrever por coação interna, não para soar impactante, parecer inteligente ou levar o burro à sombra, aliviando a lida.
Aliás, é por não ter conhecimento da vida que um escritor escreve, um escultor esculpe, e mesmo uma bailarina rodopia na ponta do pé – alheios a respostas, tudo assim perguntas. Falou-se em técnica – “Você progride a cada vez” – mas ele toma vício por técnica, cometendo falácias, o rei segue nu e ele viu. Em um texto que se mostrava sólido avistou rachaduras e remendos, como se de um castelo enxergasse o calço segurando a torre, e avermelhou as bochechas.
Tempos atrás, o outro comentou depois de ler sua primeira coletânea de artigos: “Você não é jornalista, nem poeta, nem escritor, embora se assemelhe a todos. Nada pior para uma vocação do que assemelhar-se, peixe bicando o aquário sem jamais chegar ao mar. Jornalistas informam, poetas revelam, escritores se fuçam. Você passa por estas portas sem se deter em nenhuma.”
Artista é quem não poderia ser outra coisa – acreditou desde sempre. Não por incapacidade, mas por urgência de vasculhar o avesso, investigar, jogar a luz, e só então se perder em todo o breu. O artista executa a arte respondendo ao impulso orgânico, quem sabe moldar em barro a vertigem. Ou em palavras – em telas, bordados, sapatilhas e pincéis.
– Romântico demais – disse o um.
– A arte tem a inutilidade de praticamente tudo – o dois.
– Sem a arte padeceríamos da solidão espiritual – o três acudiu.
A vida inteira acreditou-se escritor. Errou de foco e destino. Não se trilha um caminho para a escrita, nem há graduação acadêmica definitiva. Labuta-se em silêncio como quem bate rede na beira do rio Tocantins, ouvindo apenas o atrito na pedra. Não será escritor pelo motivo mais raso: porque não escreve. Porque espera – e alardeia. A arte é pó flutuando à contraluz do sol: ou faz beleza ou faz tossir – quem sabe vire copos de cerveja.
(deveria tentar ainda uma vez. existe ali dentro, em alvoroço, uma criatura que precisa – por favor – libertar-se dela.
para então cumprir-se.)